Nossas verdades resistem ao teste de realidade?
Quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Nossas verdades resistem ao teste de realidade?

Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Martel Alexandre del Colle

 

Michel Foucault articula, em 1981, um curso no Collège de France sobre estudo das sexualidades na antiguidade. Este curso é compilado em um livro intitulado “Subjetividade e verdade”.

 

 

Durante o curso surge a pergunta: como formamos as nossas verdades?

 

Afinal, todos nós temos conceitos que levamos para a vida e que não precisam de reflexão para serem reproduzidos em nossas atitudes. Por exemplo, se eu lhe dissesse que roubar é errado, você, provavelmente, diria que sim, sem que fosse necessária uma grande dose de reflexão da sua parte.

 

É uma reação quase automática. O que Foucault procura mostrar é que não existe a construção de uma verdade automaticamente. Todas as verdades precisam de uma confirmação própria, de uma satisfação lógica interna.

 

Por exemplo, eu posso dizer que considero roubar algo errado. Você, então, pode me perguntar o porquê. E eu posso responder que é errado porque uma divindade disse que roubar é errado. Ou seja, há a construção da minha verdade, seja ela uma construção baseada em uma explicação imanente ou transcendente.

 

Outro exemplo é a guerra. Para mandar um soldado a guerra, eu preciso fazer com que ele acredite que está lutando contra um inimigo. É preciso motivá-lo criando uma verdade. Uma luta dos morais contra os imorais, dos de motivação justa contra os de motivação injusta. Caso não consiga a construção dessa verdade, os militares podem se amotinar, negarem-se as ações. O povo pode se rebelar, pode não aceitar o aumento da carga de impostos etc.

 

O que isso tem a ver com a polícia?

 

Para se explorar alguém, dominar alguém, é necessária a construção de uma verdade. Essa construção não deve ficar circunscrita a classe dominante, mas permear as classes dominadas, já que a classe dominante não conseguiria exercer seu poder sem um grupo de cúmplices.

 

Na antiguidade, a explicação para a dominação era transcendente. Ou seja, os dominadores eram dominadores porque uma força transcendental decidiu que assim fosse. Deus, Rá, Baal, Zeus colocavam pessoas em posição de poder e pessoas em posição de subserviência. Portanto, quando as sociedades começavam a construir suas verdades elas recorriam a metafísica a fim de constituir um corpo funcional.

 

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Acontece que o Iluminismo abalou essa estrutura de poder e verdade, pois começamos a ter uma luta para criar verdades baseadas na imanência, no que pode ser testado e repetido.

 

Inicia-se, assim, um era de busca científica no lugar da busca transcendental. O problema é que a exploração de grupos humanos já não podia mais ser justificada pelo desejo de uma divindade. Essa verdade não colava mais, pois era possível ouvir de alguém que índios eram corpos sem alma, mas não era possível provar essa tese. Então alguém diria que índios não tinham alma e outra pessoa diria o contrário. A transcendência começou a perder espaço como método de construção de verdades.

 

Diante disso, uma nova forma de explicar a dominação de certos grupos humanos a outros precisava ser criada.

 

Charles Darwin observa alguns fenômenos naturais e traça uma nova teoria. A seleção natural passa a ser estudada, mas ainda com recursos muito mais limitados do que temos hoje. Descobre-se a hereditariedade, muito graças a Mendel, e essas duas ferramentas (seleção natural e hereditariedade) são utilizadas para justificar a dominação de certos grupos humanos.

 

Obviamente, a construção dessas verdades através dos conceitos acima foi feita de maneira totalmente equivocada. Mesmo sem elementos que provassem isso, foi afirmado que alguns grupos étnicos eram mais inteligentes do que outros, que um sexo era mais inteligente e capaz do que o outro, dentre outras (essas construções não foram criadas neste momento, mas sua justificativa passou da transcendência para a imanência).

 

Hitler, em seu livro Mein Kampf, usa a seleção natural para dizer que o estado natural de coisas é a guerra e que uma raça superior deve dominar uma raça inferior, terminando por escravizar ou eliminar a raça inferior. Também afirma que a mistura de raças diluiria as qualidades da raça ariana. Hitler não entendia nada de biologia, mas naquela época poucas pessoas entendiam. E ele conseguiu construir uma verdade baseada em uma mentira.

 

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Após a segunda guerra mundial, as classes opressoras mantiveram a dominação através da verdade, da colonização do pensamento dos dominados. Isso aconteceu de maneira diversa em cada nação. No Brasil, a construção da justificativa para a desigualdade vem através da ideia do mau colonizador (quem nunca ouviu que fomos colonizados por portugueses e por isso somos uma nação ruim), da genética ruim (o Brasileiro é cordial, mas corrupto por natureza, preguiçoso por natureza), da classe política toda corrupta, do político mau por ser assistencialista, do rico esforçado, do empreendedor de si, da falácia do “para ser rico basta esforço”, da pobreza por merecimento, dentre outras.

 

O ponto onde quero chegar é que: construímos muitas das verdades que regem nossa forma de pensar em cima de mentiras que não se sustentam quando confrontadas com a realidade.

 

Você pode amar ou odiar a maconha, mas é fato notório que ela não deixa seus usuários mais agressivos. Entretanto, isso era considerado uma verdade até pouco tempo atrás. Por quê? Porque a construção dessa verdade era importante para poder justificar atitudes arbitrárias contra esse grupo.

 

A questão das drogas é tão absurda que se quiséssemos banir drogas por causa do seu risco a saúde e danos a sociedade a primeira droga a ser banida deveria ser o álcool. A questão é que essa proibição não é uma construção científica, mas uma construção arbitrária travestida de cientificidade, de melhor para a sociedade, de hipocrisia.

 

Assim como a ideia de matar bandidos, a ideia de armar a população, a ideia de prender mais. São ideias que não passam no teste da cientificidade, mas foram construídas como verdades, e essas construções geram danos muito grandes.

 

Pois essas construções contam quando o policial aborda um usuário de crack e o considera um criminoso, contam quando um juiz vai definir a sentença de um traficante de 19 anos com 4 gramas de maconha.

 

Acho que o mais importante aqui não é citar todas as construções de verdades que estão equivocadas, mas gerar esse alerta: nossas verdades resistem ao teste da realidade? Ou somo covardes e não aceitamos contestar nossas próprias verdades?

 

 

Martel Alexandre del Colle tem 28 anos e é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.


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