A banalização do absurdo e os discursos de ódio
Segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A banalização do absurdo e os discursos de ódio

Arte: Gabriel Pedroza/Justificando

 

Por Leonardo Freire Marino

 

Em um estudo que durou aproximadamente cinco anos, pesquisadores na Universidade de Exeter (Inglaterra), identificaram o ciclo migratório das tartarugas-de-couro através do Atlântico Sul.

 

 

As tartarugas-de-couro ciclicamente iniciam um longo deslocamento entre o litoral do Gabão, na África Central, local onde é encontrada a maior colônia de reprodução desta espécie no planeta, para a costa da América do Sul, local em que elas passam a maior parte do seu ciclo de vida. Durante seis meses, as tartarugas-de-couro realizam a árdua tarefa de cruzar os cerca de 8 mil quilômetros que separam uma costa a outra do Oceano Atlântico, em busca das condições ideais para depositarem seus ovos e se alimentarem.

 

As explicações para este penoso deslocamento não são plenamente identificadas. No entanto, a teoria mais aceita se apoia em um processo de condicionamento que foi estabelecido naturalmente. Segundo esta teoria, no período em que a América do Sul e a África formavam um único bloco de terras emersas, o supercontinente de Gondwana, e o Oceano Atlântico não passava de um pequeno curso de água, as tartarugas-de-couro se habituaram a atravessar de uma margem a outra em busca de melhores condições para se alimentarem e reproduzirem. Neste período, a travessia não representava um desafio e era realizada sem muito esforço. Porém, com a lenta abertura do Oceano Atlântico, cerca de 3 centímetros a cada ano, a travessia gradualmente se transformou em um sofrido deslocamento. 

 

O que as tartarugas-de-couro nos ensinam? Acredito que o ciclo de vida das tartarugas é capaz de ilustrar as adversidades que a conjuntura política atual nos impõe. Considero que as pequenas alterações, aqueles processos pouco significativos que, em sua maioria, despertam pouca atenção, quando acumulados, podem provocar um alargamento, um distanciamento entre as condições que consideramos como fundamentais para a nossa segurança e o desafio para a preservação de nosso modo de vida. 

 

As tartarugas não perceberam o progressivo aumento das distâncias, o afastamento das margens e das condições que garantiam a sua segurança. Nós, em diversos episódios de nossa vida política recente, não destinamos a atenção necessária aos pequenos sinais de mudanças; não percebemos o que representavam os pequenos atos, gestos e discursos que carregavam os sinais de alteração em nosso regime político. Ao desprezamos a importância dos pequenos sinais, não atentamos para as transformações em curso e, consequentemente, estamos nos impondo um árduo desafio e colocando em risco a existência do que consideramos como condições ideais para nossa democracia.  

 

No ano de 1999, um então deputado federal, eleito com uma pauta classista de defesa dos militares de baixa patente, ganhou repercussão com diversas afirmações que deveriam ser consideradas como inaceitáveis. Entre as barbaridades proferidas pelo então deputado destacam-se a defesa da tortura, o fechamento do Congresso Nacional, a implementação de um golpe de estado e o fuzilamento do então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Nas décadas seguintes, o deputado continuou fazendo afirmações absurdas, baseadas em um discurso extremista, cada vez mais violento, sexista e discriminatório. Mesmo que tais posições sejam inaceitáveis, elas não despertaram a atenção da sociedade como deveria; não provocaram reprimendas ou sansões ao deputado pelos órgãos competentes. Foram encarados como banais, pouco significativas e sem importância. Hoje, o ex-deputado se encontra no posto de Presidente da República. 

 

No entanto, nossa preocupação não deve se reduzir aos processos eleitorais, eles não representam os processos de mudança, eles não constituem as causas do distanciamento do que julgamos como fundamental. Os resultados em pleitos eleitorais representam as consequências de processos mais complexos, de um gradual processo de alargamento das margens, do nosso afastamento daquilo que deve ser considerado como fundamental em um regime democrático. Tal fato não retira a responsabilidade dos atuais governantes, mas complexifica e aponta para a necessidade de elaboração de explicações mais racionais para o que estamos vivendo. 

 

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As modificações vêm ocorrendo há décadas. Convivemos com discursos de ódio há muito tempo. Mas, infelizmente não percebemos que gradualmente estávamos nos distanciando de valores fundamentais, valores que deveriam ser alimentados, ampliados e considerados como basilares em um amplo processo civilizatório. Os políticos, oportunistas, muito mais do que populistas, apenas catalisaram os anseios, os desejos difundidos na população. Eles perceberam as transformações em curso antes que elas despertassem a nossa atenção.  

 

Estamos diante de um processo de transição e de construção de um modo de vida alicerçado no autoritarismo e na violência como norma. As razões ainda não são claras, qualquer suposição ou busca por explicação irá carecer de um distanciamento analítico que dê conta da complexidade envolvida. Porém, se suas razões não são evidentes, são inegáveis os sinais de mudanças. Estamos cada vez mais distantes do que deve ser considerado como basilar em um sistema democrático. Para muitos a democracia envolve a liberdade do voto. Em qualquer democracia o voto é central. Entretanto, o voto representa apenas um aspecto do regime democrático. Nesses regimes é fundamental que as liberdades individuais sejam respeitadas e que o direito à vida seja considerado. Por isso, o quadro atual é tão preocupante, o desprezo pela vida, o autoritarismo e o ódio da vingança imiscuído em justiça tem atingido patamares cada vez mais expressivos e produzido vítimas cotidianas.

 

Ao longo da história, os regimes autoritários não foram apenas formados por políticos e agentes estatais autoritários, mas, fundamentalmente, por sociedades que internalizaram o autoritarismo como modo de vida. Neste sentido, são observados diversos regimes adjetivados como democráticos que adotaram medidas autoritárias e violentas com amplo respaldo social. Então, estaria o Brasil se transformando em um país autoritário? Infelizmente, penso que já ultrapassamos esse ponto da história. Acredito que somos uma sociedade marcadamente autoritária. Fato evidenciado pela longa trajetória de violência contra grupos específicos, pelo derramamento do sangue de indivíduos considerados como descartáveis e por uma consolidada necropolítica. No entanto, se o autoritarismo e a violência fazem parte de nossa sociabilidade, não podemos negar que desde os processos de abertura política em meados da década de 1980, passamos a acreditar que caminhávamos para a construção de freios para o arbítrio do aparato estatal. Mesmo que lentamente apontávamos para um cenário em que a violência estatal não seria mais tolerada. 

 

Hoje, no entanto, tudo caminha para um recuo, para um retrocesso. Estamos vivendo a retomada do autoritarismo e do arbítrio, que além de serem cada vez mais tolerados, passaram a ser encarados como única forma de atuação estatal. As palavras carregam um valor fundamental. Quando proferidas por agentes do Estado as palavras carregam o sentido de legitimar práticas cotidianas. Este é o caso dos discursos políticos assentados no ódio e que carregam a vingança travestida de justiça, quando estabelecidos por agentes públicos, elas carregam a capacidade de legitimar práticas violentas e autoritárias de indivíduos que incorporaram a violência como norma e que passam a atuar sem os freios naturais do regime Estado de Direito. 

 

Caso o cenário político atual não mude, de forma semelhante aos acontecimentos vivenciados pelas tartarugas-de-couro, estaremos cada vez mais distantes de nossa segurança. No entanto, engana-se quem aponta que os desafios envolvem apenas os grupos mais vulneráveis, atualmente, as principais vítimas da violência e do arbítrio, a insegurança atingirá toda a sociedade, produzindo vítimas em todos os estratos sociais, uma vez que banalizamos a barbárie. 

 

 

Leonardo Freire Marino é Doutor em Geografia pela UFF e Professor Adjunto da UERJ, onde integra o Grupo de Pesquisa Geografia História e Política desenvolvendo estudos e pesquisas sobre violência e educação.


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