Pode uma mulher desafiar as regras do patriarcado?
Segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Pode uma mulher desafiar as regras do patriarcado?

Imagem: Divulgação

 

Coluna Féministas

Por Simony dos Anjos

 

Recentemente, viralizou um vídeo no qual o Edir Macedo dizia que suas filhas, Cristiane e Viviane, não tinham seu apoio para cursar a graduação, porque ele queria que elas fossem submissas aos maridos

 

 

O vídeo foi feito no altar do Templo de Salomão e ele proferia, ao lado das filhas e genros, que mulher quando estuda “quer ser cabeça”. Ele disse, também, que tem muita mulher com dificuldade de encontrar um “cabeça”, porque são mulheres bem sucedidas, e que por tal motivo, afastam homens que as queiram.

 

Eu não ia escrever sobre esse vídeo, porque ele é tão absurdo, que acredito que nem seja necessário desmentí-lo. Contudo, eu mudei de ideia e resolvi compartilhar com vocês uma história bíblica que eu amo. Pois bem, se trata da história das filhas de Zelofeade, cinco mulheres que resolveram enfrentar as regras patriarcais do povo judeu do velho testamento. E por que eu resolvi fazer isso? Justamente porque existem muitas meninas que são católicas ou evangélicas que não escutam essas narrativas em suas igrejas, e que são usurpadas de conhecerem histórias bíblicas nas quais as mulheres são as grandes protagonistas. 

 

Então, esse não é um texto sobre o Edir Macedo, é um texto sobre a narrativa das filhas de Zelofeade, que está registrada em Números 27. Maalá, Noa, Hogla, Milca, e Tirza eram filhas de Zelofeade, que por serem mulheres não receberiam parte da herança da terra prometida. Por conhecerem as leis da herança patrilinear, essas cinco jovens foram até Moisés e solicitaram que herdassem a terra que era devida ao seu pai. Moisés faz um ritual de consulta a Deus, que prontamente responde: “o que elas dizem é justo, passará a elas a herança de Zelofeade.   

 

Está aí um trecho bíblico que é uma disputa pela igualdade de gênero, ou seja, mulheres que reivindicaram igualdade na herança e foram atendidas por Deus. Engraçado que os pastores midiáticos escondem esses textos que mostram que o povo judeu, e até mesmo os cristãos no novo testamento, tinham disputas internas contra a postura patriarcal dos religiosos e que nessa disputa as mulheres foram ouvidas e amparadas pelo próprio Deus.

 

Outro exemplo, este mais clássico, é o da prostituta Maria Madalena (João 8), que à beira de ser apedrejada por estar em adultério, ouve de Jesus: “quem não tem pecado que atire a primeira pedra” e, logo após os raivosos algozes saírem de cena, ela ouve: “Quem te condena, mulher?”.

 

Por fim, essa fala do Edir Macedo é de uma canalhice tremenda, pois ele ataca o direito das mulheres de cursarem graduação, ao mesmo tempo que as Universidades Brasileiras sofrem os mais baixos golpes financeiros, e sabemos bem que nessa onda de retirada de apoio aos universitários, as mulheres serão as mais atacadas – principalmente as mulheres negra e mães.

 

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Ou seja, não é minimamente estranho essa fala desencorajando mulheres a estudarem acontecer em épocas de Escola sem Partido e corte na Capes? Há bem pouco tempo, mulheres com bolsa de pós-graduação conquistaram o direito de gozarem de licença maternidade, sem prejuízo de bolsa. E é sempre assim, toda vez que há uma crise, os direitos das mulheres são os primeiros a serem rifados, como diria Beauvoir.

 

Na Universidade de São Paulo, desde 2015, as creches têm sido desmontadas, por não serem a atividade fim da Universidade. Muitas alunas tiveram que trancar a universidade, ou estão cursando com muitas dificuldades, pois tiveram a creche retiradas – e sabemos que quem sempre abre mão da vida profissional e acadêmica para cuidar dos filhos na maioria das vezes é a mulher. Muitas universidades públicas sequer dão algum suporte às mães. Essa fala do Edir Macedo não diz apenas respeito às filhas dele, mas à normatização do impedimento de mulheres serem acadêmicas, pensadoras e livres – porque o conhecimento liberta!   

 

Vemos, então, que o Bispo está utilizando todo o seu aparato religioso e midiático para disseminar ideias retrógradas e patriarcais. Ele, nesse sentido, está dando respaldo para as ações do governo Bolsonaro de desqualificar o acesso universal à Educação. Mas, felizmente, se ele lê a bíblia no viés patriarcal, as féministas estão aqui para fazer o contraponto! 

 

Por fim, a Bíblia é um texto que sempre foi interpretado por e para homens, contudo, esse texto está em disputa e mulheres têm interpretado o texto sagrado a partir de seus corpos, de suas experiência de fé e prática. Somos mulheres que lêem a bíblia, estudam e que fazem política. Somos mulheres que defendem os direitos das  mulheres, autonomia de nossos corpos e vidas. Assim Edir, vamos estudar, vamos sair às ruas e vamos ler a bíblia, vamos reinterpretar a bíblia e não será um cara tosco feito você que vai nos convencer do contrário. Se Deus ouviu Maalá, Noa, Hogla, Milca, e Tirza eram filhas de Zelofeade, Ele há de nos ouvir. 

 

 

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestranda em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.


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