Em Bacurau, viver é insurgir-se!
Quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Em Bacurau, viver é insurgir-se!

Imagem: Filme Bacurau / Divulgação

 

Coluna Cláusula Pétrea / às quartas no Justificando

Por Simone Nacif, juíza de direito

 

Após assistir a Bacurau, eu me senti novamente como na adolescência: com coragem para encarar policia na rua, abrir o peito pro enfrentamento… o filme é um inegável apelo à resistência.

 

 

Essa semana li um texto de um nordestino do sertão que disse ter se emocionado desde a primeira cena do filme porque tudo lembrava sua vida, desde o jeito das pessoas até os problemas retratados. 

 

Muitas críticas e textos têm sido feitos a Bacurau, mas alguns pecam por se revelarem elitistas, rebuscados e arrogantes porquanto revelam uma falta de entendimento sobre emancipação, organização popular e colonização. Mostram que não se tem ideia do que é usar a linguagem do dominante, do colonizador, para denunciar e deslegitimar o domínio e a colonização.

 

Tanto Paulo Freire como Gramsci, e antes dele Marx no seu 18 Brumário, constatam que a revolução do proletariado é mais difícil porque não se limita à mera alternância da hegemonia, mas antes implica na superação pelo dominado da própria concepção normalizada da dominação. O dominado se percebe como explorado e compreende que só ele mesmo pode reagir à violência do dominante. Só o dominado pode reverter a relação de dominação, emancipando-se. Para isso, tem de desenvolver essa consciência crítica que necessariamente passa pela superação da dominação entranhada em si mesmo.

 

E não há meio mais eficaz para superar a subalternização do que usar o instrumento de domínio pra romper com a dominação. 

 

Dizer que é paradoxal usar uma técnica de cinema americano para criticar a colonização americana é um equívoco do ponto de vista da análise do discurso contra-hegemônico. Usar uma técnica pra criticar seu criador é bomba de megaton: explode por dentro.

 

É bem compreendido no contexto do filme que Lunga não é um personagem engajado na resistência coletiva. Fica claro que a resistência de Lunga é marginal até mesmo para Bacurau. Ele transita na ilegalidade até mesmo para os “padrões” de insurgência de Bacurau – se é que se pode falar em padrão quando se fala em insurgência e em Bacurau.

 

Mas a narrativa do filme deixa claro que a comunidade de Bacurau é organizada e, ao perceber que a situação é extrema, entende que “só Lunga na causa” para conseguirem uma chance de sobrevivência. 

 

Percebe-se que a violência é a única via de resistência e apelam para Lunga que convive com a violência como expressão da própria existência. 

 

Leia também:

Sobre Bacurau e a erradicação da pobrezaSobre Bacurau e a erradicação da pobreza

A linguagem do filme foi propositalmente simples e os personagens foram menos desenvolvidos justamente para dar a noção coletiva da insurgência… 

 

O protagonista do filme é Bacurau. Empregou-se a mesma estratégia de Aluísio de Azevedo ao traçar o mosaico que forma o Cortiço que é, ele mesmo, o personagem principal dotado de personalidade e de características próprias.

 

Por outro lado, o aprofundamento da questão política foi entregue para o debate após o filme. É um filme que rende polêmica e provoca discussões, além que acender os brios. Não o classificaria jamais de raso. 

 

Em Bacurau, há questionamento político e organização popular na resistência – ainda que em situação extrema de violência e que tenha havido o “apelo” a Lunga como única forma de tentar a sobrevivência. No momento anterior, a organização política se evidencia inclusive  na negação da institucionalidade e no assenhoramento dos serviços essenciais de saúde, educação…

 

Nesse contexto, a luta armada é uma consequência da organização popular. Se não existisse organização popular e consciência crítica, Bacurau seria presa fácil nas mãos dos colonizadores.  A compreensão amadurecida de que a emancipação seria conquistada só por eles mesmos e por Lunga é uma decisão política. 

 

A resistência armada não foi apenas pela sobrevivência: foi uma luta pela cidadania construída. 

 

E o confronto armado foi metafórico do enfrentamento do neoliberalismo pelo uso, para se defender e resistir,  da mesma arma e da mesma via violenta que o neoliberalismo emprega na opressão e na exploração.

 

Escolher sobreviver é um ato político. Decidir pegar em armas para sobreviver é um ato de organização política. 

 

Bacurau. Se for, vá na paz. 

 

Se não for na paz, É LUNGA!!

 

 

Simone Dalila Nacif Lopes é juíza titular da 1ª Vara Criminal de Nova Friburgo-RJ. Membra da Associação Juízes para Democracia (AJD).

 


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend