Um pouco de luz ao mal-estar de Alice
Sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Um pouco de luz ao mal-estar de Alice

Imagem: Fred Stein – picture alliance / DPA

 

Por Graciela Márcia Fochi Sandro Luiz Bazzanella

 

– Vem Alice, você vai perder a dança!

– Tá bom… já vou sair… tudo bem…acho que eu vou conseguir!

 

 

Nos tempos em que nos cabe a oportunidade de existência, temos sido surpreendida pelos feitos de uma extrema direita que tem se comportado à espelho dos saudosos répteis jurássicos e para o endosso do enredo de fantasmagórica fábula, tal comportamento tem sido coroado pelo condão da credibilidade da qual as elites econômicas nacionais e internacionais dispõem. Estes, uma vez nos governos, desfilam seduzidos e absortos em meio ao canto dos projetos austeros de financistas, que versam sobre crescimento, progresso, modernização, empreendedorismo, inovação, riquezas triunfantes, ocultando um reverso que prevê a exploração aviltante do patrimônio cultural e natural e o cadenciamento das condições de pobreza e miséria das populações e povos.

 

Temos nos aconselhado com os escritos de I. Wallerstein (1930-2019), A. Quijano (1928-2018) e W. Mignolo (1941…), os quais tem conduzido a compreender às instâncias mais profundas destas circunstâncias, em especial reconhecer o quão antigo é este projeto, a perplexidade das respostas e resultados que já proporcionaram, em especial para com as populações latino-americanas, africanas, judeus, refugiados entre outras minorias.

 

Bem, suspirando profundamente, apoiamos a testa sobre a palma da mão e cotovelo e sem demora nos vemos inclinados e fascinados tanto pela resignação como pelo desencanto…Cristo, que tentação!

 

Nos anos finais do século XIX, o artista norueguês Edward Munch (1863-1944), sintetizou na forma de pintura óleo sobre tela a obra: “O grito” (1893), que por sua vez é reconhecida como obra precursora do movimento artístico do expressionismo alemão. O expressionismo significou um movimento de vanguarda, que fazia oposição a outros movimentos e concepções artísticas, culturais e intelectuais como o impressionismo, o naturalismo e o positivismo. A atmosfera que favoreceu o surgimento do expressionismo encontrava-se densamente saturada por ansiedades e angústias dos anos anteriores à deliberação da Primeira-Guerra Mundial (1914-1918). 

 

Bem, o desencanto poderia ser maior, se fossemos portadores da bagagem histórica da geração que testemunhou o desenrolar da Primeira e/ou da Segunda Guerra Mundial (1914-1945), e/ou da geração que nos antecedeu, na qual protagonizaram diante do regime de ditadura militar (1964-1985) personalidades como Caetano Veloso (1942…), Chico Buarque (1944…) e Dilma Roussef (1947…) dentre outras tantas laureadas ou não, e que hoje estão testemunhando e suportando conscientemente, pela segunda vez nesta vida, a experiência de um regime de ditadura desta vez feita por “outros meios e integrantes”… bem se assim nos ocorresse, quão grande maldição seria! Talvez desesperaríamos… 

 

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Ainda não sabemos como e por onde nos desenredar, pois se instaura diante dos olhos e no prolongamento do horizonte, um denso véu intransparente e obscuro. Quem sabe, em meio a esse vertiginoso e tortuoso exercício de torções e contorções que parecem impotentes, ilusões sejam desfeitas, a clareza e a resistência sejam lapidadas e aprimoradas… 

 

Mas eis que Deleuze (1925-1995), com mais uma das suas heroicas façanhas, assovia: – não sejam tolos, é exatamente disso que o poder precisa! O jubilo do poder, que é conservador, moralista e intolerante, reside na derrota da alegria, do entusiasmo, da audácia e da esperança. – Vamos aprumem-se! Acendam! Levantem! Girem! Dancem! Que tal um bolero?! Por que não o de Ravel (1875- 1937)?! Vai, vamos, abram essa porta!

 

Amigo de Deleuze, também Agamben (1942…) nos convida ao exercício da potência do pensamento. Potência! Puro devir. Movimento singular que não se deixa apreender em ato, ou pelas “fake news”, pela insensibilidade humana brutal do pragmatismo econométrico dos especialistas de plantão do mundo financeirizado.  Potência do pensamento se exercita aristotelicamente na “Amizade” com postura política daqueles que compartilham o mundo cientes da responsabilidade com as presentes e futuras gerações.

 

É na manutenção da singularidade do comum que a potência do pensamento se potencializa inventando, criando, resistindo, à violência, à imposição dos imperativos de uma sociedade de mercado de plena produção e de pleno consumo de tudo e de todos, cujo resultado final é a barbárie, a manutenção do campo de concentração como paradigma civilizatório em curso e, por decorrência lógica a sentença condenatória das gerações vindouras. 

 

E com Hannah Arendt (1906-1975) renovamos o convite para assumirmos a tarefa mais importante de nossas vidas “o cuidado com o mundo”, que somente pode ser realizada no cultivo da amizade, da solidariedade e da fraternidade. 

 

-Que bom que você veio Alice!  

Permita-nos uma dança, nos dê sua mão!

 

 

Graciela Márcia Fochi. Graduada em História pela Universidade de Passo Fundo (2003). Mestre em Patrimônio Cultural e Sociedade pela Universidade da Região de Joinville (2011). Doutoranda em História Global na Universidade Federal de Santa Catarina. Docente nos cursos de História/EAD, Serviço Social/EAD e Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Leonardo da Vinci.

 

Sandro Luiz Bazzanella é doutor em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Educação e Cultura pela Universidade do Estado de Santa Catarina, graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Dom Bosco. Professor Titular de Filosofia na graduação e no mestrado da Universidade do Contestado.


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