Do nordeste, avistamos revoluções!
Quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Do nordeste, avistamos revoluções!

Imagem: Ianah Maia

 

Coluna Discursos Não Pacificados

Por Ingrid Assunção Farias

 

Foi lançada no Nordeste pela Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, na semana passada, a campanha “Mulheres Negras Pela Vida!“, promovida em parceria com a ONG Fase.

 

 

A campanha provoca um debate amplo na sociedade sobre como as violências contra a mulher negra tem crescido no contexto de perdas de direitos. As estatísticas apontam que são as mulheres negras que mais sofrem os impactos do retrocesso, nos contextos de diminuição de ambientes democráticos. A campanha denuncia que o racismo estrutural cria sistemas de opressão que impactam negativamente na vida cotidiana do povo negro, em especial as mulheres.

 

“A campanha tem o objetivo de chamar atenção para violência contra a mulher negra, especificamente. Demonstrar que, entre as mulheres, as negras recebem uma violência a mais que é causada pelo racismo estrutural e estruturante de nosso país. Para isso, estamos com a exposição de alguns manequins com dados oficiais em locais com muita circulação de pessoas. E, mais pra frente, vamos revelar outras ações. É uma campanha de abrangência estadual. Durante o mês vamos ter os lançamentos nas outras regiões do Estado”.

Relata Eduarda Nunes, jornalista e integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco.

 

A campanha promove uma ação que estimula a proximidade e diálogo com a população. A ação é marcada pela exposição de manequins (como mostra a fotografia), vestindo roupas produzidas por mulheres costureiras da Rede, com dados sobre a condição de vida das mulheres negras.  Os manequins ficam expostos em espaços como o metrô, terminais de ônibus e lugares de grande circulação de trabalhadoras e trabalhadores. A ação tem despertado a atenção e promovido a reflexão das pessoas que param para observar os dados e trocar impressões com as ativistas da rede, que se dispõem a conversar sobre a realidade e quais as alternativas para resistir de forma coletiva. 

 

Os dados denunciados na campanha tratam do cotidiano das mulheres negras, a exemplo da condição destas no que toca a educação. De acordo com dados do PNAD, a taxa de analfabetismo entre pessoas brancas é de 4,2%, enquanto entre pretos e pardos chega a 9,9%. No atual contexto, essa realidade assusta quando percebemos que as ações do atual governo diminuem o acesso das pessoas negras aos ambientes escolares, questionando conquistas históricas como as cotas raciais, medida necessária para dar as mesmas condições de acesso à educação para pessoas negras que enfrentam desde cedo, conforme dados apontados, dificuldade de acessar direitos essenciais, como acesso a educação de qualidade e gratuita. 

 

Outro dado denunciado nos manequins expostos pela campanha aponta que, no Brasil, 67% das pessoas negras estão incluídas entre os que recebem até 1,5 salário mínimo (cerca de R$1.400). Entre os brancos, esse índice fica em 45%. A mesma pesquisa da Oxfam que registra esses dados mostra também  que brancos e negros só terão salários iguais no ano de 2089, ou seja, daqui a 70 anos, se a situação do Brasil continuar como está hoje. Mas, pelas atuais previsões da conjuntura nacional e internacional, teremos muito trabalho para recuperar os ataques que estamos sofrendo em um volume que ainda não é possível  indicar quanto tempo será necessário para retomar conquistas.

 

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Outro fator retratado na campanha é a questão das violências, pauta que mais provoca impacto na garantia do direito à vida das pessoas negras. As políticas de segurança pública no Brasil são projetos de reedição dos contextos de escravidão, referendados pelo projeto de necropolítica, de poder através da morte, da morte dos corpos negros. Na campanha, a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco evidencia essa realidade através de dados do IFOPEM que mostram que as mulheres negras em Pernambuco representam 81% da população prisional. Destas mulheres, cerca de 20% são analfabetas, num contexto do Brasil que é o 3º país do mundo que mais encarcera.

 

“O caráter do Sistema de Justiça Penal é outro. Não se trata da prevenção e punição do crime, mas sim da gestão e do controle dos despossuídos. […] encarceramento em massa tende a ser categorizado como problema de justiça criminal oposto à justiça racial ou problemas de direitos civis (ou crise)”.

Michelle Alexander, 2018

 

No sistema econômico predador do biopoder, a função do racismo é regular a distribuição das mortes e tornar justificável as ações assassinas do Estado. Mas essas mortes não acontecem apenas do corpo físico. Nesse sistema, o epistemicídio, como conceitua a intelectual Sueli Carneiro, também faz parte matar qualquer iniciativa das pessoas negras em produzir intelectualmente sobre suas condições de vida, a falta de educação, trabalho, saneamento, saúde e outros direitos fundamentais. Isso também causa mortes diárias na população negra, a principal população que mora nas favelas e comunidades de todo Brasil.

 

“Obrigada por vocês estarem fazendo essa isso, eu nunca sabia que tinha dado sobre as coisas ruins que fazem com a gente, é bom que as pessoas vejam pra mudar”

Mulher que passava com sua filha de 9anos pelo Metrô do Recife, e pediu material da campanha para levar pro seu bairro. 30/09/2019

 

A Rede de Mulheres Negras de Pernambuco promove micro revoluções, que descolonizam as lógicas de poder hegemônico, a lógica que apenas algumas pessoas podem ter acesso a informação. A campanha descoloniza quando leva informações sobre a vida das mulheres negras ao local onde a população negra está, os metrôs, terminais de ônibus que são o caminho diário de várias dessas mulheres. A ação política tem sido negada à população negra, a organização política perseguida e muitas vezes desarticulada. Iniciativas como a campanha despertam num dia comum de caminho pra pegar o transporte de volta pra casa a possibilidade de ter algo diferente para pensar, sabendo que tem outras mulheres que estão lutando por você. Quem sabe você também pode fazer parte de algo que muda o dia de outra mulher preta! 

 

A ilustração da campanha é da artista e feminista negra Ianah Maia

 

 

 

Ingrid Assunção Farias é antiproibicionista, abolicionista, nordestina e feminista negra periférica. Fundadora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas, integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e parte do coletivo A Quilomba.


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