A Era da Informação e os equívocos do otimismo exagerado
Segunda-feira, 4 de novembro de 2019

A Era da Informação e os equívocos do otimismo exagerado

Imagem: Rovena Rosa / Agência Brasil

 

Por Vinicius Aleixo Gerbasi

 

Normalizou-se em nosso país uma situação social em que há grande número de desempregados e trabalhadores informais. Sabe-se que os trabalhadores informais ou terceirizados ganham menos e possuem menores direitos.

 

 

A inserção de grande parcela da população no sistema econômico (ou a não inserção dela) não pode ser tratada como sendo de responsabilidade exclusiva de ideologias políticas e governos específicos, embora os mesmos possam utilizar mecanismos diversificados para tratar do problema. Isso abrange questões político-econômicas que refletem no consumo, na produção, no trabalho e distribuição da riqueza. Os países sofrem de maneira muito diferente os efeitos disruptivos da tecnologia na economia do século XXI, a depender de seu tecido industrial, de seus recursos estratégicos e tecnológicos e de sua inserção no contexto da economia global. 

 

Marx descreve as pessoas que estão à margem da economia como “Lupemproletariado” – Lump em alemão quer dizer trapo, farrapo – ou seja, classe de subproletariados e subutilizadas as quais estão abaixo dos trabalhadores e que formam o que ele chamava de exército industrial de reserva, cuja função, identificou ele, é forçar os salários dos trabalhadores para baixo: se você não quer o emprego tem quem queira, é pegar ou largar! A análise é do século XIX, mas nos comunica algo similar frente aos desafios e problemas estruturais da economia digital: o de inserção das amplas camadas excluídas do processo econômico. Com a queda elevada dos lucros das empresas ocorre um movimento em direção a sua recomposição em direção aos ganhos salariais, pois o custo do trabalho nos últimos anos teve aumento. Com a crise econômica fica caro pagar salários e o ônus da crise recai abruptamente sobre os mesmos. A crise econômica não se trata apenas de problema fiscal. É resultado da organização do sistema capitalista tal como estruturado nas últimas décadas baseado na competitividade, na substituição do trabalho pela automação nas indústrias e em mão de obra qualificada na ponta tecnológica do processo produtivo. Uma pesquisa feita pela McKinsey Global Institute aponta que 375 milhões de pessoas perderam seus atuais empregos que deixaram de existirem. Os argumentos apresentados pelos economistas de mercado tratam do desemprego em função da automação industrial, e não gostam muito de falar a respeito da concentração de renda, embora ela tenha aumentado nas últimas décadas, sendo ambos resultados da desigualdade proveniente dos ganhos de produtividade e da riqueza gerada entre de um lado o capital e de outro os trabalhadores. 

 

Nas novas relações de trabalho o celular se tornou meio de trabalho. Muitos trabalhadores têm de estarem ligados neles por tempo integral. Não quer dizer que o excedente do trabalho seja apropriado pelo trabalhador, mas sim pela empresa para qual ele trabalha, não incorre em socialização/repartição dos ganhos serão socializados entre trabalhadores. Também não quer dizer que as condições de trabalho se tornaram melhores, mas vemos o oposto com o surgimento do trabalho em tempo integral. Nas empresas de entrega sabe-se exatamente onde seus funcionários estão e, em tempo real, se as entregas foram feitas. Maior controle do trabalho. Os serviços baseados no uso de aplicativos conectam serviços com usuários finais. O Big Data como é chamado, conceito já consagrado na literatura empresarial consiste em informações que geram ganhos estratégicos às empresas (pois a totalidade das informações não é igualmente apropriada entre os agentes sociais). O celular também é ferramenta para nos informarmos de modo intuitivo (e perigoso). Selecionam as informações ao usuário. É raro encontrar pessoas que se informam por diversas fontes jornalísticas e que possuem consciência crítica para entender o que está em jogo. Isso num cenário onde se corre o risco de que informações pessoais, que já possuem mercado nebuloso e informal, possam se tornar mercadorias – com a privatização de bancos de dados públicos eletrônicos, como a Serpro e a Dataprev – acentuando a margem para qualquer manobra política. A regulação de proteção de dados ainda não consegue lidar com essas questões. A fraude na campanha eleitoral dos Estados Unidos envolvendo a empresa Cambridge Analytic indica os perigos e os desafios regulatórios envolvidos. 

 

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Em meio a um ambiente marcado pela crise mundial e sucessivos casos de sonegação fiscal surge a discussão sobre cobrança de impostos sobre líderes globais de tecnologia (Amazon, Apple, Google, Facebook). Países europeus como a França têm discutido aumentar a receita fiscal por meio de imposição de maiores taxas sobre serviços e produtos. Recentemente a Google vai pagar 1 bilhão de euros ao governo da França por causa de ação judicial movida contra a empresa por evasões fiscais. 

 

No entanto, as novas transformações tecnológicas tenderão a aprofundar ainda mais o desemprego e os baixos salários, ao mesmo tempo em que demandarão mão de obra qualificada e também inovações tecnológicas que poderão apresentar serviços e produtos, e que gerem empregos nas áreas industriais e de grande impacto em inovação. A exemplo, países como a China, que recentemente adquiriram o status de líder tecnológico, que investem pesado em Ciência e Tecnologia, faz-se importante entender que não há alternativa possível que não seja pela retomada de investimento público nessas áreas. Para diminuir a taxa de desocupação e os baixos salários é importante o investimento na qualificação profissional e na pesquisa científico-tecnológica através das universidades; aproximação entre universidade empresas, através de projetos de cooperação público-privado, capazes de transferir inovação tecnológica ao mercado; políticas sociais; e fomentos constantes à inovação e à tecnologia.  

 

A desigualdade de renda é velha amiga do Brasil. Estamos entre um dos países mais desiguais do mundo. Uma pesquisa do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) constatou que em 2017 10% da população com os maiores rendimentos continham 23,3% dos rendimentos do país e os 10% com os menores rendimentos detinham 0,7 destes rendimentos. Um dado que demonstra a realidade da extrema concentração de renda é o coeficiente de Gini, que aponta o rendimento da renda per capita de zero (igualdade) até um (desigualdade máxima), que foi de 0,549 em 2017.

 

Em um relatório da Unesco de 2000, optou-se por trocar o termo de Sociedade da Informação, que havia se consolidado na década de 80. Tal mudança não foi à toa. Era uma forma de chamar atenção aos impactos da digitalização das sociedades e da importância do conhecimento, do acesso à informação, da educação e da tecnologia para os novos tempos. Com a formação destes “ativos” culminaria um modelo social e econômico acentuando maiores prosperidades das riquezas produzidas. Essa projeção jamais se concretizou.    

 

Reproduz-se uma espetacularização por parte da grande mídia quanto aos reais desafios referentes às novas tecnologias, ao trabalho e ao modelo de desenvolvimento econômico. O espetáculo e a propaganda são os núcleos constitutivos da mídia em geral. A internet radicaliza o que Gui Debord dizia sobre a sociedade do espetáculo. Espaço do consumo, da espetacularização da política e do sofrimento, da alienação e da fetichização da mercadoria. O espetáculo consegue maiores audiências aglutinando uma massa de espectadores; corrobora para formar ideias e soluções simplistas sobre a realidade política. 

 

 

Vinicius Aleixo Gerbasi é doutorando em Ciências Sociais pela Unesp-Marília e mestre em Ciência da Informação pela Unesp-Marília.


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