O policial não deseja matar
Terça-feira, 29 de outubro de 2019

O policial não deseja matar

Imagem: Fernando Frazão / Agência Brasil

 

Por Martel Alexandre del Colle

 

“Eu estou doente e cansado da guerra. Sua glória é toda ilusória. Somente consideram a guerra linda aqueles que não atiraram em alguém nem ouviram os gritos e gemidos dos feridos, somente esses clamam alto por sangue, por vingança, por desolação. A guerra é o inferno. “ – Willian Tecumesh Sherman militar que serviu durante a guerra civil americana.

 

 

Paulo Freire é um alvo constante de críticas, pois conseguiu perceber uma tendência da nossa sociedade moderna. Freire, em seus ensinamentos, não procura dizer quais conhecimentos uma pessoa deve adquirir. Ele sequer afirma que a educação liberta. O que o autor afirma é que a liberdade vem com o conhecer como conhecer.

 

Para Paulo Freire, só é livre aquele que tem autonomia para adquirir conhecimento, e não aquele que conhece. Se na época de Freire isso já fazia sentido, a nossa sociedade de mídias deixou isso cristalino.

 

Não temos dificuldade alguma para alcançar conhecimento, ele está em todo o lugar. Em todas as páginas da internet, ao apertarmos o botão de ligar da televisão. A nossa dificuldade é em aquilatar esse conhecimento. É em conhecer como conhecer.

 

Aquele que não é capaz de conhecer como conhecer acaba por não conseguir diferenciar uma verdade de uma mentira. Esse indivíduo não sabe investigar sobre as afirmações que recebe e por isso é escravo. Tal indivíduo é levado como um barco sem vela e sem leme. Dependendo de onde ele para, então aquela é a verdade para ele.

 

 

 

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O apelo ao científico acaba por se tornar uma verdade que ele não é capaz de investigar, o que leva esse indivíduo a não conseguir avaliar um trabalho científico, buscar sua metodologia. Isso desagua em um indivíduo que é escravo da construção: “uma pessoa fez um estudo que prova isso”. Sem conseguir conhecer como tal estudo foi “conhecido”, ele acaba por se tornar escravo deste argumento.

 

E essa escravidão tem dois lados. Por um lado, ele fica refém do argumento do estudo científico, e por outro, fica refém do argumento que estudos científicos não valem de nada, pois há estudos científicos para tudo. Como esse indivíduo não é capaz de avaliar os processos de conhecer, ele não é capaz de autonomizar-se. 

 

Daí a desconfiança com o aquecimento global, por exemplo, pois a diferença entre a afirmação e a negação de tal argumento depende da interpretação de um terceiro ou quarto. Tal indivíduo é incapaz de avaliar os argumentos por si mesmo. Por isso, sujeito às manipulações e à controles que sequer percebe.

 

Na mesma linha, o policial que não tem autonomia do seu conhecer acaba por absorver por completo uma verdade que lhe é imposta. Sem a capacidade de avaliar uma afirmação, ele acaba por absorver acriticamente tudo que lhe é ensinado. E se for ensinado a executar pessoas, então o fará.

 

É importante entender que a execução de pessoas pelas corporações policiais não é um simples ato, mas uma ideologia. Por isso aquele sem uma capacidade de avaliação epistemológica, acaba por justificar a execução e a tortura dentro de uma lógica distorcida. E como não tem autonomia no seu conhecer, é incapaz de criticar sua postura, seja para abandoná-la, seja para transcendê-la, seja para confirmá-la.

 

É sempre bom frisar que aqui estamos falando de execução de pessoas, e não de confronto armado. O confronto armado acontece quando há a ação de ao menos duas partes. O policial na situação de confronto não escolhe, mas é escolhido. Já na execução o lado policial escolhe sozinho realizar ação.

 

A legítima defesa é autorizada por lei. Todos nós temos o direito de nos defender legitimamente. Repare que tal defesa não é obrigatória. Eu, como cidadão, tenho a opção de me defender ou não. E isso é importante, pois existem grupos sociais que não desejam agir de maneira violenta mesmo que seja para se defender ou defender um terceiro. E o nosso ordenamento jurídico prevê tal situação.

 

Algumas pessoas por uma questão de ordem pessoal ou religiosa não desejam cometer sequer uma violência legitimada legalmente. Um exemplo muito fácil de encontrar são os cristãos. Um cristão não responde com violência mesmo quando essa violência seria legítima. Isso porque cristãos seguem os ensinamentos de Jesus Cristo. A construção de mundo de Jesus indica que a justiça pertence a Deus e que os seus seguidores devem confiar na justiça Deste. Portanto, o cristão ama o próximo como a si mesmo como uma forma de agradar a Deus. E não reage a nenhuma violência – se bater em uma face, então dê a outra – como forma de demonstrar sua confiança na justiça divina. E essa confiança é exemplificada na própria história de vida de Jesus. Que foi crucificado injustamente, mas não reagiu. Que viu outras injustiças a sua volta, mas nunca usou da violência contra outrem.

 

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A incapacidade de conhecer como conhecer leva ao reproduzir de ideias de maneira irrefletida. Quantos policiais dizem frases como “bandido bom é bandido morto”, mas jamais perceberam que essa frase fala diretamente de execuções. Quantos policiais defendem verbalmente a execução de pessoas, como forma de ter estima dentro do grupo, mas jamais executariam uma pessoa. Entretanto, essa atitude colabora com as ações do policial executor e do policial torturador.

 

Isso porque a atitude irrefletida de apoiar uma ideia acaba por gerar resultados reais. Mesmo policiais que não desejam matar acabam pressionados a aceitar tal atitude ou a calar-se. O que gera uma aparente homogeneidade da ideologia da execução. Aqueles que se rebelam contra tal sistema acabam com a marca de traidor. A confusão entre as terminologias de confronto e execução é proposital. Assim, o policial que é contra a execução acaba parecendo ser contra o confronto. E como essa conceituação, é acusado de desejar a morte de outros policiais. A limpeza social, que não é uma ideia da polícia, mas que usa esta como ferramenta, é executada, então, acriticamente. O bandido que é bom morto tem características específicas e mora em bairros específicos. A máquina continua a funcionar e se auto justificar.

 

E por isso Paulo Freire é tão temido por aqueles que se aproveitam da pós-verdade como forma de ascensão e controle. Nossa nação vive uma cegueira causada por luz demais, informação demais que não consegue ser filtrada. O que leva aqueles que não tem autonomia do conhecer a procurar verdades que não se aproximam do cognoscível. Daí a busca por uma ontologia transcendental que é aprendida pelo cognoscível para ignorar o cognoscível e construir uma suposta epistemologia fixa e a priori. A verdade se torna um buffet livre. Eu escolho a verdade e a mentira que mais me agrada. A ideia de Paulo Freire nunca foi tão atual. Precisamos levar formas de conhecer como conhecer para que as pessoas se autonomizem e transcendam sua epistemologia, e sejam capazes de aproximar seu cognoscível de conceitos mais funcionais – capazes de maior ou alguma reprodutibilidade dentro do cognoscível – e que gerem mais felicidade. Mais do que existir, viver.

 

 

Martel Alexandre del Colle tem 28 anos e é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná


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