Eleições no Uruguai: os dois grandes ganhadores foram dois perdedores
Quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Eleições no Uruguai: os dois grandes ganhadores foram dois perdedores

Imagem: Mariana Greif / Reuters / Direitos Reservados

 

Por Andrés del Río e Mauricio Vazquez

 

As eleições do último domingo, 27, tiveram o patido Frente Ampla (FA) como líder da votação arranhando o teto com 39.17%, 939.363 votos.

 

 

Em segundo lugar ficou o Partido Nacional, com a liderança de Luis Lacalle Pou (filho do ex presidente Luis Lacalle), com 28.58%, 685.595 votos. Em terceiro, com a liderança do economista Ernesto Talvi, o Partido Colorado obteve 12.32%, 295.500 votos. Finalmente, o ex Comandante do Exército, Manini Rios, do partido Cabildo Aberto, alcançou os 10.88%, 260.959 votos. 

 

Assim, as eleições terminaram de definir o que já se prognosticava: o segundo turno será entre o Daniel Martínez da FA e o Luís Lacalle Pou do Partido Nacional, no final de novembro. 

 

O parlamento já sinalizou os desafios futuros: um parlamento fragmentado, sem maiorias, e o ingresso de um partido de extrema direita. Com as eleições, no Senado, o Frente Ampla terá 13 bancas, o Partido Nacional 10 bancas, o Partido Colorado quatro bancas e Cabildo Aberto três bancas. Na Câmara de Deputados, Frente Ampla, 42 legisladores; o Partido Nacional, 30 deputados; o Partido Colorado, 13 bancas; e o Cabildo Aberto, 11 bancas. Em relação ao último pleito, a Frente Ampla, perdeu dois senadores e 8 deputados, um sinal do processo. 

 

Os perdedores são os ganhadores

Dois eventos foram fundamentais nas ultimas eleições no Uruguai. Em primeiro lugar, quem teve mais voto foi o plebiscito “Viver sem Medo”, uma proposta de reforma constitucional sobre o tema da segurança pública, impulsionada pelo Senador Blanco Jorge Larrañaga, que alcançou 46.09%, 1.120.780 votos de aprovação da população. Mesmo assim, não superou o exigido pela lei, 50% + um. Um dado simbólico: ganhou a reforma em 14 dos 19 departamentos do Uruguai, ainda que a densidade populacional na sua maioria esteja nos departamentos onde ganhou o “não”. Assim, a reforma pela segurança pública foi a estrela. Por uma parte pela quantidade de votos que coletou. Em segundo, porque a direita e os partidos conservadores conseguiram tornar a típica pauta conservadora o tema central da disputa eleitoral. Neste sentido, essa pauta é pilar dos partidos conservadores e das pautas do oficialismo, de centro esquerda. Aqui reside uma parte da derrota do oficialismo, não ter conseguido colocar sua pauta como a principal das eleições. 

 

Em segundo lugar, o grande vencedor foi o quarto colocado na votação, Manini Rios, ex comandante do Exército e líder do Cabildo Aberto, ou melhor, Cabildo recém-aberto (tem menos de um ano de existência). O ex comandante, de discurso semelhante ao de Jair Bolsonaro, superou os 10% na votação. Assim, conseguiu 3 senadores e 10 legisladores. Parece pouco, mas num parlamento que ficou fragmentado, e que ninguém tem maioria, a bancada de Cabildo aberto pode ser decisiva em diversos temas de relevância. 

 

Esses dois eventos podem ilustrar a dificuldade que Frente Ampla tem pela frente no segundo turno. A pauta central do debate nacional é parte de um plesbicito, foi coluna vertebral dos partidos conservadores, e de toda a região. Em segundo, simultaneamente, esse debate ascendeu setores das margens, que pregam pelas políticas de mão dura, tornando um partido de extrema direta a quarta força nacional. Parte do mesmo dilema, o cenário uruguaio está virado para a direita. E é aí que vai se localizar a disputa do segundo turno. Claro, salvo que Martinez e companhia consigam ressignificar e repautar o debate central do segundo turno. Argumentos não faltam. É só olhar seus vizinhos, e como as democracias estão sendo incendiadas pelo neoliberalismo autoritário. A mesma linha econômica da oposição ao Frente Ampla. Mas também não temos que subestimar a importância das pautas conservadoras: Cabildo aberto foi se reposicionando com um discurso semelhante ao de Jair Bolsonaro (presidente do Brasil), canalizando um eleitorado que ficou órfão. A pauta da segurança pública e participação dos militares nela são disputas existente em todos os países de América do Sul. Até no México um partido de esquerda criou a guardia nacional, com DNA militar. 

 

Neste sentido, ante os eventos na região, analistas falam do fim do neoliberalismo. Mas mais que o fim do neoliberalismo, existem reações a seu avanço selvagem e destruidor. 

 

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Somar para ganhar 

A estratégia para Frente Ampla em face ao segundo turno tornou-se mais complexa com uma votação abaixo do necessário para chegar menos comprometida para disputa final. Tanto que, nos últimos tempos, as declarações públicas de Martínez apelaram à busca de um terreno comum com o programa do candidato do Partido Colorado, tornando evidente a necessidade de buscar votos nesse setor da oposição, com um perfil mais progressista. 

 

Mas quando se trata de uma aliança com Talvi, é evidente que Martínez já tinha uma idéia clara do que estava por vir.  Tanto que, no dia seguinte à eleição, já havia confirmação do apoio à candidatura de Lacalle Pou pelo Partido Colorado e pelo Partido Cabildo Aberto. Além disso, o Partido de la Gente (1,08%) e o Partido Independiente (1%) já confirmaram o seu apoio à coligação da oposição. Para o segundo turno, cada voto soma.

 

Assim, os números fecham para alcançar a presidência por parte do Partido Nacional. Mas existem vários rodapés que devem ser destacados. Em primeiro lugar, qual é a fidelidade dos diferentes partidos para seguir a preferência do Partido Nacional? Em segundo, não todos os eleitores vão votar numa coalizão que incorpore a extrema direta, ou seja, o Cabildo Aberto. Em terceiro, um mês em política é uma eternidade, e os eventos políticos da região podem ser incorporados no debate atual. Neste sentido, Frente Ampla pode reposicionar as pautas. Finalmente, o maior desafio: como reposicionar-se para cooptar o centro sem desconfigurar-se da esquerda, por parte da Frente Ampla. Como lidar com um debate que tem como campo fértil pautas típicas dos partidos conservadores? 

 

Para complexificar a contenda, em declaração recente, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, disse em entrevista ao jornal Estadão que esperava que ganhasse Lacalle Pou, porque está “mais alinhado” com seus pensamentos liberais e econômicos. Tendo em consideração a recente experiência argentina, o apoio de Bolsonaro gera mais rejeição do que apoio.

 

Numa reação rápida, para tentar conter as águas menos relacionadas com a extrema direita, as declarações foram rejeitadas por setores da coalizão de oposição. O próprio Lacalle Pou disse à imprensa: “Parece-me que não é bom que os diferentes políticos e, neste caso, os diferentes governadores tenham uma influência, opinem, sobre o que poderia acontecer em outro país¹”. Tanto assim que, quando entrevistado em um programa jornalístico, o próprio Manini Ríos chamou “imprudente” essas declarações do presidente brasileiro. Mas também, na mesma entrevista, afirmou que era “senso comum” apoiar o candidato nacionalista já que, do outro lado, só “atiravam pedras” contra o presidente brasileiro. 

 

É notório que o partido que mais diminuiu nas votações e, portanto, na conformação do Parlamento, foi Frente Ampla. Os números dos partidos Nacional e Colorado têm sido bastante próximos aos das eleições de 2014. Por outro lado, o crescimento do Cabildo Abierto foi notório.  Em menos de um ano conseguiu capitalizar quase 11% do eleitorado. Mas este revés eleitoral pode ser explicado com vários argumentos: os órfãos do sector militar que encontraram refúgio; a chegada a 1,3% do PERI mais os votos da esquerda radical (propostas que não chegaram ao Parlamento), não atingem cerca de 2% dos votos. Quão significativa foi a migração de votos da Frente Ampla para o Cabildo Abierto? Se é maciço, como se explica que os eleitores da coligação progressista tenham sido agora seduzidos por uma proposta conservadora de extrema direita?. Qual será o horizonte da luta pela memória, verdade e justiça?

 

As transferências partidárias num segundo turno não são automáticas. No Uruguai, perder quase 10% dos votos levou 15 anos.  A retomada por parte da FA em um mês parece difícil, se não quase improvável. 

 

Uruguai está no centro da disputa do Cone Sul, e existem dois grandes grupos que todos estão apoiando, oficialismo ou oposição. Depois da eleição na Bolívia e Argentina, partidos progressistas continuam ou voltaram ao poder. No Chile, Equador e Peru, o mal-estar da população, colocou em jogo os governos com pautas neoliberais. Finalmente, o Brasil, como vimos, apoiará a oposição. A região está reconfigurando-se, e o jogo doméstico confunde-se com o jogo internacional. Que processo de integração se fortalecerá: Unasul ou Prosul?. Neste contexto, navegando a instabilidade política, social y económica regional, Uruguai vai decidir seu horizonte e influenciar por fora de suas fronteiras.  

 

 

Andrés del Río é Doutor em Ciência Políticas IESP-UERJ e professor UFF.

 

Mauricio Vazquez é Consultor uruguaio de direitos humanos, mestrando em Estudos Latino-Americanos na Universidade da República (UDELAR) no Uruguai.


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Notas:

[1] https://bit.ly/34fOZQI

Quinta-feira, 31 de outubro de 2019
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