Os nossos traumas enquanto nação e as conversas que não tivemos
Segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Os nossos traumas enquanto nação e as conversas que não tivemos

Imagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Attilio Diniz de Freitas

 

Aos idos da infância e adolescência do século passado, apregoavam-se afirmações de que o clima, o sol, tropical não permitiriam, por exemplo, a manufatura de motores: a industrialização avançada barrada pelo arcaísmo de nossa temperatura, excessiva.

 

 

Em tempo ululou o óbvio, e tais afirmações receberam adjetivação correta: paranoia e mistificação. Eram, de todo, esclarecimentos que buscavam confundir, ou confusões que almejavam esclarecer – esclarecer que o desenvolvimento nacional deveria permanecer como nossos sonhos de nação: potencialidade a ser – quem sabe, um dia – realizada. 

 

Ainda assim…ainda assim talvez alguns esclarecimentos de fato não suportem a potência do sol do nosso patropi. Diz-se, por exemplo, que os fantasmas daquilo que não se resolve, daquilo que não se fecha o ciclo, do passado inconcluso, haverão de assombrar o presente. A mim me parece que essa verdade não nos afeta: não temos fantasmas a puxar-nos os pés e a ranger nossos assoalhos nas horas mortas de nossa madrugada. 

 

Não. Como povo, somos alheios a esse ensinamento, dele não necessitamos. E assim somos, inabitados de assombrações quero dizer, porque jamais deixamos inconclusos nosso passado: jamais deixamos nosso passado. Dizer que mal resolvemos nossas questões é delicadeza que os tempos hodiernos não nos permite: sequer tocamos em nossas discussões e temas fundamentais. Os traumas que tivemos como nação e povo são não-lugares, em não-conversas que não temos. 

 

Séculos de escravidão – essencialmente formativos de nossa consciência, de nossos (pre)conceitos, de nossos hábitos, de nossos dizeres, de nossa cor de pele, essencialmente formativos do que somos como como povo – pululam em nossas cidades, e nossa memória, na forma de centenas de museus da escravidão; de reconhecimento inequívoco e amplamente aceito d’uma dívida para os negros. Desembarcasse hoje Debret, não d’um navio, mas no Galeão ou em Guarulhos, e os quadros que outrora pintara jamais lhe viriam à memória. 

 

Ditongos de ditadura, com meros hiatos democráticos, são remorados para não serem esquecidos, e disso, repetidos, num sem-fim de memoriais, museus e num claro posicionamento de ampliação de direitos, de afirmação de direitos humanos, de afrontamento a pensamentos e comportamentos autoritários e excludentes. 

 

Leia também:

Podcast Justificando trata sobre pós-democracia, escalada autoritária e fascismo no BrasilPodcast Justificando trata sobre pós-democracia, escalada autoritária e fascismo no Brasil

Nossa forma de se religar a deus firmou-se em libertação, no caráter amoroso, generoso dos textos ecumênicos, preocupados em fazer do sótão da alma humana o único cômodo habitado – e rejeita interpretações marcadamente machistas, homofóbicas e autoritárias (por que não dizer logo que diretamente em violação a princípios democráticos de igualdade e dignidade?) d’um deus tacanho, mesquinho e vil, que se acovarda e treme diante do diferente – criador menor que criatura – justificando o que de pior esgota-se no porão humano. 

 

Não, nunca. Nada disso é a vereda que resolvemos trilhar: construímo-nos na contramão, sem expurgar nenhum de nossos vilanismos – autoritarismo, machismo, patrimonialismo, racismo – antes, aplicando-lhes o mais fino verniz possível de civilidade, para que possamos dizer com a boca escancarada e cheia de dentes que somos éticos, embora violentos, que somos intelectuais, embora glorifiquemos aberta e risonhamente a ignorância, que somos justos, embora fascistas, que somos igualitários, embora tenhamos pavor do feminino e desprezo pelo negro. A morte tem-nos que chegar logo mesmo, aberrações que nos fizemos.

 

Ao deparamos com chances e oportunidades de, se mais nada, tentar fazer de nossa Constituição mais que mero conjunto de folhas timbradas à tinta, exibimos e empenhamo-nos num sadismo profundo: flagelamos mais os já flagelados, aos murmúrios de confirmação e concordância, piamente crentes de que deve-se nada fazer em relação à concentração de renda, à violência sistêmica, à guerra civil velada, à produtividade pífia, à educação não presente, e piamente crentes de que é asseverando nossas contradições e dismorfias que iremos tornar-nos corretos. Rimos do imperativo categórico: a filosofia que nos convém basta-se no imperativo.

 

Não, aqui não temos assuntos inconclusos, somos é sinestésicos: inconcluímos o tempo em si – somos o nosso passado. Que um dia cheguemos, quiçá, no presente… porque impossibilitamos a nós mesmos o futuro.

 

 

Attilio Diniz de Freitas é Mestre (LLM) em International Business pela King’s College London. Graduado em direito pela Universidade de São Paulo. Advogado.


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Segunda-feira, 9 de setembro de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend