Alô, privilégio? Netflix lança discussão sobre privilégio branco
Segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Alô, privilégio? Netflix lança discussão sobre privilégio branco

Imagem: Série “Hello privilege. It’s me, Chelsea” / Netflix

 

Por Veyzon Campos Muniz

 

“Trump é o maior exemplo de privilégio branco”

 

 

Com a frase de impacto na coletiva de lançamento, em setembro de 2019, a Netflix estreou o documentário Alô, privilégio? É a Chelsea. (Hello Privilege. It’s Me, Chelsea), dirigido pela realizadora e produtora negra Alex Stapleton e estrelado por Chelsea Handler, comediante branca estadunidense. O foco da obra é a discussão sobre o privilégio branco. “Quero saber como ser uma pessoa branca melhor com pessoas não brancas, sem fazer um alvoroço disso”, afirma Chelsea que, em 2012, foi nomeada pela Revista Time uma das pessoas mais influentes do mundo.

 

A narrativa segue a protagonista em uma investigação dúplice: ela, de um lado, busca conhecimento acerca da realidade do racismo estrutural e de seu impacto sobre as pessoas negras e, de outro, medita sobre suas experiências de vida, marcadas por benefícios e oportunidades trazidos por sua branquitude. Percebe-se, inicialmente, que os privilégios de deter pleno conhecimento sobre a sua própria história e de usufruir de riquezas financeiras hereditárias são traços ordinários e muito marcantes nas realidades brancas.

 

Ao participar de uma reunião do grupo de estudos do Professor Jody David Armour, chama atenção que Chelsea é levada até o local por seu motorista, um homem negro. Não se furtando da noção de que privilégios comumente se expressam em violências simbólicas cotidianas, o docente da Universidade do Sul da Califórnia e pesquisador da relação entre justiça racial e Estado de Direito, coloca a comediante em uma posição (e em um ambiente) de desconforto. Nesse momento, uma participante do grupo é bastante enfática ao questionar a legitimidade (e utilidade social) da jornada explorada (comercialmente) por aquela mulher branca e rica. 

 

É nítido que Chelsea se desenvolveu como ser humano e persona pública sem refletir sobre sua branquitude – o que é muito comum. Contudo, vê-se ao longo do documentário um ponto de viragem. Martin Luther King, ícone da luta anti-racista e do movimento de afirmação dos direitos civis de pessoas negras, em seu último livro Where Do We Go from Here: Chaos or Community?, já alertava que, para brancos, a concepção de igualdade possui sentido de “melhoria”, haja vista que seus privilégios, enquanto grupo dominante nas relações de poder, os afastam da ideia de urgência e emergência na efetividade de direitos fundamentais. Na mesma linha, Handler, em autocrítica racial, destaca que “tem gente (branca) que entende a igualdade como uma perda”, denunciando que o raciocínio dominante evoluiu da ignorância à nostalgia.

 

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Com efeito, os caminhos percorridos pela comediante em espaços predominantemente brancos confirmam tal denúncia. Nos relatos colhidos em uma Oktoberfest e em uma roda de conversa com mulheres auto-identificadas como conservadoras, observa-se o desconforto social com o processo de racialização sofrido pelas pessoas brancas, a partir das provocações feitas sobre questões raciais. “Você concorda que o privilégio branco existe? Não, eu concordo que o ‘desprivilégio’ negro existe” – torna-se a única autorreflexão minimamente sensível à realidade das pessoas negras nesse contexto. Sente-se muito ricamente a atmosfera de insatisfação experimentada pelas pessoas brancas quando da constatação dos privilégios que logram pelo simples fato de serem brancas.

 

Oportunamente, W. Kamau Bell, comunicador negro, bem elucida: “As pessoas precisam entender que o racismo não é um sentimento. Não é uma emoção… É uma força mensurável que você vê na história do país até este momento, e ao momento seguinte a esse e depois…. É uma estrutura do país”. O que é complementado pelo diretor executivo negro Rashad Robinson: “O racismo também é usado como mecanismo para criar desigualdades de renda e de classe”. Com muita precisão e em acertada análise, os colaboradores do documentário explicitam que o racismo é, em verdade, uma expressão sistêmica do domínio branco sobre o acesso a bens e serviços, a gestão de espaços de poder, a construção de narrativas e a reprodução de subjetividades na sociedade. “É um problema de brancos que traz consequências para outras raças”, como assevera Tim Wise, escritor estadunidense branco e ativista anti-racismo.

 

Em seu último ato, a narrativa se concentra no reencontro da protagonista com o seu namorado de adolescência negro. Com vidas que seguiram por caminhos antagônicos, a consideração conclusiva de Chelsea não é nada surpreendente: “os obstáculos são bem mais difíceis para uma pessoa negra do que para uma branca”. Entretanto, o impacto do reconhecimento do privilégio por parte de uma pessoa branca com o tamanho da rede de influência de Chelsea não deve ser minimizado e serve de chamamento ao indispensável engajamento de mais brancos na luta anti-racista.

 

Destarte, a Professora Carol Anderson diz à Chelsea: “Você está vindo em busca de conhecimento. E começar pensando sobre o fato de como você chegou aqui é absolutamente essencial. Isso tem haver sobre como o sistema cria vencedores e perdedores, independentemente do que eles façam. E é assim que ele tem redistribuído oportunidades e recursos baseado em nada além de privilégio”. A docente da Universidade Emory e pesquisadora de estudos afro-americanos, por conseguinte, ajuda-nos a firmar a certeza que o privilégio fundamentado na cor se apresenta dramaticamente na concentração branca de benefícios e oportunidades sociais e na blindagem de violações a direitos fundamentais, como o bem-estar e a vida.

 

 

Veyzon Campos Muniz é Doutorando e Mestre em Direito


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