A narrativa das polícias sobre drogas ao redor do mundo
Quinta-feira, 3 de outubro de 2019

A narrativa das polícias sobre drogas ao redor do mundo

Imagem: Arquivo / Agência Brasil – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Martel Alexandre del Colle

 

Depois de entrar na polícia eu desenvolvi uma mania. Eu, volta e meia, estou olhando as páginas oficiais de outras polícias ao redor do mundo. Não sei bem por que isso começou. Talvez para aprender coisas novas, talvez para comparar a minha polícia com outras.

 

Eu recomendo que você faça o mesmo, sendo policial ou não. É muito interessante ver como as diferentes polícias priorizam diferentes informações em suas páginas.

 

Nas polícias consideradas mais avançadas pelo mundo você verá uma página com muitas informações sobre segurança pessoal, segurança residencial, telefone úteis. Encontrará a foto do policial responsável por certa área e alguma forma de entrar em contato com ele. Também encontrará seções específicas sobre direitos LGBTI, sobre combate a discriminação e sobre a relação da comunidade com as drogas.

 

Nós bem sabemos que varia a forma de interpretar a relação dos cidadãos com o uso de drogas de país para país, mas fica bem nítida a mudança de comportamento de muitos países neste quesito. Existe uma preocupação maior com a vida, com a segurança do cidadão usuário, do que com a apreensão de drogas ou prisão.

 

Um fato que deixa isso bem claro é o investimento feito por muitas polícias para garantir que cidadãos que estão presenciando alguém em apuros devido ao abuso de alguma droga liguem pedindo ajuda[1]. Acontece que algumas pessoas presenciam uma pessoa passando mal, mas temem ligar para a polícia e acabarem presas. 

 

Imagine que você está na casa de um amigo. Ele chama outros amigos dele que você não conhece. Você decide usar somente uma droga: álcool. Mas eles estão usando outras drogas. Você fica até tarde, pois a conversa está boa. Quando ficam poucas pessoas na casa, uma pessoa começa a passar muito mal. Todos percebem que o problema foi o abuso de drogas. Todos tentam ajudar, mas ninguém quer ligar para alguma autoridade. O medo é de você ser presa, de ser encaminhada a uma delegacia. 

 

Ou imagine que você é menor de idade e todos os homens da sua família fazem uso de álcool como um sinal de poder, independência, masculinidade. Você avisa seus pais que irá na casa de um amigo fazer um trabalho, mas você sabe que isso é mentira. Na verdade, vocês conseguiram algumas garrafas de bebidas alcoólicas e querem passar a noite bebendo. Além do álcool, um dos seus amigos trouxe maconha. Vocês começam a beber e um dos seus amigos começa a passar mal. O que fazer? Ligar e ser descoberto? Se ligar você será apreendido como um traficante? Será que seus pais podem ser presos por isso? Você não é um especialista em leis, afinal, está no ensino médio. O seu amigo parece estar muito mal. O que fazer?

 

Ou imagine que você é uma adolescente e uma amiga disse que tem umas pílulas que emagrecem. Ela disse que uma amiga trouxe do Paraguai. Você pega algumas e leva para a casa. Lá você toma a primeira, mas algo não parece certo. Você se sente muito mal. Sua pressão parece baixa, você sente que irá desmaiar. Você está sozinha em casa. Ligar ou não ligar? Pois se ligar eles descobrirão que você teve um problema com drogas. E se quiserem saber de quem você conseguiu? E se prenderem sua amiga?

 

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Talvez as histórias pareçam bobas. Talvez você já saiba a resposta, mas, acredite, muita gente não sabe o que fazer nessas situações. E por isso existem pessoas que são abandonadas quando estão com problemas com drogas. E esses abandonos podem gerar mortes. Por isso, você encontrará fácil em muitas policias pelo mundo a informação de que caso presencie uma pessoa tendo problemas devido ao uso de drogas, então você pode ligar e não terá problemas com a polícia. O foco deixa de ser o de prender drogas ou pessoas e passa a ser preservar a vida[2].

 

Convido-te a procurar essa informação em sites de polícias brasileiras. Ou melhor, pergunte a um policial o que ele faria nessa situação. Como a preservação da vida não é prioridade no Brasil, muitos policiais não agiriam para preservar vidas. Por consequência, as pessoas por aqui têm medo de ligar para a polícia ou para um serviço de socorro quando se encontram em uma situação como as narradas acima.

 

A diferença entre as polícias que preservam vidas e as que não preservam é a proporção de pessoas que são vistas como cidadãos pela nação na qual tal polícia está inserida. No Brasil, o usuário de álcool é visto como cidadão. Assim como o usuário de cocaína. Já o usuário de crack…

 

O usuário de maconha começa a ser visto como cidadão desde que essa droga começou a ser mais elitizada. Quando era uma droga mais comum nas comunidades negras, ela era citada como a droga que causa ações violentas, abusos sexuais.

 

Um dia, creio, os usuários de todas as drogas terão direito a uma cidadania de fato. Então teremos menos mortes por overdose e menos prisões com pequenas quantidades de drogas. Quem sabe um dia as polícias do Brasil compreendam que droga é um problema de saúde. Quem sabe um dia a polícia cumpra seu papel de maneira integral, inclusive apresentando dados que demonstrem a inutilidade da guerra as drogas. No momento as polícias brasileiras agem como vítimas do sistema. Mas elas não são vítimas, elas também ajudam a criar o sistema.

 

Talvez um dia nós vejamos uma instituição policial militar sugerindo, no lugar de mais confrontos, a criação de algo semelhante ao que já existe na Europa[3].

 

 

Martel Alexandre del Colle tem 28 anos e é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.


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Notas:

[1] https://www1.nyc.gov/site/nypd/services/victim-services/save-a-life.page

[2] https://www.youthline.co.nz/drugs.html – link recomendado pelo site da polícia da Nova Zelândia

[3] https://www.publico.pt/2017/05/21/sociedade/noticia/europa-tem-90-salas-de-consumo-assistido-e-apenas-uma-morte-reportada-1769564

Quinta-feira, 3 de outubro de 2019
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