Aconteceu com Bia: tráfico de mulheres para exploração sexual
Segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Aconteceu com Bia: tráfico de mulheres para exploração sexual

Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

 

Por Cassiano Martines Bovo

 

Este artigo é fruto de uma entrevista salvaguardada por um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e com a utilização de um pseudônimo (neste caso, Bia). Além disso, utilizou-se os procedimentos básicos da História Oral, o que implicou nos seguintes passos: realização da entrevista, transcrição, transcriação (elaboração de um texto inicial aprovado pela entrevistada) e elaboração do artigo. Todas as citações são reproduções literais da entrevista. 

 

 

Bia nasceu em Belém, capital do Pará, e tem 26 anos. Ainda nova se percebeu infeliz com o seu corpo, e já percebia sua situação em relação à identidade de gênero, o que lhe causou muitas dificuldades na escola, por tanto bullying que sofreu, como é comum para a maioria das pessoas como ela; sabemos que as instituições escolares são centros privilegiados de reprodução de uma moldura cultural heteronormativa que ainda predomina em nossa sociedade; e neste momento assistimos a atos explícitos por parte de governantes para que isso continue.  

 

Se no seio familiar sua mãe, que desde cedo já tinha percebido, parcialmente aceitava, seu padrasto, não. Congelada há tempos, a situação voltou à tona de forma cruel. Quando tinha 15 anos, Bia relatou o seu desejo de transformação corporal. Não aceitaram, queriam que ela fosse um gay reprimido, segundo ela, para não expor a família, pensando mais no que os outros vão pensar deles do que na felicidade de seus filhos. Bia optou pelo seu desejo; na prática, foi expulsa de casa aos 15 anos de idade.   

 

Bia passou a dormir, com três amigas, numa pensão; de dia entregavam flyers de uma boate para terem algum dinheiro. Elas ainda não podiam ser chamadas de mulheres transexuais, pois apenas se montavam, usavam peruca e saia. 

 

Bia ficou nessa vida, até que, aos 18 anos, recebeu uma proposta de vir para São Paulo e pensou no seu sonho do que ela chama de se “plastificar” (colocar próteses, tomar injeções de silicone e realizar procedimentos estéticos) e se “hormonizar” corretamente, pois até então o fazia de forma precária, por meio do fornecimento de uma funcionária de um posto de saúde e sem qualquer acompanhamento. Seria o início de uma longa e dura jornada que praticamente todas as mulheres transexuais no Brasil corajosamente enfrentam. Ela achava que ia ser fácil a vida em São Paulo[2], não sabia muito bem como funcionavam as coisas, os perigos a que estaria exposta. Mais que isso, Bia seria mais uma vítima de uma engrenagem de exploração de mulheres trans, uma máquina de gerar dinheiro que começa com uma dívida inicial, o transporte (tráfico), passando por uma sequência de financiamentos que às mantêm presas em casas de cafetinagem, de onde não podem sair até quitarem suas dívidas.  Uma trans de São Paulo lhe disse: “Se vocês quiserem vir para cá, eu posso falar com a cafetina; ela financia a passagem de vocês; chegando aqui vocês trabalham e pagam ela”. 

 

E assim aconteceu. A cafetina pediu fotos, viu a idade e combinou. Bia saiu de Belém rumo a São Paulo, junto com outras, sem saber exatamente como era o lugar que ficaria; passagem paga pela cafetina, que impôs um pagamento semanal. 

 

Leia também:

A democracia que violenta travestisA democracia que violenta travestis

Nesse sistema geralmente a cafetina (ou cafetão) exerce um poder de controle sobre as trans que passa pelo financiamento (adiantamento dos valores, inclusive da passagem) das mudanças corporais (injeções de silicone, colocação de próteses, isto é, seios), cabelo, processos estéticos em geral, roupas, geralmente com valores inflados (como se fossem juros), para serem pagos em etapas, junto com as diárias da estada na casa, que embute a proteção na rua em relação às investidas de outras trans, numa peculiar demarcação e controle de um território que é simbolicamente apropriado pelas cafetinas/cafetões para delimitar quem pode ou não pode em cada lugar. As multas, sistema de punição para evitar determinadas condutas, têm também a função de prendê-las; são arbitrariamente implantadas por cafetinas e cafetões, geralmente por causa de brigas, desrespeito às normas, problemas na rua, atraso nos pagamentos, mas, às vezes por vagos motivos. A pressão para ganhar dinheiro com clientes é enorme, muitas vezes as dívidas se acumulam por circunstâncias alheias, como um problema de saúde que impossibilite o trabalho, pós-operatórios e aplicação de injeções de silicone, roubo do dinheiro ganho etc.  

 

Pouco depois que Bia chegou a casa, ela ficou alguns dias sem poder pagar a diária (sofrendo multa), pois um cliente a roubou e a deixou na Av. Marginal, muito longe, e ela não sabia voltar; como estava há poucos dias em São Paulo, não sabia nem falar o nome da rua onde morava.

 

Ao agir assim, cafetinas e cafetões investem nas suas “filhas” (como são chamadas) para que tenham o máximo de retorno, por meio de valor gerado nos programas sexuais, que se transforma, em boa parte, nos rendimentos de quem detém o poder.   Quem determina as regras (periodicidade, parcelas etc.) e os valores é a própria cafetina/cafetão. 

 

A casa para onde Bia foi se caracteriza pela precariedade nas condições de vida e a pouca privacidade. Aproximadamente vinte mulheres trans em um pequeno espaço; segundo Bia um lugar muito largado, além disso, colchões em péssimo estado, poltronas velhas etc. Como acontece na maioria dessas casas, é ambiente propício para conflitos e brigas (pelos mais variados motivos, desde os mais banais até questões sérias), sendo comum se chegar “às vias de fato”. Talvez mais complicado ainda seja a convivência bem próxima com muitas pessoas de diferentes índoles, culturas, valores e a constante insegurança em relação a roubos do dinheiro entre elas (geralmente cada uma tem um armário que pode vir a ser arrombado). Bia foi roubada algumas vezes pelas próprias trans; nesse caso, a cafetina não se envolvia (ela atua como um árbitro até onde lhe interessa).  Segundo Bia: “E não tem nada, tipo nenhuma explicação, nenhuma…”

 

Nessa casa, como é comum na maioria delas, as regras eram rígidas: um limite de horário para sair para trabalhar (senão o portão fechava) e a entrada teria que ocorrer a partir de certo horário (antes disso não entrava). O objetivo é que as trans fiquem na rua por um tempo mínimo, que possa garantir mais valor.  

 

Bia ficou nessa casa por aproximadamente dois anos. Mudou-se, em seguida,  para o apartamento de um cafetão no centro da cidade de São Paulo. O motivo da mudança, segundo ela, seria a promessa, por parte dele, de mais segurança para suas filhas, sobretudo na demarcação do território de trabalho. Invadir território de uma trans, nesse caso, é o mesmo que mexer com a cafetina/cafetão, pois seus ganhos dependem de um lugar para trabalharem e poderem ganhar.  

 

Mas as condições de vida nesse local não eram muito diferentes da casa anterior, em termos de precariedade e regras. Lá também Bia acumulou dívidas em multas, por ter brigado algumas vezes e por diárias atrasadas. Em uma ocasião, uma forma de reduzir sua dívida foi cuidar na recuperação de uma trans que tinha acabado de colocar prótese. Bia ficou com esse cafetão por três anos. 

 

Leia também:

Lawfare e igualdade de gênero: Itamaraty veda o uso do termo “gênero” para além do sexo biológicoLawfare e igualdade de gênero: Itamaraty veda o uso do termo “gênero” para além do sexo biológico

Importante peça nesse esquema que funciona a partir da prostituição das trans, em que muitos ganham em cima delas, são as clínicas de intervenção cirúrgica, principalmente para a colocação dos seios (próteses de silicone), mas outras também, principalmente as faciais. Bia fez duas tentativas de colocar os seios. Na primeira sofreu um golpe. Uma pessoa intermediária prometeu conseguir por um valor menor que o comum; Bia juntou o dinheiro e pagou. A pessoa recebeu o dinheiro e a clínica não quis fazer o procedimento; aí Bia desistiu. 

 

Na segunda, como essas clínicas (algumas, inclusive, ilegais) costumeiramente criam algumas dificuldades, desmarcam quando vai chegando a data e vão prorrogando, se mudam etc., Bia recorreu a uma cafetina (que têm poder de pressão, pois as clínicas são o outro lado do esquema), pagando o valor de mercado (alto, considerando-se a precariedade de todo o processo). Mas a cirurgia foi complicada. Bia ficou acordada, pois a anestesia é local, e, pior, não pegou direito. Sentiu muita dor no momento que o médico cortou. Segundo Bia, o médico (que ela não vê, pois fica atrás de um pano) disse: “calma, calma, não grita, não grita, fica calma, vai dar tudo certo”. E tinha um rapaz segurando a mão dela e que disse para ela se acalmar e ficar tranquila que tudo daria certo. Aí aplicaram mais anestesia e terminaram a cirurgia. Bia disse: “Isso foi bem sinistro, bem traumatizante”.

 

A partir daí algumas mudanças muito significativas aconteceram na vida de Bia. Ela conseguiu sair do apartamento do cafetão, foi morar num apartamento alugado, junto com uma amiga. Livrando-se da cafetinagem, vive assim até hoje, sempre dividindo com uma amiga, tendo morado em vários locais. 

 

Num prédio em que morava, um amigo, homem trans, indicou-a para trabalhar numa loja de assistência técnica de equipamentos de alta pressão. Aí ela livrou-se também da prostituição. Mas, teve que parar, pois a proprietária mudou-se de cidade para cuidar da mãe doente; prometeu chamá-la quando retornasse, mas isso não aconteceu, o que chateou Bia, pois ela gostava de trabalhar lá, era a única funcionária.  

 

Porém, Bia não voltou para a prostituição, pois consegui entrar para o Programa Transcidadania, da Prefeitura de São Paulo, que oferece uma bolsa mensal, por dois anos, além de cursos (Bia cursou panificação, corte e costura e organização de eventos), assim como a exigência de que se volte a estudar (via EJA – Educação para Jovens e Adultos); ela retomou seus estudos e atualmente está no último ano do ensino médio e pretende fazer o curso superior se conseguir uma bolsa. Todavia, como acontece com a maioria das mulheres trans do Programa, Bia não conseguiu um emprego (aspecto importante a ser trabalhado nessa experiência) e teve que voltar a se prostituir, situação que vivencia há, mais ou menos, um ano. 

 

Leia também:

Homofobia e transfobia são finalmente criminalizadas pelo STFHomofobia e transfobia são finalmente criminalizadas pelo STF

Foi difícil para Bia ter que voltar a se prostituir quando isso não estava mais no seu horizonte de vida. Seis meses antes do término do Projeto, Bia retornou à rotina das ruas para poder se “readaptar”, pegar o ritmo novamente. Ela diz:  

 

“No começo foi meio difícil, mas depois fui pegando o jeito de conciliar, porque no final de semana que eu fico mais na rua. Durante a semana, quando dá, eu só vou na escola; se der, eu ainda fico na rua para trabalhar, principalmente se não deu para trabalhar no final de semana”.

 

“Não tem uma forma, e mesmo com o Projeto, eu não terminei o ensino médio e eu tenho que terminar, eu trabalho e estudo, para eu não parar, mesmo sem a bolsa, não desistir”.

 

Bia acredita que um dia encontrará um emprego:

 

“Eu acredito que eu sou capaz. Às vezes as pessoas têm um pré-julgamento, assim, de uma pessoa de rua, como se ela gostasse, se não tivesse outra escolha. Mas eu acho que, no fundo, no fundo, se eu tivesse outra escolha eu ia opinar por essa outra escolha”.  

 

Enquanto isso ela é obrigada a encarar a violência física e simbólica de uma sociedade forjada na cultura da heteronormatividade. Um cliente tentou roubar sua bolsa dentro de um carro e ela teve que se defender; levou uma cotovelada na boca, o que lhe causou sangramento. Apesar de toda a violência física, no relato de Bia a ênfase recaiu sobre a indignação causada no atendimento recebido na Delegacia, segundo ela, especializada em LGBTs (como seria, então, nas não especializadas?). Incomodada pelo sangramento, queria fazer logo um boletim de ocorrência; apresentou a sua carteira de identidade e o atendente disse: “ah, mas fulano, fulano…”. Sempre usando o nome de batismo, no masculino. Ela disse: “Por favor, não tem como me chamar por Bia? Você sabe que existe um decreto que…”. O atendente disse: ”ah, mas aqui a gente não é obrigado a aceitar esse decreto”. 

 

Segundo Bia, em vários momentos, e diferentes locais, é chamada pelo nome de batismo e não pelo nome social (feminino), às vezes com agressões verbais e humilhações. 

 

“Tem gente mesmo que vê você e vê o feminino, vê que você é trans, mas faz de propósito, sabe? Fala mesmo, tipo assim, ‘dá para ele aí’, sabe…, nesse sentido”.

 

 

Cassiano Martines Bovo é Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e Ativista de Direitos Humanos na Anistia Internacional Brasil.

O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

[1] Este artigo é fruto de uma entrevista salvaguardada por um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e com a utilização de um pseudônimo (neste caso, Bia). Além disso, utilizou-se os procedimentos básicos da História Oral, o que implicou nos seguintes passos: realização da entrevista, transcrição, transcriação (elaboração de um texto inicial aprovado pela entrevistada) e elaboração do artigo. Todas as citações são reproduções literais da entrevista.  

[2] Seguramente, mais da metade das mulheres trans que se prostituem na cidade de São Paulo vêm dos Estados do Pará, Amazonas e Amapá, sobretudo de suas capitais ou adjacências, Belém, Manaus e Macapá, respectivamente. 

Segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend