A hegemonia do patológico
Segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A hegemonia do patológico

Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Alberto Luis Araújo Silva Filho

 

Enquanto a morte é celebrada, o beijo entre dois personagens de HQs choca, causa horror e desestabiliza as estruturas de normalidade vigentes. Os valores da fraternidade e da solidariedade se dissolvem em meio ao culto da violência, normalizado por decretos e portarias. Vivemos tempos de transformação em que dizer não a ciência está entrelaçado com o dizer não a existência.

 

 

Olavo de Carvalho, um dos próceres do movimento revolucionário às avessas que dirige o Brasil, prega abertamente que “nós, os cidadãos de bem” temos dois grandes inimigos: a imprensa e as universidades. Aqueles que professam as teorias da conspiração, o suposto conhecimento sem provas nem fontes, na verdade são os detentores da verdade. Quem fala na iminente dominação comunista do país e no plano secreto para dominar a população mundial por meio da distribuição de vacinas deve ter precedência sobre aqueles que realizam estudos, pesquisas, discussões e debates. Todos estão equivocados, de Harvard a USP, do IPEA a NASA, do Sul ao Norte. O que conta são os arquivos secretos, aquilo que ninguém consegue ver e aos quais poucos iluminados tiveram acesso. É a invisibilidade e, portanto, a fé, da qual às vezes deriva a loucura, que deve pautar a ação política e os negócios da coletividade. Cria-se uma realidade paralela com o único intuito de manter as hierarquias intocáveis.

 

Aquilo que deveria ser bem vindo, como a preservação do meio ambiente, torna-se ameaçador, aterrorizante. Institucionaliza-se um discurso no qual o cuidado com a natureza esconde intenções perversas. A necessidade de valorizar a vida e a dignidade humanas, independente da raça e/ou da condição social, vira uma manobra das organizações internacionais para implantar uma ditadura do lumpemproletariado. Falar de respeito à liberdade das mulheres e dos LGBTs torna-se magicamente um projeto insano de modificação em massa do sexo das crianças. A justiça social se converte então em caricatura. Os direitos fundamentais em pastiche. O amor ao próximo (fundamentado na tradição cristã) em piada. E como se não fosse possível uma margem de negociação, valores do liberalismo politico viram oficialmente valores comunistas e mencioná-los abre as portas da transição politico econômica de uma economia de mercado diretamente para o modelo cubano de sociedade.

 

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Nesse sentido, a generalidade dos discursos progressistas dá vazão a paranoia e a esquizofrenia de amplos segmentos sociais que creem que o porrete construirá uma sociedade mais estável, coesa e orgânica. Tal catarse é justificada, financiada e promovida, como se fosse um conjunto de opiniões democráticas a respeito das políticas públicas. Nas rádios, nos jornais e nas redes sociais, acumulam-se os apologistas do ódio travestidos de bom mocismo. Suas ideias, bem como seu ideário, são incorporados e somados a outros fatores conquistam espaço e constituem uma subjetividade coletiva que ao afirmar o status quo na verdade se vê como denunciante do estado de coisas. Pois o estado de coisas – que prometia um horizonte de democracia e direitos sociais – foram eles, os esquerdistas, que o fizeram e “nós”, os merecedores do espaço e da história nacionais, desejamos modificar. A ira opera a tal ponto que o que era pra ser plano de governo revela-se plano de vingança.

 

A sociedade brasileira não se encontra mais no terreno da política. Política pressupõe, como bem coloca a cientista política belga Chantal Mouffe[1], considerar o oponente como um adversário e não como inimigo. Nesse momento, o estado é de guerra fria. Um lado visivelmente extremado ataca outro, muito moderado e que não consegue se articular. Com base nos discursos oficiais da Presidência da República, é possível fazer um diagnóstico claro: o problema fundamental da nação não são as iniquidades, o legado escravista, nem mesmo a corrupção (como é comum afirmar). O problema da nação são aqueles que gritam as mazelas. Mas nem é preciso gritar. Muitas vezes só é necessário existir. Existir como índio, existir como negro, existir como trans. O simples ato biológico de respirar e ter seu coração pulsando vira uma forma de resistência involuntária. Da negação da ciência e dos fatos inevitavelmente passamos a negação da vida. É o movimento natural dos anti-heróis verde-amarelos. 

 

O assecla-mor, desejoso de tornar-se um Bonaparte tupiniquim, leva som e fúria ao mundo que se assusta com tamanha brutalidade nas suas palavras e gestos. A agressividade, típica de uma masculinidade que não sabe lidar com as mudanças, permeia a falsa mitologia daquele que legitima o derramamento de sangue e a produção do sofrimento psíquico dos que lidam com um país de incertezas. Do sonho neodesenvolvimentista fomos transportados para uma réplica da distopia de Norfolk, cidadezinha futurista cuja criação é do escritor britânico Richard Littler[2]. Nela os direitos humanos podem ser sorteados ou mesmo comprados. Também nela a morte é celebrada e incentivada pela propaganda oficial. Os maus tratos as crianças e aos animais estão nela liberados. Coexistem classes de cidadãos e classes de pessoas que são não-pessoas. O horror não mais assusta, as evidências não mais comovem, o mal há muito se banalizou. É do caos e da destruição de elementos antes tidos como sadios que se constitui a vida mesma, el nuestro cotidiano. Não estamos muito distantes da negação da utopia. Na verdade vivemos no interior dela, tentando dar a mesma ares de normalidade. Talvez a forma seja diferente. Mas ao que tudo indica, da alimentação à economia, o conservadorismo[3] deixou todas as esferas da vida intoxicadas.

 

 

Alberto Luis Araújo Silva Filho é mestrando em Sociologia pela Universidade de Brasília. Cientista Político pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq).


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Notas:

[1] Ver MOUFFE, Chantal. Sobre o Político. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.

[2] Para conhecer mais sobre a obra ficcional relativa a Scarfolk ver: https://scarfolk.blogspot.com/

[3] Tenho preferido me referir ao atual governo como conservador/neoconservador ao invés de fascista. Com isso me aproximo de perspectivas que veem similaridades no discurso da atual administração federal com o do Partido Republicano dos EUA pós anos 80 que passou a conjugar liberalismo econômico radical, reacionarismo moral assentado em bases sociais evangélicas e um Estado forte na repressão policial e na defesa externa, pacote que se apresenta no Brasil de maneira inédita e em um contexto de democracia fragilizada, assustando os analistas de esquerda que logo o veem como um fenômeno próximo ao hitlerismo. Entretanto, o discurso violento e o clima de censura fazem com que uma possível ruptura institucional seja factível e com isso leve o bolsonarismo a descambar para uma ditadura fascista aberta.

Segunda-feira, 30 de setembro de 2019
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