Tabata não foi à escola
Sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Tabata não foi à escola

Imagem: Divulgação

 

Por Paulo César Ramos

 

Não sei se Tábata Amaral foi uma boa aluna na universidade mais prestigiada dos Estados Unidos, mas certamente ela não aprendeu todas as lições de que precisava para ser uma boa deputada no Brasil (para os interesses do povo).

 

Eu sei, isso já era patente na Reforma da Previdência, mas este erro que ela cometeu no voto, agora ela comete ao falar da pirâmide social brasileira.
Ela, em programa do YouTube, Segunda Chamada, tentou criticar seus críticos dizendo que a esquerda é classe média e não conhece a vida do povo. Ela disse que no Brasil “quem ganha mil e pouco, dois mil [reais], infelizmente, tá na classe média”. Uma afirmação profundamente, vergonhosamente, equivocada.

Formada em Harvard em Ciência Política e deputada federal, Tábata Amaral não sabe diferenciar classe social de estrato de renda. Certamente ela deve ter olhado algum gráfico ou tabela que apresentava a distribuição da população por faixas de renda, como uma pirâmide de renda, por exemplo. E observou que no meio da pirâmide, a uma distância aproximadamente equivalente entre o topo e a base, estavam as pessoas que ganhavam 1,5 mil reais mensais; vendo isso ela concluiu que a classe média no Brasil era aquilo que ela via no meio, entre as duas extremidades. “O que está no meio é a classe média”, objetivamente concluíra a deputada.

 

A universidade deve ter oferecido este curso a ela, mas ela pode ter faltado ou ter optado por não cursá-lo, mas as ciências sociais estão muito mais avançadas para fazer a análise de classes sociais. Classe social, estrato social, estamento social, posição social, status social etc., são apenas alguns conceitos que ela aprenderia se estivesse disposta a conhecer a sociedade Brasileira.

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O que ela chamou de classe média, é na verdade, um estrato de renda, e não é pelo fato de ter uma renda designada que é classe,  e também não é pelo fato de estar no meio que é médio. Para ser breve, posso apenas dizer que a discussão sobre o que é a classe média é vasto, longo e controverso. Mas entre o que há de consolidado, sabemos que classe média não é apenas o quanto a pessoa ou uma família ganha de salário. Classe média é definida sobretudo por hábitos culturais, capitais simbólicos, tradição e herança familiar.

 

Tábata entrou nesta discussão para tentar desqualificar seus críticos à esquerda, dizendo que eles não conheciam a vida dos pobres, porque ganhavam mais de mil e quinhentos reais por mês – como se ganhar mil e quinhentos reais por mês assegurasse amplo acesso a bens culturais, e consumo de classe média. Esse raciocínio rasteiro está muito aquém do que poderíamos esperar da deputada que chegou à câmara como forte promessa de renovação e atuação qualificada. 
Talvez ela saiba como viviam os mais pobres, anos atrás, quando vivia na periferia de São Paulo. Atualmente, um mil e quinhentos reais pode ser distante numericamente daqueles quinhentos reais com os quais seu pai sustentou sua família. Contudo, com o passar dos anos e de de alguns fatos políticos, (como a desvalorizacao do Real, o aumento do custo de vida e a perda de direitos com as reformas trabalhista e da previdência), mil e quinhentos reais não valham tanto quanto ela pensa.

 

 

Paulo César Ramos é doutorando em Sociologia pela USP, estudante visitante pela faculdade da Pennsylvania e coordenador do Projeto Reconexão Periferias da Fundação Perseu Abramo.


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