Yasani Kalapalo, à sombra de Malinche
Segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Yasani Kalapalo, à sombra de Malinche

Imagem: Reprodução / Instagram – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Marcos V. Gontijo

 

Nas atuais circunstâncias, seria um prazer dizer que o discurso do presidente Bolsonaro na ONU atendeu, no dia 24 de setembro, às expectativas.

 

 

No entanto — para nossa infelicidade — Messias Bolsonaro conseguiu superar àquelas, mais uma vez. Superou, aliás, em todos os pontos: negou o desmatamento ou seu aumento ao dizer que a Amazônia “não está sendo devastada nem consumida pelo fogo como diz mentirosamente a mídia”, apesar de, ao início do seu discurso, imputar aos indígenas e populações locais pelos incêndios; afirmou que médicos cubanos trabalharam como escravos (sic) no Brasil em acordo com o governo cubano — e, como todo aquele que mente, acrescentou “acreditem!” —; repetiu a balela sobre tentativas passadas de instauração do socialismo — ideologia, ideologia e mais ideologia, “táoquei?” — e, para finalizar, teve o descaro de afirmar que “acabou o monopólio” do líder indígena Raoni, endossado pela presença da indígena Ysani Kalapalo na comitiva brasileira, como suposto apoio dos povos originários ao governo Bolsonaro.

 

Ao invés de discursar paras as lideranças dos demais países à procura de uma interação que se fundamentasse na necessidade de construção de alternativas para a saída da crise econômica, social, política e climática sofrida em escala global, Bolsonaro discursou para as duas únicas plateias que tem se dirigido nos últimos anos: o seu séquito fiel de eleitores retrógrados e o empresariado sedento por ganhos absurdos às custas da população brasileira, sobretudo da camada mais pobre que a cada dia se alarga mais e mais. Até aqui, nada de novo sob o sol.

 

Contudo, a decisão de levar a indígena Kalapalo como quem exibe um artefato dando provas da diversidade da terra — os poucos mais de cinco séculos não foram suficientes para separar Bolsonaro de Colombo — parece ter sido, muito provavelmente, uma tentativa falha de colocar panos quentes na opinião internacional sobre o poder de gerência e fiscalização da Amazônia pelo Estado Brasileiro. Bolsonaro, ademais, reafirmou, com uma dicção que não acompanhou a tentativa de demonstrar sua firmeza “empreendora” — um abraço aos seus colegas do hobby garimpeiro! —, que era líder de um Estado soberano e de um governo patriota. Mas, na contramão, tem abraçado — como a própria tentativa de resposta por meio da presença de Kalapalo — a resistente síndrome do vira-lata.

 

Nesse sentido, o passado pode nos ser bastante alusivo: o homem branco, patriarcal e devoto à Igreja e à Coroa, encontrado na pessoa de Colombo, sequestra e leva um grupo de indígenas, sob condição de espécimes da terra, para apreciação e curiosidade da corte espanhola. O que na obra Possessões Maravilhosas, Stephen Greenblatt[1], denomina como “linguagem do rapto”, o esvaziamento da alteridade, a captura e posterior preenchimento de significados que partem do Eu, daquele e da cultura que colonizam. Não haveria, nesse sentido, um interesse na compreensão do outro — o que é exposto na relação de posse expressa na fala de Bolsonaro, “nossos nativos”, no lugar de “nós brasileiros e nossa diversidade” —, o que culmina em sua inserção violenta em uma amálgama de significados que lhes são estranhos.

 

O caso de Ysani Kalapalo inclui uma outra relação, esta também analisada por Greenblatt: a do intermediário. Se o rapto num primeiro momento servia como exposição do exótico e do maravilhoso do nativo na Europa, num segundo momento, a conquista exigia intérpretes, isto é, intermediários entre indígenas e colonos.  A saída encontrada, dessa vez por Hernán Cortés, não foi a de compreender a diferença e inserir-se na cultura do outro, mas a de cooptá-lo, isolá-lo de seu lugar de pertença e força-lo ao convívio de uma cultura que lhe era estranha. O intérprete, desse modo, era uma figura dupla, pertencia a uma cultura e era coagido por outra (a depender da resistência do sujeito). Ao comunicar-se por meio de intermediário se subentendia na pessoa deste uma similitude, a capacidade de fala, de raciocínio e de compreensão de ambas as línguas e culturas. O intermediário era, sobretudo, o tradutor do testemunho do que fora encontrado ao longo da viagem. Porém, Greenblatt demonstra como esse era mais um caso de “obstrução”, pois o colono identificava a similitude naquilo que não compreendia e necessitava de um mediador, todavia, alienava-o, ao esperar a transcrição daquilo que não compreendia nos termos de sua própria cultura. Isto é, repetia o processo de esvaziamento simbólico do Outro.

 

Desses “intermediários”, a história de Malintzin, Doña Marina ou, como é mais conhecida, Malinche, irrompe diante de nossos olhos ao assistir o papel que se prestou a indígena Kalapalo.  Malinche foi uma indígena sequestrada e utilizada como intérprete na Conquista do México, possibilitando a tradução linguística entre seu povo e os conquistadores espanhóis. A expressão “La Malinche!” passou então a representar o lugar na história que fora relegado à indígena, o de uma traidora. Apesar da profunda diferença das circunstâncias históricas que envolvem Doñã Marina e Yansi Kalapalo, a situação não deixa de incomodar e revirar o imaginário político latino-americano no que concerne a situação delineada entre o discurso de Bolsonaro, Kalapalo e as cinquenta e duas etnias supostamente representadas pela carta lida pelo presidente durante a assembleia.

 

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Bolsonaro afirmou que “é preciso entender que nossos nativos são seres humanos, exatamente como qualquer um de nós. Eles querem e merecem usufruir dos mesmos direitos que todos nós”. No entanto, logo em seguida, declarou que o governo brasileiro não irá aumentar a área total das reservas indígenas para vinte por cento, “como algum chefe de Estado gostariam (sic) que acontecesse”. Como se não bastasse se referir às populações indígenas como “nossos nativos”, Bolsonaro sugeriu dissidência entre os povos indígenas na qual líderes indígenas estariam sendo usados como “massa de manobra” pelos interesses estrangeiros, como uma espécie de Confederação dos Tamoios, como meio de alcançar seus objetivos em relação à floresta amazônica. Mais uma vez, sem citar nomes, dados ou fontes, insinuou que “pessoas de dentro e de fora, apoiadas por ONGs (sic), teimam em tratar e manter nossos índios como verdadeiros homens das cavernas”. 

 

Bolsonaro, por fim, leu a carta assinada, segundo ele, por 52 etnias — das 240 existentes, segundo Censo IBGE 2010, o qual de acordo com o presidente é mentiroso, vale ressaltar —, na qual é declarado o interesse indígena de efetuar o desenvolvimento e empreendedorismo, rompendo com um “indigenismo ultrapassado e ambientalismo radical” que seriam nada menos do que representantes do atraso e da marginalização dos povos indígenas.

 

A fala de Bolsonaro poderia, talvez, ser crítica de fato e ir na direção de repensar as relações entre o Estado e as populações indígenas brasileiras, mas nas entrelinhas guarda uma armadilha cortesiana, a qual Kalapalo, como Malinche, caiu. Considera e dá ares de apoiar um empreendedorismo indígena, o que em um primeiro momento pode ser significativo quanto à percepção do indígena como sujeito histórico. É dizer, romperia com uma perspectiva engessada do indígena apenas como elemento cultural, estático no tempo e aprisionado no passado, para compreendê-lo como um sujeito que se adequa às transformações temporais, negocia, resiste e é dotado de autonomia e potência de ação. 

 

No entanto, Bolsonaro além de os considerar, como escapa ao seu próprio discurso, “nossos nativos”, insinua que a queima da mata é devido a duas causas: à seca e à população incendiária, contida nesta os indígenas. Por um lado, demonstra profundo desconhecimento do manejo do fogo por certas etnias indígenas. As que se munem do fogo para a plantação, por exemplo, possuem sofisticada técnica de controle e, além do mais, realiza-a em extensões pequenas de terra[2]. Resta-nos indagar, dessa forma, o que o presidente teria a dizer quanto aos madeireiros; aos poceiros; aos grandes proprietários de terra com suas monótonas e pobres plantações de soja; à criação extensiva de gado e o processo de desertificação produzido por ela; e ao assassinato de lideranças tanto indígenas quanto ambientalistas. 

 

A fala de Bolsonaro, outrossim, deixa claro que considera um favor permitir que as populações indígenas habitem nos míseros 14% das reservas indígenas. Qualquer pessoa séria e comprometida com a justiça sabe que a reparação histórica é dimensão fundamental da criação de reservas e que o uso e a relação indígenas para com o território são distintos das nossas, “filhos da Malinche”[3]. Envolvem não só a sobrevivência biológica, mas a religiosidade, os costumes e ritos. É estabelecida por eles uma profunda relação com o sagrado a partir do território.  Essa é uma das razões do deslocamento forçado ser tão danoso às populações indígenas, representa uma quebra da própria forma de ser e existir. Não se trata de romantizar os povos originários, como no caso do “bom selvagem” ou como mera matriz cultural de uma nacionalidade inventada, mas de compreender e aceitar que ainda que um indígena ocupe lugar em uma universidade, em uma fábrica ou em um cargo político, ele não deixa de ser indígena. 

 

Ainda que a Malinche ou “la chingada” faça parte da colonização espanhola e, em particular, do passado mexicano, a relação de violência e dominação simbólica contida nesse passado não deixa de ser esclarecedora quando nos deparamos com a situação cínica que nos fora imposta por Bolsonaro e sua comitiva na assembleia da Organização das Nações Unidas. O presidente criticou atitudes colonialistas de países estrangeiros quando ele próprio se coloca como tal. É um equívoco considerar que a colonização acontece apenas no sentido externo-interno. Em um país com um passado colonial como o nosso, e dono de uma elite e estrutura agrária herdeira desse passado, a colonização se reproduz também internamente, seja em relação aos indígenas, seja em relação as regiões que formam o território brasileiro — i.e., não é raro testemunharmos falas, inclusive do presidente Bolsonaro, que reproduzem estereótipos entre Sul e Nordeste do país. Tendo os ministros que tem, Bolsonaro não deixaria a desejar como colonizador — talvez no que toca a capacidade de realizar cálculos marítimos e conduzir uma caravela. Ao seu lado está Damares, inclusive envolvida em polêmica acerca de sequestro de uma criança indígena, quem diz ser sua filha adotiva, cuja religiosidade passa ao largo dos direitos humanos; de Sérgio Moro, autor do pacote anticrime que daria brechas para que proprietários de terra façam uso indiscriminado de armas de fogo a partir do “excludente de ilicitude”; e Ricardo Salles, um advogado como ministro do ambiente, segundo quem sua prioridade como ministro seria a celeridade dos processos de licenciamentos. Desnecessário tecer comentários sobre.

 

Como diria o escritor e intelectual mexicano Octavio Paz: “A história poderá esclarecer a origem de muitos de nossos fantasmas, mas não os dissipará. Somente nós poderemos enfrentá-los.”[4]

 

 

Marcos V. Gontijo é graduado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e mestrando e bolsista CAPES pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)


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Notas:

[1] GREENBLATT, Stephen. Possessões maravilhosas: o deslumbramento do Novo Mundo. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.

[2] LEONEL, Mauro. O uso do fogo: o manejo indígena e a piromania da monocultura. Estudos Avançados. São Paulo: vol. 14, n. 40, set-dez, 2000.

[3] PAZ, Octávio. El laberinto de la soledad. 2ª ed. México: Col. Popular, 1992.

[4] PAZ, op. cit., p. 30. Tradução minha.

Segunda-feira, 30 de setembro de 2019
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