A infância que brinca com a morte
Sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A infância que brinca com a morte

Imagem: Vladimir Platonow / Agência Brasil

 

Por Marco Aurélio da Conceição Correa

 

Diz um itan dos povos Iorubas que os únicos que conseguiram enganar a morte foram duas crianças, os Ibejis.

 

 

Na cosmovisão iorubana, os itans são o conjunto de mitos, lendas e contos que constituem a visão de mundo para os iorubanos. Os Ibejis – orixás gêmeos representativos da infância – conseguiram vencer Iku, a morte, brincando.  Diz a lenda que Iku decepava antes da hora a vida das pessoas de uma aldeia, para dar fim a tal ameaça, os Ibejis foram invocados pelo oráculo de Ifá da região. Ninguém acreditou que duas crianças conseguiriam dar fim na carnificina de Iku, porém, os Ibejis bolaram um plano pra enganar a morte. Enquanto um dos gêmeos tocava tambor o outro convidava Iku para dançar, que logo se encantou pelo sacolejo dos gêmeos e dançava sem parar. Iku se desgastava em exaustão enquanto os gêmeos se alternavam na dança para descansar. A brincadeira foi tão longa que Iku desistiu de continuar sua matança e deixou finalmente a aldeia em paz. Para agradecer o fim da ameaça da morte os gêmeos foram presenteados com muitos doces e brinquedos pelos aldeões; tradição essa que trazida pela diáspora africana ainda permanece nos tempos atuais.

 

Apesar de certos mitos serem formas fundamentais para a resistência de povos historicamente marginalizados, como os de origem africana, atualmente o culto à mitos tem posto em risco o andamento do processo democrático brasileiro. As infâncias e as crianças correm muitos riscos em governos de retrocessos, mesmo sem saber. Porém, estão nas mesmas as possibilidades de se pensar em outras formas de civilidade. “Apenas o protagonismo da Infância pode enfrentar de modo qualificado as crises políticas mais severas” (NOGUERA, 2019, p. 132). Precisamos ouvir as crianças!

 

As crianças juntos a outros segmentos da sociedade fazem parte grupo de pessoas que não tem seus direitos devidamente reconhecidos. A voz da infância na democracia não é levada em conta, algumas delas não chegam nem a possuir o direito de ter infância. Enquanto questões relacionadas ao seu bem estar – principalmente quando se pensa num ideal de família – foram pontos centrais  nas eleições de 2018. Mente-se sobre a realidade das crianças, seus direitos primordiais são questionados e o mais chocante: cada vez mais morrem mais crianças. E essas crianças tem cor e endereço. O atual projeto da necropolítica de estado tem um alvo específico, como vimos com o tenebroso caso da menina Agatha Felix, a população negra e periférica.

 

O quanto ouvimos nossas crianças? Se suas infâncias são tão disputadas politicamente, precisamos ouvir o que elas tem a dizer. Infelizmente essa escuta não acontece, as crianças não são ouvidas na esfera da representação política, elas estão na posição do infans, aquele que não tem voz, como sabiamente definiu a intelectual Lelia Gonzales. Precisamos ouvir as mulheres negras quando se fala de crianças, pois elas são as verdadeiras matriarcas do que podemos chamar de Brasil hoje em dia. E Gonzales (1983) dizia é da boca da ama de leite que se gesta as primeiras palavras do português brasileiro. Quantos meninos mimados que tentam reger a nação não passaram pelos cuidados de mulheres negras? Que ao invés de cuidarem de suas próprias famílias precisavam trabalhar em casas de outras famílias como forma de renda.

 

Se pensarmos na dureza que tantas crianças negras e marginalizadas tem e que tiveram que contornar para sobreviver ou para conseguir existir plenamente na vida, a palavra meritocracia não faria sentido. E se essas crianças marginalizadas tivessem a oportunidade de falar abertamente sobre seus direitos em uma sessão do congresso? Alguns de nossos representantes políticos só sabem compreender uma língua: a do dinheiro. E é essa linguagem que querem nos impor em nossos jeitos de perceber, compreender e levar a vida, o que está nos adoecendo cada vez mais. A produtividade, a competitividade e o consumo são os males que afligem cada vez mais os adultos e as consequências na nossa vida coletiva já estão chegando.  

 

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O projeto civilizatório ocidental, para justificar a sua dominação universal partiu de aparatos para subjugar até seus semelhantes, impondo as crianças e as mulheres, processos de hierarquização que fundamentaram o patriarcado.

 

“A infância moderna, figurada como inocente, frágil, imatura e dependente, alavancou as práticas de proteção e controle, por parte da família e do Estado modernos. Dessa forma, a relação de tutela e dependência a que foi submetida tornou-se um índice do percurso civilizatório universal a ser apoteoticamente realizada no adulto, branco, independente, individualizado, senhor da vontade e da razão. A figuração de fragilidade e inocência da infância só se realizou em conjunção com esta outra figuração, a do adulto, racional e autônomo. De posse da Ratio, o sujeito adulto é supostamente libertado da “natureza”, naquilo que aí o escraviza como as paixões, o mito, a irracionalidade. Adquirindo, pois, uma “segunda natureza” constituída de racionalidade, o sujeito humano, ao longo do seu processo de desenvolvimento, transforma-se para dominar a si e a natureza (CASTRO, 2002, p. 50)”[1]. Ou seja,

 

“os brancos europeus inventaram que o “resto” do mundo estava doente e que tinham a cura. De onde segue o postulado de que a exploração advém de uma visão de mundo de que as civilizações brancas euro-cristãs são “adultas” o suficiente para ensinar as infantis” (NOGUERA, 2019, p. 136-137 ).[2]

 

Precisamos nos aproximar aqui de nossas infâncias primordiais, ou seja, aquelas que distanciam da proposição de uma infância frágil e incapaz, por isso falaremos aqui das inventividades presentes no que é ser criança, principalmente aquelas que estão distantes da conformidade ocidental, ou por processos de desigualdade e marginalização ou por condições originárias de forma de se viver. Aqui não quer dizer que estamos glamourizando as condições precárias da vida nas periferias e nas margens do sistema, nem que estamos essencializando os povos nativos, como os indígenas, como uma possível redenção para o modelo civilizatório humano e muito menos que estudar a infância seja a panacéia que irá nos redimir, mas sim que encontramos nessas condições a existência de infâncias distantes do acabamento alisado demais do sujeito moderno (COELHO, 2016) e de todas as consequências que desencadearam do seu projeto político civilizatório. Mesmo assim, acreditamos que em quaisquer infâncias encontramos a concepção da insubordinação, quer dizer, o ser criança por si só é um ato de rebeldia à qualquer forma de homogenização, dominação e subjugação. Em diferentes escalas, a infância de uma criança na zona sul do Rio de Janeiro é bem diferente da infância dos povos Xhosa sul-africanos, mas mesmo assim elas compartilham uma universalidade na diferença, uma pluriversalidade comum. Por isso é um erro a universalização ocidental, não existe uma infância e sim infâncias vividas por diferentes crianças em diferentes espaços/tempos. A questão é se a infância que acreditamos é inclusiva ou excludente. 

 

As perspectivas sobre as infâncias são tão discrepantes que alguns teóricos chegaram a afirmar que infância teria morrido na contemporaneidade,

 

“como e por que a infância, e somente a infância, pode ser considerada como morta, acabada? Por que não surge com igual força simbólica, no horizonte de inquietações pertinentes ao espírito da nossa época, a morte da adolescência, ou ainda da adultidade? Acabou a adultidade? Parece que não. Se só a infância pode morrer, e morre basicamente para nós adultos (as crianças não me parecem tão preocupadas a respeito de sua própria morte!), talvez não seja de todo impertinente indagar qual a ansiedade/angústia de morte que a infância de hoje nos evoca? Que profundos complexos são mobilizados em nós adultos para que perguntemos, cheios de temor e inquietação, “morreu a infância”? como? por quê? Ou ainda, de quem foi a “culpa”? quem a matou? (CASTRO,2002, p. 48).”

 

A criança brinca até com a morte epistemológica dela própria, por isso ela é um campo complexo de disputas, pois diversos poderes tentam conceituar o que seria a infância. Conceituar a infância seria o núcleo primordial para consequentemente se conceituar o adulto, as relações sociais, as famílias e até a concepção de sociedade. No Brasil atual, poderes conservadores consideram como ameaça quaisquer grupos que ponham em risco a ideia de uma infância imaculada. Outrora pura por causa de seus componentes étnicos, tendo o gene negro como ameaça, agora tendo a grande ameaça no campo das sexualidades, encontrando na heteronormatividade o padrão. Assim, mulheres e homens negros e principalmente pessoas LGBT e afins representam um ataque à universalidade inexistente de uma infância essencializada.

 

Não existe a ideia de uma criança parada, é o movimento que define a infância, como vemos na incansável dança dos Ibejis, é o que se convém chamar de devir, algo que é “”sempre contemporâneo”, criação cosmológica: um mundo que explode e a explosão de mundo” (KOHAN, 2004, s/p), o devir-criança então “é uma forma de encontro que marca uma linha de fuga a transitar, aberta, intensa” (KOHAN, 2004, s/p). Então mesmo sendo adultos, ainda somos crianças, porque ainda podermos ter sete anos, enquanto uma criança de sete ainda não pode ser um adulto, o problema é que nos esquecemos disso e reprimimos todas as nossas inventividades infantis para nos justificarmos como adultos. “Não é a criança que se torna adulto, é o devir-criança que faz uma juventude universal” (DELEUZE, GUATTARI, 1997, p. 69 apud KOHAN, 2004, s/p).[3]

 

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A infância parte assim do movimento, do encontro, do conflito, do dissenso. A criança é do campo do sensorial, não só da ortodoxia da linguagem verbal e escrita, por isso as vezes verbalizar não é o suficiente para se comunicar com uma criança, é preciso de outros sentidos. Politicamente temos que entender que nem sempre o diálogo é o caminho, é preciso romper. A infância é o caminho contrário do estável, é na própria instabilidade da vida que ela se define, ao contrário do adulto que foi ensinado a ter prazer nas coisas sólidas e concretas da vida elaborados pelo cientificismo moderno em busca da verdade absoluta. 

 

Exu – Orixás dos movimentos – não é frequentemente representado como uma criança à toa. Exu é o primeiro e o último Orixá ao mesmo tempo, é o que come primeiro e é o mais jovem e mesmo assim ainda é um dos mais indispensáveis para o equilíbrio e funcionamento da vida para os iorubas. Exu é o comunicador entre o Orun e o Aiye, o mundo espiritual e o celeste. Exu atirou uma pedra hoje para matar um pássaro ontem. Exu representa o conflito, que testa os códigos morais para afirmar a sua legalidade, como as próprias crianças. A infância nos aparece assim como um devir que cruza os códigos firmados pela adultidade. Brinca com as regras impostas para reorganizá-las de forma correta e digna. “Essa meninada zomba e embaralha os códigos já caducos, e parecem anunciar com a eloquência do que “sempre esteve por ai”, a importância fundante do que sentem no modo como vivem, logo não permitindo ver nem sentir com definição” (COELHO, 2016, p. 53).[4]

 

O lúdico, palavra tão cara atualmente, é o que nos define como seres humanos, não só o controle a disciplina, nem a produtividade e o consumo. Em tempos que se é preciso consumir para se divertir, o simples brincar é uma forma de se subverter estas lógicas. Como firmou Deleuze:

 

“A primeira maneira de reverter a lei é irônica, a ironia aí aparecendo como arte dos princípios, da ascensão aos princípios e da reversão dos princípios. A segunda é o humor, que é uma arte das consequências e das descidas, das suspensões e das quedas. Significa isso que a repetição surge tanto nesta suspensão quanto nesta ascensão, como se a existência se retomasse e se “reiterasse” em si mesma desde que já não seja coagida pelas leis? A repetição pertence ao humor e à ironia, sendo por natureza transgressão, exceção, e manifestando sempre uma singularidade contra os particulares submetidos à lei, um universal contra as generalidades que estabelecem a lei” (Deleuze, 2000, p. 14-15 apud ALVES, BRANDÃO, 2017, p. 98).[5]

 

A infância é política, não há como negar, encarar a infância como um devir que subverta as práticas conservadoras e cristalizadas da vida adulta é uma opção estética. É preciso se posicionar em prol de um conceito de infância que siga o fluxo do contestamento e não do congelamento. E aprender com elas, não só no modelo ocidental de escola, a educação se dá em casa, mas não acontece só nela ,mas sim nas ruas, nas praças,  por todos nossos cotidianos. Podemos aprender com as sociedades originárias com a noção de aldeia, ao invés da verticalidade da cidade ocidental, a aldeia é a prática da roda, da comunidade. Em governos austeros e conservadores a arte, o devaneio e digressão são premissas impraticáveis, a brincadeira, a contemplação e a poesia são antídotos para cidades adoecidas.

 

A comunhão da circularidade das aldeias, tão comuns em brincadeiras de crianças, é uma outra forma de se perceber o mundo. Porém, criança não é só brincadeira, é um assunto mais do que sério na atualidade, principalmente quando vemos o aumento de casos de mortes. A infância não pode ser só uma bandeira pra defender um partido político ou outro. A denuncia é o primeiro passo para uma ação propositiva de mudança e transformação.

 

“A rebeldia enquanto denúncia precisa de se alongar até uma posição mais radical e crítica, a revolucionária, fundamentalmente anunciadora. A mudança do mundo implica a dialetização entre a denúncia da situação desumanizante e o anúncio de sua superação, no fundo, o nosso sonho” (FREIRE, 1996, p 53).[6]

 

A transgressão da infância que questiona, subverte, esperneia e reage contra uma sociedade desumana é o que precisamos e ainda é um sonho alcançável. Precisamos aprender com as crianças, elas são nossos melhores educadores. Precisamos aprender com elas a enganar a morte de nossos próprios ideiais.

 

“As crianças são os melhores teóricos, pois não receberam a educação quenos leva a aceitar nossas práticas sociais rotineiras como “naturais” e, por isso, insistem em fazer as perguntas mais constrangedoramente gerais e universais, encarando-as com um maravilhamento que nós, adultos, há muito esquecemos. Uma vez que ainda não entendem nossas práticas sociais como inevitáveis, não veem por que não poderíamos fazer as coisas de outra maneira”  (HOOKS, 2013, p.83).[7]

 

 

Marco Aurélio da Conceição Correa é graduado em pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.


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Notas:

[1] CASTRO, Lúcia Rabello de. A infância e seus destinos no contemporâneo. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 8, n. 11, p. 47-58, jun. 2002

[2] NOGUERA, Renato. O poder da infância: espiritualidade e política em afroperspectiva. Momento – Diálogos em Educação, ABNT, v. 28, n. 1, p. 127-142, abr. 2019.

[3] KOHAN, W. O.. A infância da educação: o conceito devir-criança. In: Walter Omar Kohan. (Org.). Lugares da Infância: filosofia. 1ed.Rio de Janeiro: DPA, v. 1, 2004.

[4] COELHO, Gustavo. Jovens marginalizados e a crítica da razão. Passages de Paris (APEB-Fr) , v. 13, p. 512-532, 2016.

[5] ALVES, Nilda; BRANDÃO, Rebeca. Repetições e diferenças em cotidianos na/da/com a educação infantil. Em Aberto, Brasília, v. 30, n. 100, p. 95-104, set./dez. 2017.

[6] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra. 1996.

[7] HOOKS,  Bell. Ensinando  a Transgredir –A  Educação Como Prática  da Liberdade. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013.

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