“Um militar sem formação política, ideológica, é um criminoso em potencial”
Terça-feira, 17 de setembro de 2019

“Um militar sem formação política, ideológica, é um criminoso em potencial”

Imagem: Tânia Rêgo/Arquivo/Agência Brasil

 

Por Martel Alexandre del Colle

 

Quem era Thomas Sankara para dizer isso? Thomas Sankara foi um militar. Nasceu em um país pobre, uma antiga colônia da França, localizado na África.

 

 

Ao entrar no exército recebeu a oportunidade de estudar por um período em Madagascar. Lá Sankara procurou aprender formas de fazer a vida do seu povo melhor. Voltou para o seu país e anos depois liderou uma revolução. O país mudou de nome e hoje se chama Burkina Faso. 

 

Sankara lutou para que seu povo fosse livre, não passasse mais fome, não fosse mais explorado. Lutou para acabar com a corrupção dentro do estado e das forças armadas. Ele também não aceitava que pessoas do governo tivessem uma vida luxuosa enquanto parte do povo passava fome. Ele mesmo dava o exemplo e não permitia nem a ele e nem a sua família uma vida de ostentação e luxo.

 

Thomas Sankara era destemido. Discursava com ousadia diante de líderes de países muito mais poderosos que o seu. Mas ele tinha um ideal em mente: uma vida melhor para o seu povo e para todos os povos.

 

Thomas Sankara, o homem que disse a frase do título, foi morto por um grupo de militares. Um grupo de militares que não concordava com as ideias de Sankara. Ao perceber o cerco, Sankara pediu para que os militares matassem apenas a ele e poupassem as outras vidas. O pedido não foi atendido.

 

Thomas Sankara morreu aos 37 anos, mas deixou um legado que não se apagará. 

 

Fato é que em países subdesenvolvidos, como o Brasil, os militares tiveram durante toda a história um papel muito maior do que o de manutenção da segurança, das fronteiras etc. 

 

Por que isso acontece?

 

Isso acontece porque no sistema capitalista os grupos que comandam um país precisam de pessoas que lutem por eles, pois os donos do poder não querem perder suas vidas nas linhas de frente. Logo, eles precisam de pessoas para cumprir esses papeis. Eles precisam de pessoas para ir a guerra e precisam de pessoas que criem um perímetro de proteção nos arredores das suas propriedades e das pessoas que são importantes para essa elite.

 

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Vou deixar o militarismo do exército de lado a partir daqui e me focarei no serviço policial. Principalmente no serviço das polícias militares.

 

Nos países subdesenvolvidos que foram colônias por um certo período, existe uma diferença muito clara de classes. Não é difícil de compreender que o colonizador tinha um status diferente do colonizado. Porém, não era incomum o uso de nativos ou cidadãos de status inferior ao dos chefes colonos para realizar o trabalho de segurança e proteção da elite local.

 

Esses militares eram organizados hierarquicamente, e os postos intermediários precisavam de uma certa carga de estudos para conseguir realizar suas atividades. E esse é um dos motivos que explicam por que muitas revoluções começaram com membros do exército em países subdesenvolvidos. Ao se depararem com o conhecimento, eles se percebiam explorados e percebiam o seu país explorado. Diante dessa percepção eles começavam a organizar mudanças na nação. 

 

Nos dias de hoje, parece que essa função está um pouco mais apagada. Afinal, mais pessoas têm acesso a educação, a instrução, o que abre mais possibilidades de mudança para o país. Mas isso não tira a importância das forças policiais no cenário político.

 

Concordo com a frase de Sankara citada no início, mas discordo do fato de que um policial sem formação política e ideológica seja um criminoso em potencial, pois não existe pessoa sem formação política.

 

Todas as policiais militares do Brasil formam seus militares política e ideologicamente. O movimento escola sem partido queria impedir a formação política e ideológica de alunos, mas isso é impossível. O que é possível é formar alguém com uma visão política estreita e uma visão ideológica estreita. É isso o que acontece nos centros de treinamento das polícias militares e é isso que o escola sem partido pretende. 

 

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Já que todos teremos uma formação política e ideológica, o ideal é que todo o cidadão tenha acesso a várias formas de política e a várias ideologias. Assim, ele é capaz de pensar sobre todas elas e se decidir.

 

Não é o que acontece nas polícias militares. Os policiais militares recebem apenas um tipo de formação política e ideológica. Eu reformularia a frase do Sankara da seguinte forma: “Um militar com uma formação política, ideológica, estreita é um criminoso em potencial”.

 

Um policial militar que só recebe a informação de que pessoas que moram em favelas são coniventes com o crime, preguiçosas, merecedoras da pobreza, dificilmente tratará essas pessoas com humanidade.

 

Um policial militar que é formado politicamente com as ideias (ideologia) de que prender um criminoso não adianta, de que direitos humanos atrapalham, que o mundo é dividido entre cidadãos de bem e criminosos, dificilmente não se sentirá tentado a executar alguém que ele considera do mal.

 

Precisamos de uma formação mais plural nas policiais militares, pois elas nunca deixarão de ter um grande potencial de mudança. E é justamente por isso que elas são tão manipuladas. Porque há uma preocupação com o poder de uma força policial que pensa, que se nega a cometer arbitrariedades, que se percebe explorada, que se considera parte do povo.

 

É por isso que o militar é treinado separado dos cidadãos, para que ele não se sinta parte do povo e seja capaz de ir contra o próprio povo, já que agora ele não é mais um cidadão do país, mas um agente de uma corporação. E o objetivo não é o melhor para o país, mas trazer glória para a corporação. Um militar que pensa assim é um criminoso em potencial.

 

 

Martel Alexandre del Colle tem 28 anos e é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.


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