Agora que você já viu o Coringa: Leia esta análise
Quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Agora que você já viu o Coringa: Leia esta análise

Imagem: Coringa / Divulgação – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Marcus C. R. Teshainer

 

Fui assistir ao filme Coringa (Joker) e tive a impressão de que é uma experiência para além do cinematográfico. Um certo silêncio no final da sessão, as mais diferentes expressões, e, chegando em casa, fazendo uma pesquisa na internet, os diversos textos criticando, analisando ou pensando sobre o filme confirmaram minha impressão. É um filme perturbador.

 

 

Agora eu vou me aventurar pelo caminho que tantos já fizeram, que é destilar a perturbação em palavras, talvez para elaborar, talvez para pensar, talvez para compartilhar com alguns um desconforto de quem não gostou do filme.

 

Discordo, de início, com os diversos artigos que, exaltados, dizem ser o melhor filme do ano, que faz pensar a sociedade atual, que é um exemplo do homem contemporâneo e da sua vida sem saídas. Talvez eu ainda tenha alguma esperança na política, e ache que a saída seja esta, quando feita com a palavra. Mas discordo também de um grupo que odiou o filme por ele incitar ao crime, por ser uma violência gratuita, ou por ser um perigo para a nossa frágil cidade contemporânea. Talvez o filme não tenha todo este poder, e talvez eu ainda acredite nos freios que o laço social possa promover.

 

Antes, uma ressalva, não quero fazer uma crítica aos aspectos técnicos ou estilístico do filme, menos ainda fazer uma resenha cinematográfica. Pretendo apenas expressar algumas reflexões que fiz a partir do repertório psicanalítico que possuo e das leituras que faço de Foucault e Agamben, o que, na verdade, mais me ajudam a refletir o mundo em que vivo do que dizer verdades sobre ele.

 

Coringa é uma personagem das histórias em quadrinhos que encena um dos vilões de Batman. Publicados pela DC Comics, H.Q. criada por Bill Finger e Bob Kane em maio de 1939 traz o herói como um detetive incógnito, que esconde a identidade de um magnata perturbado pelos seus fantasmas de infância, mora em uma caverna e sai mascarado como um homem morcego a combater o crime, com a conivência do comissário Gordon. Batman, como Sherlock Holmes, colabora com as investigações policiais, mas diferente dele, faz justiça com as próprias mãos, o que, paradoxalmente, o coloca ao lado do crime.

 

Pergunto: não seria possível, então, pensar o Coringa como um dos fantasmas do Batman? Assim como outros vilões, Pinguim, Charada, Mulher Gato, Hera Venenosa para lembrar de alguns.

 

Convido o leitor a ver as histórias do Batman de uma maneira integrada, sem vilões e heróis, ou melhor, a partir de um ponto de vista, o de Bruce Wayne em Gotham City.

 

É notório para quem acompanha Batman todos os traumas que perpassam a personalidade de Wayne e, inclusive, o motivam a ser o Cavaleiro das Trevas em sua luta implacável contra o crime.

 

Wayne é um magnata excêntrico, que prefere viver isolado, em Gotham City. Uma cidade degradada, tomada pela violência e pelo crime que lembra Nova York, ou Chicago nos seus piores aspectos.

 

E se Gotham fosse fruto da fantasia traumática de Wayne? Ou seja, ela é apenas um modo muito subjetivo de como ele enxerga o mundo pelas lentes de seu trauma. Um mundo com poucas saídas, onde ele tem de combater vilões bizarros que se colocam em um confronto psicológico como Batman.

 

Assim, se Gotham é fruto da imaginação de Wayne, seus vilões também o são e representam seus medos. 

 

Começo por Pinguim, o primeiro vilão de Batman, um sujeito milionário, perverso, inteligente, que tenta neutralizar Batman na sua luta contra o crime. Talvez não seja difícil associá-lo com um alter ego de Wayne, e o medo que ele representa seja que a motivação de Wayne é apenas uma vingança pessoal, o que não diferiria de qualquer outro criminoso.

 

Vamos pegar mais um vilão apenas a título de exemplo, o Charada. Um detetive, que como Batman, quer investigar os crimes ocorridos em Gotham, mas diferente dele, usa meios inescrupulosos para produzir suas provas, e busca lucrar com suas investigações, vendendo informações quando necessário. Alguém que não leva a ética de Batman a sério, mais ainda, goza dela. O que temos? Não pode ser o próprio Batman lutando contra um desejo de escapar da linha reta da lei e fazer por meios escusos o que vem tentando fazer por caminhos probos? Uma tentação para Batman.

 

Vamos agora, sem delongas, para Coringa, considerado por muitos críticos o vilão mais perigoso de Batman, enlouquecedor, e que tenta, com afinco, não matar Batman, como os outros, mas enlouquecê-lo. Um vilão que ri da cara de Batman, que é obcecado pela sua figura ao mesmo tempo que o despreza intensamente. Ele, representando o próprio medo de Wayne de se entregar a loucura que seus traumas o convidam a conhecer.

 

Assim, pensando desta forma, Coringa e Batman são duas faces de uma mesma moeda, representando o conflito interminável que se dá na cabeça de Wayne que não consegue ver beleza no mundo em que vive, que pode ser Nova York, Chicago, ou qualquer lugar do mundo, mas que para ele não importa onde esteja, será sempre Gotham City, a cidade violenta da fantasia de Wayne.

 

Então, depois deste longo preambulo, volto-me para o filme Coringa de Todd Phillips que se esforça de isolar este personagem Coringa da outra face da moeda, o próprio Batman.

 

Esta decisão não é sem consequências para o telespectador. Tudo o que aparece na agoniante loucura de Coringa, encontraria uma saída em Batman, representando os conflitos de Wayne. E como fica um Coringa sem Batman? Fica uma loucura sem redenção.

 

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Dar um psicodiagnóstico, ou fazer uma análise jurídica ao personagem me parece inútil, ou seria levar a sério demais um aspecto isolado da ficção que é maior que a personagem. Dizer que Coringa é psicótico, esquizofrênico, ou qualquer outro diagnóstico é inútil, pois não  enriquece a personagem, e vai contra a prática que nós, psicanalistas, pregoamos, de fazer um diagnóstico apenas depois de uma longa e demorada escuta, levando em conta inúmeros aspectos relacionais que se fazem presentes na transferência, e que coloca a obrigação de checarmos constantemente nossa hipótese diagnóstica. Não estamos com Coringa, nem Wayne, no nosso divã…

 

O que vemos no filme de Phillips é uma personagem sem saídas, buscando uma resposta que não chega, procurando uma ajuda que não encontra. Sua mãe, que ironicamente o chama de Happy (Feliz) sofre de uma tristeza alucinante, tristeza transmitida ao filho que busca suas origens numa fantasia materna que faria de Coringa o irmão mais velho e bastardo de Bruce Wayne.

 

Nada se confirma, Coringa é, então, sofrimento puro. Até o Estado o renega, na figura de uma assistente social, ou psicóloga, não sabemos, diz a ele que a sociedade não se preocupa com ele. Nem com ela, e este é o motivo para interromper um tratamento que talvez fosse a única saída.

 

Assim emerge a violência, Arthur (Coringa) ganha um revólver de um colega de trabalho, o palhaço sem graça agora tem uma arma, o que ele fará com ela? Vai se vingar deste mundo opressor que ri da cara dele pelos motivos errados, ou melhor, pelos motivos que o machucam, não pelas suas piadas.

 

Este mundo sem saídas é consequência de isolar a face de uma moeda do seu reverso, o Batman. A loucura não fica apenas pura, ela fica sedutora, alguém que sem freios algum vai a um programa de televisão e atira sem dó no apresentador. Quem já não saiu de uma discussão acirrada dizendo: “Eu tive vontade de matar fulano” – Porque falou, não matou, portanto, deu freio a sedução, mas Coringa apenas matou, não teve freios, pois não teve saída.

 

O que me causa estranhamento é algumas pessoas identificando o Coringa e Gotham com o nosso mundo fora da ficção. É verdade que nosso tempo pode ser sombrio para alguns, ou para muitos, mas parece que ainda encontramos saída na palavra, seja na piada, nas charges, nos memes, nos comentários de bar, seja no grito coletivo, na manifestação pública, na palavra de ordem. 

 

Para Coringa lhe falta a palavra, não aquela a ser dita, mas a ser ouvida. Posta a lhe fazer criativo, pois lhe falta o outro lado, o lado que busca a criatividade, que sonha e simboliza com o combate ao crime, o acolhimento do sofrimento, a significação do ato, que seria realizado pelo próprio Batman.

 

Lembrei-me de dois outros filmes que tratam de assuntos semelhantes, o primeiro, mais antigo, o inglês “Eu, Daniel Blake”, que retrata um senhor enredado nas malhas burocrática que o impede de tirar sua aposentadoria, e se revolta, mas não enlouquece. A saída de Daniel Blake se dá pela construção do laço, desde pedir ajuda, até encontrar lugares para colocar sua palavra de indignação e sofrimento.

 

Outro é o filme Austro-alemão que ainda está em cartaz “A Tabacaria” que conta a história de um menino de 17 anos o qual sua mãe manda para Viena para trabalhar em uma tabacaria de um conhecido.

 

Um menino assustado que teme as tempestades e desconhece o pai, vai sozinho para a capital de seu país viver nos fundos da loja de alguém que lhe é estranho no período da ascensão nazista e no início da perseguição aos judeus.

 

Neste cenário, o rapaz conhece os clientes da tabacaria, dentre eles, Freud, com quem estabelece uma amizade. Conhece também uma menina com quem se apaixona, e passa viver a sua procura.

 

Os desdobramentos não são os melhores. Em um mundo comandado pelo nazismo, ele vê seu amigo fugir para Londres, seu patrão e um de seus clientes serem mortos pela Gestapo, e sua amada estrangeira em Viena escolher oportunamente ficar com um oficial Nazista para talvez salvar sua própria pele.

 

E aí está uma das cenas mais belas do filme, quando o militar chega para abraçar a moça em que o rapaz conheceu o amor ela lhe diz: “é a vida!” e ele pergunta “que vida é essa?” E aí está uma das saídas do filme, pois então o rapaz dá um significado pessoal a pergunta que lançou a garota.

 

É exatamente a saída, nos dois filmes, que fazem o drama tão real, possível, e humano, e nesta possibilidade podemos sofrer com as personagens. As saídas se apresentam, pegar ou largar, há os que pegam, há os que não conseguem.

 

Mas Coringa é um filme totalitário, sem saídas, não dá espaço para interpretações, conduz o espectador a uma única direção, a violência do mundo e ela mesma como a única resposta possível em forma de revanche.

 

Aqui podemos recordar as análises filosóficas-políticas de Foucault e Agamben que nos ajudam a analisar estas situações. Um dos conceitos que eles desenvolvem é dispositivo, que são meios e discursos, cujo objetivo é dessubjetivar as pessoas tornando-as dóceis e uteis. Neste contexto, o nazismo é um dispositivo, enquanto meio discursivo que faz, por exemplo, a menina do filme renunciar ao seu desejo para abraçar uma vida que acredita ser mais segura.

 

Agamben radicaliza o conceito. Para ele tudo pode ser um dispositivo, desde os discursos, como é em Foucault, até o cigarro que se fuma ou o celular que te prende em ti mesmo, um processo de dessubjetiviação que tem objetivos políticos.

 

Assim, um filme pode ser um dispositivo, enquanto não te dá uma saída criativa para a crítica que tenta propor. Enquanto te obriga a pensar para uma única direção, ainda que de muitas formas. E este me parece o intuito de Coringa, convencer (e talvez aí esteja a maior força dele como dispositivo) o espectador de um mundo louco, arruinado e sem saída, marcado por uma violência inescapável.

 

 

Marcus C. R. Teshainer é psicanalista, mestre e doutor em sociologia pela PUC SP, autor dos livros “Psicanálise e Biopolítica – contribuições para a Ética e a política em Michel Foucault”, “Política e desumanização: aproximações entre Agamben e a Psicanálise”, “O Gesto sem fim -notas de um psicanalista lendo Agamben” e organizou o livro “Biopolítica ﹠ Psicanálise – vias de encontro.”


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