Que tipo de segurança você quer?
Terça-feira, 10 de setembro de 2019

Que tipo de segurança você quer?

Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Martel Alexandre del Colle

 

Você quer sair do portão de casa e encontrar policiais em uma esquina e bandidos na outra trocando tiros uns contra os outros? Talvez você esteja sozinho enquanto a troca de tiros acontece. Talvez você esteja com marido, esposa, filhos. Talvez saindo a pé, talvez saindo de carro. Talvez sequer saia, mas tenha medo de que uma bala perdida atravesse a janela e acerte o berço ou o seu pai que assiste o jornal. É esse o tipo de segurança que você quer?

 

 

Ou prefere que esse tipo de situação seja a exceção e não a regra?

 

A questão é que é possível, sim, escolher. Escolher entre uma sociedade do confronto, na qual você não tem paz. Uma sociedade na qual você morre de medo de sair às ruas, morre de medo enquanto um familiar seu não chega, morre de medo dentro de casa. Ou uma sociedade na qual você não tem esses temores aflorados. Onde você gasta sua energia, pensamentos e dinheiro em coisas que ama, coisas das quais você gosta.

 

Mas é possível escolher ou estamos fadados a sociedade do confronto?

 

A boa notícia é que é possível escolher. A sociedade do confronto tem premissas falsas. A primeira premissa falsa que vem escondida é a de que bandidos nascem de bandidos, portanto, eliminando bandidos você diminui a criminalidade. Essa ideia é falsa. E eu nem preciso explicar os porquês. 

 

O segundo axioma é o de que matando eu diminuo o número de bandidos e, por consequência, a criminalidade. Também é falso. Quanto mais confrontos, mais famílias desestruturadas, mais ódio, mas gente caindo nas mãos de facções. Essa matemática resulta em mais crime.

 

O terceiro axioma é o de que quando o Estado responde ao crime com mais violência e rigidez, então ocorrem menos crimes. Foucault explica de maneira muito clara em seu livro Vigiar e Punir que um Estado violento gera cidadãos mais violentos. Se o Estado promove a violência, ele acaba por acostumar os violentados aquele padrão de violência. Aqueles que se acostumam ao novo padrão de violência, respondem com o mesmo padrão de violência aos outros cidadãos e ao Estado. Temos, então, uma sociedade mais violenta. Não existem estudos sérios no mundo que afirmem que o aumento das penas resulte em mais segurança. E os países mais seguros do mundo não são conhecidos pelo alto número de confrontos armados e morte de policiais. Portanto, a violência do Estado gera o efeito contrário do esperado. Gera mais violência e menos segurança.

 

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A quarta premissa é a de que existem dois tipos de pessoas no mundo: as honestas e os bandidos. Também é falso. Sartre afirmava que ninguém comete nenhum ato pensando ser ele errado. O ato pode ser um crime, pode ser danoso, pode ser mau, mas na cabeça de quem comete a atitude parece correta. Portanto, a maioria dos criminosos não é aquele ser maléfico idealizado pela sociedade que come criancinhas no café da manhã. Existem pessoas más, mas a maioria dos crimes não são cometidos por elas. A maioria dos crimes é praticado por pessoas que acreditam estar fazendo o correto. Portanto, a educação e uma sociedade mais justa são capazes de diminuir mais o crime do que matar bandidos. O Brasil tem um número alarmante de estupros e a esmagadora maioria não é cometida por maníacos do parque, mas por pessoas que se consideram honestas, boas, mas que entendem que uma mulher não tem autonomia sobre o próprio corpo, por exemplo. Mudar essa lógica será mais eficaz do que matar todos os estupradores do país. Responsabilizar essas pessoas é outra coisa que não é possível na sociedade do confronto, que só teria resposta para o estupro se ele fosse um flagrante. 

 

E aqui chegamos até um ponto interessante. Se existem sociedades mais violentes e sociedades menos violentas em que o confronto não é apresentado como a solução; se é possível uma sociedade segura e sem confrontos, então por que não escolhemos esse modelo?

 

Porque, na verdade, a sociedade já é segura para quem defende essa ideologia. Ou você acha que a elite do dinheiro acorda com confronto armado na porta de casa? Você acha que eles pediriam mais tiros se isso acontecesse? Você acha que eles pediriam mais confrontos se uma bala perdida atravessasse a janela do quarto do filho deles? A questão é que esse terror, esse medo, é deixado para a certas partes da sociedade. Pois, a ideia não é segurança para todos, mas segurança para a elite. Ainda fazemos segurança pública como se houvesse dois tipos de pessoas: os cidadãos e os subcidadãos. A questão é que a elite do dinheiro não conseguiria sustentar essa ideia sozinha, ela precisa de subcidadãos que acreditem que essa é a solução, pois um povo consciente é poderoso demais. Ela precisa de policiais que acreditam que o confronto, a morte, é a solução. Mesmo sabendo que isso aumenta a morte de policiais. É preciso ter policiais que acreditem que eles precisam trocar tiros, precisam morrer.

 

E enquanto não despertarmos para a realidade não teremos segurança no país para todos. Enquanto o bairro rico tem índices de criminalidade, principalmente mortalidade, muito baixos, os bairros dos subcidadãos são relegados a segurança do confronto. Quando todos forem cidadãos, então todos terão segurança. Quando todos tiverem segurança, então teremos menos crimes violentos. Com menos crimes violentos, menos pessoas, inclusive policiais, vão morrer. 

 

Que tipo de segurança você quer?

 

 

Martel Alexandre del Colle tem 28 anos e é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.


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