O Brasil tem um número alarmante de mortes: “Parece que estamos em guerra”
Segunda-feira, 21 de outubro de 2019

O Brasil tem um número alarmante de mortes: “Parece que estamos em guerra”

Imagem: Tânia Rêgo / Agência Brasil – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Martel Alexandre del Colle

 

O Brasil tem um número alarmante de mortes. Estamos na casa das 60 mil mortes/ano. Ligamos a televisão e parece que o confronto está em todo o lugar, parece que não há uma solução diferente da luta armada. Parece que estamos em guerra. 

 

 

Queria te dizer que mais importante do que a fidelidade do seu cônjuge é a crença na fidelidade do seu cônjuge. Fato é que você não estará a todo o momento com a pessoa que você escolheu para se casar (se é que você é casada ou considera essa uma possibilidade), então parte do seu sentimento de confiança na fidelidade virá de uma crença e não dos fatos.

 

Mais importante do que a existência de um deus é a crença na existência de um deus. Pois, sabemos que existem inúmeras religiões por aí. E geralmente a confirmação da existência de uma anularia muitas outras. Portanto algumas, certamente, estão erradas para que outras estejam certas (se é que existe uma certa no sentido de conter uma verdade transcendental). Porém, o fato de várias religiões estarem erradas não impede que elas tenham efeitos práticos na nossa realidade. Uma pessoa pode ser mais cordial ou mais agressiva dependendo da forma com que ela interpreta a sua religião. A conclusão de crença que ela alcança terá resultado prático no mundo.

 

O que gera o poder de um juiz não é uma força interior, nem suas capacidades, nem somente a lei escrita, mas a crença no poder. Algo que entra em nossos modos de viver de maneira inconsciente. A autoridade, seja policial, guarda municipal, juiz, não é visto como ser, mas como crença de Estado. Crença de um mecanismo funcional e justificado.

 

O Brasil tem mais de 400 mil policiais militares. Se estivéssemos em uma guerra, como ela é declarada, nós teríamos talvez 200 mil confrontos/ano. E o número de policiais mortos seria mais ou menos igual ao número de criminosos mortos. Não é isso que acontece. Morrem muito mais criminosos do que policiais, mesmo a diferença de equipamento e preparo não sendo assim tão grande.

 

Isso me lembrou uma história do meu tempo de formação. Um tenente contava que na “polícia da França”, como ele costumava se referir a nossa corporação quando ele queria contar um podre sem revelar de onde o podre era, tinha um grupo de policiais que quando executavam uma pessoa colocavam ela no camburão da viatura e andavam a 20km/h até a pessoa morrer no camburão. E para eles não serem descobertos, quando havia um radar, eles passavam no radar a 120km/h. Assim, eles teriam provas de que foram o mais rápido possível até o hospital. Ele complementou essa história com um dado. Ele havia pesquisado os confrontos armados envolvendo policiais em diversos lugares do mundo e percebeu que a polícia do Brasil é a melhor do mundo (dizia isso em tom de ironia), pois, segundo ele, as outras polícias tinham muito menos sucesso nos confrontos que a polícia do Brasil. Enquanto lá fora o confronto armado gerava um número de morte mais próximo entre criminosos e policiais, aqui os policiais ganhavam de lavada. Nossa polícia quase sempre matava e quase nunca morria quando os números eram comparados. E mesmo assim temos muitos policiais morrendo. Com isso dá para ter uma ideia de que a quantidade de confrontos no Brasil é muito alta, pois se os policiais morrem na minoria dos confrontos e ainda assim nós temos muitos policiais mortos, então o número de confrontos é absurdamente alto. Sem falar que uma grande parte dos policiais não morre em serviço, mas em bicos. Logo, nossa polícia em serviço é quase invulnerável. Claro que essa lógica cobra seu preço. Temos uma quantidade absurda de policiais cometendo suicídio. 

 

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Bom, fica bem claro que o oficial que contou a história estava ironizando os confrontos, tentando nos dizer que boa parte deles eram execuções, mas que a crença de que eles eram legítimos tinha força. Tinha força apesar de esse sistema ser baseado em elementos tão frágeis. A crença de que os confrontos eram legítimos era forte dentro e fora da corporação. 

 

A prática de colocar pessoas baleadas em camburões foi proibida no Paraná, justamente por causa dessas ações de colocar presos no camburão para morrerem no caminho.

 

A questão é que temos um número terrível de mortes, mas essas mortes não são causadas por uma guerra, mas pela crença em uma guerra. Uma guerra exige dois lados guerreando. 

 

O que é o tráfico senão uma determinação do estado dizendo o que é legal e o que é ilegal? A ideia de que os maiores criminosos vivem nas comunidades pobres não é uma verdade, mas uma crença. Uma crença que é reproduzida nos cursos de formação policiais militares por todo o país.

 

A crença na guerra é um projeto de poder, pois na guerra a lei passa a ser personalista. Na guerra as leis se tornam passiveis de uma interpretação ampla, passiveis de serem ignoradas. Por exemplo, em 1997 foi assinado por 157 países o tratado de Ottawa que acordava sobre a questão das minas terrestres. As minas terrestres se tornaram um grande problema ao redor do mundo. Após conflitos, muitas minas vitimavam civis que pisavam em um desses dispositivos. Entretanto, mesmo com a assinatura, muitos países continuaram a produzir minas terrestres e a usá-las. Os EUA se negaram a assinar, pois, segundo eles, deixar de usar minas terrestres seria um risco para seus militares. Ou seja, na guerra a lei é outra, a humanidade dos indivíduos é relativizada. Na guerra nós lutamos contra inimigos, e inimigos a gente pretende neutralizar, vencer ou eliminar.

 

A crença na guerra eterna permite a execução de uma necropolítica. Resumidamente, o estado brasileiro criou a lei e com ela o problema. Esse fenômeno levou a um número grande de mortes, mas, em vez de apresentar uma solução, o Estado culpabiliza aqueles que ele mesmo condenou. Com essas mortes, a mídia tem material para criar a crença na guerra. Com a crença na guerra, as polícias podem matar mais. Matando mais, um grupo de cidadãos têm suas vidas desestruturadas. Com vidas desestruturadas eles precisam vender sua força de trabalho a uma instituição que os precariza (empregos com salários muito baixos e aceitando, muitas vezes, humilhações, ameaças, trabalhos extras sem remuneração) ou ao mercado ilegal (tráfico, por exemplo). Com uma vida desestruturada dentro de um sistema que fetichiza o consumo, esses cidadãos recorrem a créditos. Com o crédito mais caro do mundo, esses cidadãos entram em um loop eterno de dívidas. Com as dívidas, elas aceitam empregos mais precários e têm suas vidas ainda mais precarizadas. Vidas precarizadas são colocadas como as culpadas pela guerra. A crença de que essas pessoas escolheram essa vida e precisam ser eliminadas gera a justificativa para a corrupção de uma grande massa de policiais que são levados a crer que esses cidadãos são o problema. Enquanto os chefes de polícia, que não estão na linha de frente dos confrontos e por isso não morrem, ganham mais poder, já que a lei começa a ser personalista. Isso dá autorização para um juiz condenar um jovem com 10 gramas de maconha por tráfico, já que a interpretação da lei é ampla e ser morador de comunidade pobre pode ser elemento definidor entre um usuário e um traficante, além, claro, da tonalidade da pele.

 

E quem ganha com isso? Empresas que querem servidores em condições precárias, bancos que querem lucros inacreditáveis, empresas de mídia que são pagas por esses bancos. 

 

É bom tentar deixar de ver só a sombra das coisas e começar a olhar nos olhos dos fenômenos. A solução para os problemas do Brasil começa pela abertura dos olhos. A crença precisa ser mais bem alinhada com a realidade.

 

 

Martel Alexandre del Colle tem 28 anos e é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná


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