Luciano Huck, de apresentador a cientista político
Sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Luciano Huck, de apresentador a cientista político

Imagem: Bruno Poletti / Folhapress

 

Por Vinicius Viana Gonçalves e Rossely Rodrigues Pereira

 

O presente artigo trata da reflexão, da conjuntura político-social do Brasil, e da ascensão de figuras que se vendem como outsiders, com um raso conhecimento político, mas que em um período de pós-verdade se tornam formadores de opiniões tentando se vender como alternativas viáveis para o país. 

 

 

O outsider, nada outsider.

 

O Brasil já há algum tempo parece um filme de horror tragicômico. Nosso atual cenário parece ter sido escrito por algum personagem icônico como Zé do Caixão, H.P Lovecraft ou Stephen King tamanha as surpreendentes revelações e envolvimento de figuras políticas com situações surreais, que acabou culminando na eleição do pior Presidente da história recente do Brasil. 

 

Entre inúmeros problemas sociais agravados neste período, além do assassinato de Marielle Franco, que mesmo com pressão internacional segue sem resposta, neste turbilhão que se transformou a Terra Brasílis, eis que surge uma figura que sempre esteve nos holofotes. Figura esta que adentra o certame da política como uma possível candidato as eleições de 2022, mascarado do já conhecido (e desgastado) argumento de outsider e alternativa à velha política, o apresentador Luciano Huck.

 

Luciano Huck, nasceu em São Paulo, no ano de 1971. Filho de um Jurista e uma Urbanista, em 1996 estreava para o grande público Brasileiro em um programa de auditório na Rede Bandeirantes chamado Programa H, voltado para o público jovem. 

 

O programa que expressava aquilo que tinha de mais corriqueiro e muitas vezes achamboado nos anos 90, acabou fazendo muito sucesso e com isso, alavancou a carreira de Huck, que em 1999 assinou contrato com a Rede Globo, emissora de TV, comandando o programa Caldeirão do Huck.

 

Atração que mesmo nos dias de hoje, segue a velha lógica midiática, uma espécie de “benevolência” de gosto bem duvidoso recheada de patrocinadores que vinculam suas respectivas marcas, em uma ciranda onde quase que, em regra, os mais simples populares precisam passar por alguma situação idiota para “ganhar” a benignidade ou a realização. Algo muito parecido com o “Freak Show” das antigas caravanas que circulavam os Estados Unidos no Século XIX.

 

Com o passar do tempo, e com a popularidade do seu programa de entretenimento e assistencialismo, fez Huck entrar em uma egotrip constante, e pensar em voos mais altos, como se tornar o Presidente da República Brasileira. 

 

Em 2017, editoriais de principais jornais do país davam como certa a candidatura do apresentador. Já nas eleições de 2018, enquanto o país amargava as sequelas de um golpe político profundo em 2016, e o crescimento constante do neofascismo fomentado pela extrema-direita, Huck de maneira comedida, tentava criar nos bastidores uma possível ponte para sua candidatura, ainda que o mesmo negasse tal possibilidade, seu nome já estava no certame como alternativa desde o ano anterior[1].

 

Luciano Huck, mesmo nunca tendo disputado qualquer cargo público, foi o grande responsável por expor na vitrine política brasileira, a figura do Economista, oriundo da Escola de Chicago e Ministro do Governo Bolsonaro Paulo Guedes e anterior a isso, foi também visto, de maneira mais comedida em 2014 ao lado do então candidato Aécio Neves, durante a apuração do pleito presidencial. Desde então, o apresentador seguidamente se manifesta com posições políticas, inclusive ganhando apoio de figuras como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, porém, mesmo com tal aval, o apresentador acabou desistindo, ao menos naquele momento, de sua candidatura[2].

 

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Isso aparentemente não mudou as pretensões do apresentador, visto que até mesmo Rodrigo Maia, atual presidente da Câmara Federal já se manifestou algumas vezes com palavras de apoio, inclusive mirando ser vice presidente em uma possível chapa para o próximo pleito[3].

 

Huck não é a “nova política”, não é um ponto fora da curva numa mudança por novos líderes populares, ele é apenas um exemplo dos mesmos setores da elite de sempre, que tenta se vender como novidade, mas segue a cartilha, ora um pouco mais moderado em suas posições, ora mais aberto ao enfadonho neoliberalismo, nada diferente dos membros oriundos da alta casta da qual faz parte, mesmo alegando que não se trata de um projeto pessoal ou de poder[4], algo que está tão na cara, quanto a incapacidade de Bolsonaro em ser presidente. O posicionamento político de Huck, apenas tenta parecer mais equilibrado, em um período onde a extrema direita governa no limite do ódio, algo como “caramelizar um projétil”.

 

O apresentador já se manifestou favorável ás mudanças estruturais pro-privatizações e uma agenda liberal, mesmo que tente usar uma linguagem típica de alguém que sente aparentemente um pouco de vergonha em expor sua verdadeira credulidade política, com o discurso tipo: “nem direita, nem esquerda, para frente”[5].

 

A trajetória do apresentador, em nada se difere do já tradicional “cidadão de bem” brasileiro, que adora a bravata do “Estado Brasileiro está inchado”, mas que não perde a oportunidade quando um banco Estatal, oferece juros baixos para comprar algo, tipo um jatinho[6]

 

Ou mesmo, confundir que uma área pública pode ser privada, afinal de contas, quem não gostaria de ter uma praia como quintal particular de sua residência?[7]

 

Por fim, em matéria vinculada na revista Exame, o comunicador diz: ““O marxismo não deu certo e liberalismo puro, também não”. Além de apresentador, Político Outsider, agora temos Luciano Huck, o cientista político, com suas análises de temas tão complexos e que ainda são mote para inúmeros pesquisadores até os dias de hoje resumidos em mais uma frase da nova mania brasileira, o reducionismo. 

 

Em outro momento, Luciano Huck diz que: “Conjuntura geopolítica do mundo me colocou no debate político”. Prefiro acreditar que isso é apenas o resultado do nosso esforço de chegar com vontade na estratosfera, porque o fundo do poço, já passamos há tempos.[8]

 

 

Vinicius Viana Gonçalves é Cientista Político, Sociólogo e pós-graduando em Educação e Direitos Humanos. E-mail:

Rossely Rodrigues Pereira é Graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande.


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Notas:

[1] Huck, é para valer. Estadão. 19 de novembro. 2017. < https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,huck-e-para-valer,70002089537> Acesso em 30/10/2019.

[2] Luciano Huck desiste de ser candidato à Presidência. 15 de fevereiro. 2018. < https://noticias.r7.com/brasil/luciano-huck-desiste-de-ser-candidato-a-presidencia-15022018 > Acesso em 30/10/2019.

[3] Rodrigo Maia mira vaga de vice na chapa de Luciano Huck à Presidência. O Tempo. 17 de outubro.2019. < https://www.otempo.com.br/politica/minas-na-esplanada/subscription-required-7.5927739?aId=1.2250028> Acesso em 30/10/2019.

[4] Não é um projeto pessoal, nem de poder”. UOL. 30 de outubro. 2019. < https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/10/30/nao-e-um-projeto-pessoal-nem-de-poder-diz-huck-sobre-entrar-na-politica.htm> Acesso em 30/10/2019.

[5] Projeto econômico de Luciano Huck agrada ao DEM, diz Rodrigo Maia. Poder360. 14 de outubro.2019. < https://www.poder360.com.br/congresso/projeto-economico-de-luciano-huck-agrada-ao-dem-diz-rodrigo-maia/ > Acesso em 30/10/2019.

[6] Huck usou empréstimo de R$ 17,7 mi do BNDES para comprar jatinho. Folha de SP. 11 de fevereiro. 2018. < https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/02/huck-usou-emprestimo-de-r-177-mi-do-bndes-para-comprar-jatinho.shtml> Acesso em 30/10/2019.

[7] Luciano Huck perde briga para proibir acesso público a praia ‘particular’. RBA. 19 de fevereiro. 2017. < https://www.redebrasilatual.com.br/blogs/2017/02/luciano-huck-perde-briga-na-justica-por-restringir-acesso-a-sua-praia-particular/> Acesso em 30/10/2019.

[8]  “Conjuntura geopolítica do mundo me colocou no debate político”, diz Luciano Huck”. 30 de outubro. 2019. Valor investe. < https://valorinveste.globo.com/mercados/brasil-e-politica/noticia/2019/10/30/conjuntura-geopolitica-do-mundo-me-colocou-no-debate-politico-diz-luciano-huck.ghtml> Acesso em 30/10/2019.

Sexta-feira, 1 de novembro de 2019
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