I Festival Osun Bahia difunde direitos e empoderamento das mulheres de terreiro
Sexta-feira, 25 de outubro de 2019

I Festival Osun Bahia difunde direitos e empoderamento das mulheres de terreiro

Imagem: Bahia Social VIP

 

Por Ana Laura Silva Vilela, Iya Togunde

 

Oxum é uma orixá ligada às águas doces, à fertilidade, à beleza e a outras qualidades. Em sua dança ritual, com um espelho – também conhecido como abebé, move-se e baila à semelhança do movimento das águas.

 

 

Em seu livro Pele da Cor da Noite[1], Ebomi Vanda Machado – intelectual e filha de Oxum –  lembra que apesar de muitos acharem que a orixá dança com seu espelho apenas para admirar sua beleza, na verdade está sempre dançando e analisando o mundo à sua volta. O poder feminino da orixá corresponde, portanto, a astúcia e inteligência. Os mitos e campos de significados oferecidos pelas cosmologias de matriz africana têm implicações nas vivências das comunidades de terreiro e oferecem aprendizado político para a sociedade brasileira[2].

 

No próximo domingo, 27 de outubro, na Lagoa do Abaeté em Salvador será realizado o I Festival Osun Bahia. O evento iniciará com café da manhã no Ilê Axé Abassá de Ogum, terreiro de candomblé localizado no bairro de Itapuã e fundado por Mãe Gildásia Santos, cuja morte em 2000 devido a atos de racismo religioso praticados por evangélicos neopentescostais é mobilizou a luta dos povos de terreiro no Brasil. Este espaço sagrado e histórico, será o ponto de partida para o I Festival de Oxum, organizado por Érico Brás, Mogba – cargo masculino específico do culto a Xangô – do Ile Ase Opo Aganju (Bahia), a Iyalode Rosângela D’Yewa (Rio de Janeiro) e a e a Iyalorixá Jaciara Ribeiro (Bahia).

 

O Festival busca “conscientizar sobre a importância das Iyalorisas e o seu papel como mulher, mãe estruturadora da comunidade, desenvolvendo a autoestima e os conceitos de ecologia, pessoal, material e espiritual, além de promover o combate à intolerância religiosa e o racismo.” O evento parte da noção de ialodê.

 

Por meio de mitos sobre a atuação ora negociadora, ora insubordinada das orixás Nanã[3] e Oxum e de sua correspondência ao cargo político-religioso de Ialodês, a feminista negra brasileira Jurema Werneck[4] utiliza esta categoria originária das religiões afro-brasileiras para pensar o protagonismo de mulheres negras na sociedade. As ialodês seriam mulheres que existiram em África, que antes mesmo da constituição do feminismo, participavam das decisões das cidades, sendo as representantes máximas de suas comunidades. Esta figura foi transplantada para o candomblé. 

 

Em importante texto publicado esta semana na Carta Capital, a intelectual Carla Akotirene[5] aprofundou o significado das ialodês e também refutou os estereótipos atribuídos a Oxum, quer pela hipererotização do olhar branco colonial ou pela supressão da maternidade enquanto gesto político fundante da cosmologia iorubana e também da ideia de ialodê. Oxum é uma pedagogia ancestral transformadora para a luta por direitos das mulheres e para projeto político antirracista. O I Festival Osun Bahia difunde o conceito político de ialodê e seu potencial radical na luta por direitos e empoderamento das mulheres de terreiro.  

 

Programação do Festival Osun na Lagoa do Abaeté

 

27 de outubro de 2019 

Local: Abassá de Ogum

08:20 – Café da Manhã

09:30 – Entrega das Moções

10:30 – Cortejo de Osun até a Lagoa do Abaeté

 

Local: Lagoa do Abaeté

12:30 – Almoço

A partir das 14 h – Rodas de Diálogo e atrações culturais

A partir das 18 h – Grande ato de encerramento do Festival no busto de Mãe Gilda – Cânticos pela Paz e pela Vida.

 

 

Ana Laura Silva Vilela é doutoranda em Direito pela Universidade de Brasília, onde pesquisa o papel das lideranças religiosas femininas na construção dos direitos das comunidades tradicionais de terreiro.


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Notas:

[1] MACHADO, Vanda. Pele da Cor da Noite. 2 ed. Salvador: Edufba, 2013. Disponível em: < https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/16783/1/pele-da-cor-da-noite.pdf>

[2] CURY, Cristiane Abdon; CARNEIRO, Sueli. O Poder Feminino no Culto aos Orixás. In: Revista de Cultura Vozes, nº 2, p. 157-179. Petrópolis: Vozes, 1990. Disponível:<https://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2015/05/Mulher-Negra.pdf>. Acesso em 29 ago. 2019.

[3] A respeito de Nanã: “Já Nanã guarda semelhanças com Oxum, especialmente por sua vinculação com as águas, que em seu caso refere-se às águas paradas e à lama. Sua principal característica é a idade avançada e seu poder está associado ao significado da lama, matéria-prima da qual foi moldada toda a existência, o que a associa à fecundidade, à maternidade e aos processos da vida e da morte. É reconhecida como feiticeira e sua cor é o roxo ou lilás” (WERNECK, 2007).

[4] WERNECK, Jurema Pinto. O Samba Segundo as Ialodês: mulheres negras e cultura midiática. 2007. 318 f. Tese (Doutorado) – Curso de Programa de Pós-graduação em Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. Disponível em: <http://www.pos.eco.ufrj.br/site/teses_dissertacoes_interna.php?tease=10>. Acesso em: 21 out. 2019.

[5] AKOTIRENE, Carla. Osun é fundamento epistemológico: um diálogo com Oyèronké Oyèwúmi. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/opiniao/osun-e-fundamento-epistemologico-um-dialogo-com-oyeronke-oyewumi/>

Sexta-feira, 25 de outubro de 2019
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