Sintomas mórbidos: a encruzilhada da esquerda brasileira
Segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Sintomas mórbidos: a encruzilhada da esquerda brasileira

Imagem: Reprodução / Tese Onze

 

Por Maciana Freitas e Souza

 

O livro Sintomas mórbidos: a encruzilhada da esquerda brasileira (Autonomia Literária, 2019) de Sabrina Fernandes apresenta uma análise sobre o desenvolvimento da esquerda no Brasil e os desafios atuais no campo político com a ascensão do fascismo na cena pública.  Sabrina é doutora em sociologia, professora, ativista e possui um canal voltado a produção de conhecimento progressista chamado Tese Onze.

 

 

A autora tem como método uma pesquisa bibliográfica na qual propõe uma reflexão com base na teoria crítica. Por isso, desenvolve seu trabalho tendo como referência autores marxistas, para apresentar ideias importantes sobre o contexto de crise democrática, marcado pelo avanço da extrema direita, além de chamar a atenção para que ações de resistência sejam construídas numa perspectiva de totalidade.

 

Na parte I crise de práxis, Fernandes (2019) traz reflexões sobre categorias teóricas essenciais como o conceito de práxis, o papel da esquerda orgânica e o que seria práxis radical e práxis revolucionária. Em todas as etapas, apresenta como ponto central a importância da consciência de classe para que esforços conjuntos sejam vistos pela classe trabalhadora na tentativa de realizar mudanças. Por isso assinala: 

 

A consciência de classe assegura que as pessoas mantenham sua agência em sua própria elaboração da história, em vez de seguir uma receita determinista dada por condições estruturais anteriores. É essa consciência que determina quanto os seres humanos podem fazer história modificando condições que foram dadas historicamente (Fernandes, 2019, n.p.) 

 

Essa construção determinista conduzida pelos aparelhos do Estado não implica somente na desigualdade de acesso da classe trabalhadora aos seus direitos, mas também no seu reconhecimento enquanto sujeitos políticos. Nesse contexto, o Estado capitalista reforça e amplia sua hegemonia ideológica. “Transforma a classe trabalhadora em uma “coisa” desprovida de potencialidade humana e nada mais que a mercadoria preciosa que vendem à classe capitalista com o único propósito de sustentar a acumulação”. (Fernandes, 2019, n.p.)

 

Nessa parte, apresenta um conjunto interessante de apontamentos sobre as jornadas de luta protagonizada pela juventude em Junho de 2013 nas principais cidades brasileiras bem como as contradições presentes nesse processo de mobilização.  Em síntese, a autora também apresenta que o Estado, conjuntamente com os grupos dominantes, após o golpe de Estado de 2016 que levou a destituição da presidenta Dilma Rousseff ampliou ainda mais os níveis de expropriação de direitos da população dificultando a estrutura organizativa da esquerda.  

Na Parte II — as esquerdas brasileiras, em resumo, Fernandes apresenta as organizações e setores da esquerda existentes na realidade brasileira, suas formas de atuação e experiência organizativa. Nesse momento da reflexão, apresenta como essencial o papel dos os movimentos sociais no campo organizativo da esquerda popular e anticapitalista. Desse modo, para a autora segue na estrutura social “um cenário de demanda autocrítica, reorganizadora e até mesmo refundadora para a esquerda moderada, enquanto a esquerda radical enxerga na fragilização da hegemonia petista no governo como uma brecha que desafia a hegemonia petista na esquerda”. (Fernandes, 2019, n.p.)

 

Na parte III Despolitização, Sabrina pontua que o Estado interfere em todas as dimensões da vida social e atua no sentido de administrar e incorporar as diversas demandas para atender os interesses das classes dominantes.  Nesse contexto menciona a produção do consenso entre as classes sociais durante os governos petistas. Desse modo, tanto a despolitização quanto a fragmentação da esquerda são processos que evidenciam a criação de ações conservadoras levadas a cabo em especial pelo Estado para responder os interesses que lhe sustentam.  

 

Na parte Parte IV— Luto e luta, a autora apresenta que os governos de esquerda após o período de redemocratização política por sua vez assumiram um papel dual no processo de reconhecimento da cidadania e dos direitos sociais. Tal tensão foi ampliada com as mudanças advindas das reformas neoliberais ao dar espaço a mecanismos conservadores e demandas imediatas.  Por isso assinala que independentemente do modelo político que tenhamos ou que venhamos a ter, é necessário que “não basta afirmar incessantemente que a esquerda está com os trabalhadores. É necessário dar sentido a essa afirmação com a presença, o contato, o diálogo, a compreensão e a solidariedade.” (Fernandes, 2019, n.p.).  

 

Portanto, em meio aos retrocessos em curso, a interpretação de Sabrina Fernandes apresenta-se como necessária para compreendermos a democracia liberal brasileira e que mais do que nunca são necessárias ações de resistência coletiva para confrontar o poder constituído, a fim de que mudanças substancias sejam vistas. 

 

 

Maciana Freitas e Souza é escritora e bacharela em Serviço social pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).


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