A estética é política!
Quarta-feira, 18 de setembro de 2019

A estética é política!

Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Ingrid Farias

 

“O fato de estarmos aqui, e que eu esteja dizendo essas palavras, já é uma tentativa de quebrar o silêncio e estender uma ponte sobre nossas diferenças, porque não são as diferenças que nos imobilizam, mas o silêncio. E restam tantos silêncios para romper!” Audre Lorde, 1977.

 

 

A coluna Discursos Não Pacificados desta semana compartilha algumas reflexões sobre a construção de qual estética tem legitimidade para indicar o que é reconhecido como política em nossa sociedade. Essa reflexão está fundada na imagem estética dos sujeitos que ocupam os espaços políticos de poder, retratando um grupo social de maioria branca e heterossexual. Esse grupo constitui uma estética política que afasta e intimida outros grupos sociais que fazem e vivenciam política cotidianamente, nos espaços não legítimos, como a exemplo da maior parte de iniciativas que acontecem na periferia. Essa construção social de qual é o grupo hegemônico se baseia na origem da ideia de raça como base do pensamento que originou a ideologia de superioridade e inferioridade racial, colocando as pessoas brancas e ricas acima de qualquer outra raça ou grupo social. 

 

O conceito de política reconhecido em nossa sociedade está relacionado à arte e ciência de governar. Mas quem, de fato, pode governar? As pessoas que se organizam, histórica e politicamente, para alterar as realidades cruéis de negação de direitos não são percebidas como agentes do fazer político, especialmente por não serem legitimadas pela estética política dominante. O fato é que, quando olhamos para trás, percebemos que as formas de organização social descolonizadas, que constituem há séculos outro jeito de fazer política, é na verdade a inovação política tão comentada nos dias de hoje. 

 

A inovação política está presente nos discursos dos que apontam o desejo de construir um novo projeto de sociedade, pautado através das agendas radicais de defesa de direitos e equidade. Essas iniciativas têm surgido, em boa parte, nos espaços institucionais da política, mas não devem invisibilizar a organização comunitária, a exemplos dos terreiros de matriz africana, religião matriarcal, com organização política pautada em saberes ancestrais, que foi trazida de África pelas pessoas escravizadas e preservadas pelos seus descendentes até hoje, sendo exemplo da articulação entre política e ancestralidade. Expressões de arte e cultura como o hip hop são também exemplos da organização de grupos que foram apagados do fazer político, criminalizados por negarem a estética da colonização. E o que dizer das mulheres negras e periféricas que participam do cuidado das crianças uma das outras, possibilitando que as mulheres possam estudar e trabalhar fora, não seria esse um exemplo prático da organização que emancipa pelo fazer política? Esses são exemplos da política inovadora que produz. Iniciativas de grupos de pessoas negras e pobres, que – como comprova a história – têm vidas e práticas invisibilizadas.

 

No silêncio, cada uma de nós desvia o olhar de seus próprios medos – medo do desprezo, da censura, do julgamento, ou do reconhecimento, do desafio, do aniquilamento. Mas, antes de nada, acredito que tememos a visibilidade, sem a qual não podemos viver, não podemos viver verdadeiramente. Neste país em que a diferença racial cria uma constante, ainda que não seja explícita, distorção da visão, nós mulheres negras temos sido visíveis por um lado, enquanto que por outro nos fizeram invisíveis pela despersonalização do racismo. Ainda dentro do movimento de mulheres tivemos que lutar, e seguimos lutando, para recuperar essa visibilidade que ao mesmo tempo nos faz mais vulneráveis: a de ser negras…. E essa visibilidade que nos faz tão vulneráveis é também a fonte de nossa maior fortaleza. Porque a máquina vai tratar de nos triturar de qualquer maneira, tenhamos falado ou não. Podemos nos sentar num canto e emudecer para sempre, enquanto nossas irmãs e nossas iguais são desprezadas, enquanto nossos filhos são deformados e destruídos, enquanto nossa terra está sendo envenenada, podemos ficar quietas em nossos cantos seguros, caladas como se engarrafadas, e ainda assim seguiremos tendo medo. (Audre Lorde)

 

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O momento de aquecimento do conceito de inovação política no Brasil está ligado também a um ideário social de crescimento da “política identitária”. Esse conceito foi criado na década de 70 por um grupo de feministas, socialistas, lésbicas e negras nos Estados Unidos, que tinha entre suas lideranças a escritora e militante Audre Lorde. O coletivo apontava em seu fazer político a urgência de uma política autônoma, independente, com uma estética diferente das estabelecidas pelas forças políticas institucionais, mesmo aquelas do campo progressistas, que exercem ainda hoje em seu cotidiano práticas sexistas, racistas e de discriminação de classe. Essa realidade aponta que não é possível  promover uma política emancipatória e inovadora sem trazer para o centro a forma como as opressões econômica, racial e de gênero se materializam simultaneamente na vida dos grupos sociais que são maioria social, mas estão fora dos espaços de poder. Sendo assim, não podemos permitir que, na atual conjuntura, os grupos sociais hegemônicos assumam as narrativas e identidades que têm ganhado repercussão política, a exemplo de nós mulheres negras, das mulheres trans, indígenas, das pessoas periféricas, da juventude negra, para capitalizar politicamente um discurso de inovação política que ainda silencia as protagonistas dessa revolução. 

 

Somos seres humanos como os demais, com diversas visões políticas e ideológicas. Eu, por exemplo, entre esquerda e direita, continuo sendo preta  (Sueli Carneiro, 2000)

 

Erica Malunguinho, deputada estadual eleita em São Paulo com 54.400 votos, participou esse final de semana do evento Ocupa Política, realizado no Recife. Em sua fala, destacou a importância de realizarmos cada vez mais essas reflexões sobre o que é considerado política, e o que é incoerente no campo de construção progressista. Ela nos provocou a refletir como a política e as opressões também se constituem a partir da identidade e da urgência em pessoas negras, LGTTQIs, indígenas e pobres se organizarem reproduzindo estratégias de retomada e ocupação dos espaços de poder. Erica nos convida a nos “aliançar-nos com profundidade”, compreendendo que cada dia mais, é sobre nosso povo, é sobre nossas vidas, e sobre as histórias de resistência e luta dos que vieram antes de nós, no que precisamos nos apegar sem cair nas “ciladas conciliatórias” oferecidas pelos grupos que historicamente ocupam o poder e perpetuam estratégias de dividir grupos oprimidos. É necessário descolonizar nossos referenciais teóricos de organização política e de construção de horizontalidade. Erica finalizou sua fala nos lembrando que: “a luta negra fala sobre si para emancipação de todxs”.

 

O país clama por uma resposta e nós estamos construindo uma resposta. Na hora que nós equilibrarmos a distribuição da riqueza e o reposicionamento do nosso povo nos espaços de poder, a gente vai dar uma boa organizada na sociedade. (Vilma Reis, 2019)

 

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Outra mulher negra, Vilma Reis, pré-candidata a prefeita na cidade de Salvador, também nos convida a refletir sobre os desafios das mulheres negras na descolonização de nossas referências de organização política. Como parte do discurso que tem objetivo de dividir, os conservadores políticos, até mesmo os mais progressistas, afirmam que se muitas mulheres negras se colocam para fazer a disputa da política nos espaços historicamente negados, essas mulheres vão estar disputando entre si. Mas essa não é a realidade quando olhamos o número de pessoas negras em todo país, que totaliza 54,9% da população, assim como o número de pessoas abaixo da linha de pobreza (30% da população). Essas pessoas têm o poder de eleger muitas mulheres negras, pessoas LGBTTQIs, periféricas, indígenas, jovens negros e muita gente que pode, de fato, mudar a estética política dos espaços de poder que ditam sobre nossas vidas e nossas subjetividades. 

 

Para quem escrevemos, é necessário examinar não só a verdade do que falamos mas também a verdade da linguagem em que o dizemos. Para outras, se trata de compartilhar e difundir aquelas palavras que significam tanto para nós. Mas em princípio, para todas nós, é necessário ensinar com a vida e com as palavras essas verdades que acreditamos e conhecemos mais além do entendimento. Porque só assim sobreviveremos, participando num processo de vida criativo, contínuo e em crescimento. (Audre Lorde)

 

Vivenciamos tempos onde não é mais possível ficar paradas diante dos avanços do conservadorismo e fascismo sobre nossas vidas. Precisamos provocar, de forma individual e coletiva, as revoluções que desejamos ver, ser agentes de transformação das realidades cristalizadas pelas opressões sexistas, racistas e de classe. Que possamos dar continuidade a um processo de alteração dessas realidades, garantindo cada vez mais mulheres negras nas bancadas dos grandes veículos de comunicação, nas presidências da grandes empresas, nas cadeiras dos espaços institucionais e em nossas comunidades, provocando e preservando no dia a dia a política que possibilita a alternância do poder. É necessário que a política que exercitemos seja verdadeiramente feminista, antirracista e anticlassista, que essa política que queremos que em nossos tempos permaneça inovadora e reconheça a proposta descolonizadora ofertada pelas mulheres negras para um referencial de política feminista de organização social. 

 

Para finalizar nossas reflexões com arte e a estética política que nos representa, deixo um trecho do samba enredo da Escola de Samba Mangueira, ganhadora do desfile de carnaval 2019, com o tema em homenagem a Marielle Franco:

 

A Mangueira chegou

Com versos que o livro apagou

Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento

Tem sangue retinto pisado

Atrás do herói emoldurado

Mulheres, tamoios, mulatos 

Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara

E a tua cara é de cariri

Não veio do céu

Nem das mãos de Isabel

A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho

Quem foi de aço nos anos de chumbo

Brasil, chegou a vez

De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

 

 

Ingrid Assunção Farias é antiproibicionista, abolicionista, nordestina e feminista negra periférica. Coordenadora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas, integrante da Rede Latino Americana de Pessoas que Usam Drogas e parte do coletivo A Quilomba.


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