A democratização do cinema
Quinta-feira, 14 de novembro de 2019

A democratização do cinema

Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

 

Por Gabriel Vinicius de Souza

 

O acesso ao cinema no Brasil não é democratizado, mas sim selecionado, segregacionista e seletivo, tornando-se um privilégio da camada mais rica da sociedade nacional.

 

 

Esse problema se deve a diversos fatores, desde causas “naturais”, como o avanço da tecnologia, até omissões por parte do próprio Estado que, a cada dia, permite que o cinema se torne um artigo de luxo e não de entretenimento e cultura.

 

Na escola, nos contam que o Brasil é um país multicultural, o famoso Brasil de muitos “Brasis”. Então, se é verdade que nossa cultura foi constituída por diversos povos — indígenas, africanos e europeus —, possuindo, assim, uma rica diversidade cultural, também é verdade que a produção cultural no país é pujante, e não raro conquistamos prêmios internacionais no teatro e no cinema ao contar histórias – realidades – do nosso povo, de nossas raízes.

 

Entretanto, infelizmente, parte da população não consegue assistir a essas produções cinematográficas, pois o acesso à sétima arte não é democratizado, mas sim, seletivo. Tal fator se deve, principalmente, aos altos custos, aliados à pirataria e às novas plataformas de streaming, que distanciam o público da arte do cinema, perdendo-se, assim, o “sabor de saborear” uma pipoca diante uma grande produção. 

 

Nesse sentido, precisa haver mudanças a partir de medidas interventivas por parte dos órgãos responsáveis, a fim de que essa experiência estética e cognitiva seja usufruída universalmente. 

 

Historicamente, quando surgiu, na França de 1895, pelas mãos dos irmãos Lumière, o cinema assustou seus primeiros espectadores, que fugiram da sala com medo do trem — em movimento na tela — que vinha em direção ao público. Isto comprova o impacto de tal experiência estética, que ganhou o mundo rapidamente, transformando-se no produto cultural mais rentável e num dos principais entretenimentos da classe média brasileira. 

 

Todavia, embora muitas produções tenham um altíssimo preço de custo, o valor do ingresso, na maioria das vezes, é muito caro, o que afasta a população menos favorecida de usufruir dessa arte. Em verdade, é há uma dicotomia conceitual, quase que um paradigma, entre o produto a ser exibido no cinema e a média de pessoas que consome esse produto. Como dito anteriormente, a arte do nosso cinema está nas raízes de nossa cultura. 

 

Não precisamos de muitos esforços para nos lembrar de grandes produções cinematográficas brasileiras, não é mesmo? Macunaíma, Tropa de Elite, Cidade de Deus, Vidas Secas, Terra em Transe, Que horas ela volta?, Central do Brasil, Lavroura Arcaica, Carandiru etc. Todos esses filmes têm em comum um único paradigma: Os povos e histórias contadas nessas produções, não são os mesmos que podem usufruir do produto final.

 

Em verdade, a grande indústria conta histórias de povos e realidades de nosso Brasil, levando ao cinema a classe favorecida que, convenhamos, não está interessada em ouvir essas histórias, já que não fazem parte de sua realidade. Novamente: há democracia no cinema?

 

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 Um dos motivos para que isso aconteça é o fato dos cinemas estarem concentrados nos grandes centros urbanos — de acordo com o IBGE, apenas 11% das cidades brasileiras possuem salas de cinema — e, geralmente, em shoppings centers, o que, natural e infelizmente, já segrega parte da população. 

 

Outrossim, nas últimas décadas, o comércio ilegal — popularmente denominado “pirataria” —aumentou significativamente, tendo como marco o filme “Tropa de Elite”, cuja estreia foi prejudicada por um vazamento antecipado da película na venda paralela. 

 

Além disso, os serviços de streaming, como a Netflix, popularizaram-se no Brasil e no mundo, facilitando o acesso a produções de qualidade de forma mais barata e mais cômoda. Não estou criticando a existência desses serviços – sejamos francos, não é mesmo? – mas sim expondo mais um exemplo em que o Estado não acompanha o avanço tecnológico e os anseios da sociedade. Se a Netflix se tornou artigo de luxo para a classe alta, o cinema se tornou de quem ou para quem?

 

Avançando, as antigas locadoras de vídeos foram paulatinamente fechando suas portas, e as salas de cinema, esvaziando no mesmo ritmo. Percebe-se, então, com o avanço das tecnologias, que as novas gerações perderam o hábito de ir ao cinema, mesmo quando possuem capital para frequentá-lo. 

 

Tal dinâmica torna-se um problema na medida em que a fruição estética de tal experiência, conforme Eisenstein, não se limita apenas ao filme, pois abrange também a imagem e o som possíveis apenas nas salas destinadas a este fim. 

 

Portanto, é pujante a necessidade de revitalização do cinema brasileiro, tornando-se acessível, mais barato, e atingindo novos públicos, expandindo a quantia de salas ao redor do país, tornando-se vultoso o acesso pelos povos das localidades mais remotas. Não obstante, a Ancine deveria se articular no sentido de criar parcerias públicos-privadas com as escolas, levando mensalmente os estudantes ao cinema, com preços mais baratos para produções nacionais. 

 

Ainda no teor dos entes descentralizados, o MEC, em sua pauta escolar, deveria incluir o cinema como matéria de estudo – ainda que facultativa – no sentido de proporcionar conhecimento técnico e histórico aos alunos, valorando nossa cultura e não apenas lucrando, de forma demagoga, com ela.

 

Dessa forma, os jovens valorizarão a produção local e criarão um hábito desde cedo. Espera-se, assim, que, futuramente, o acesso ao cinema seja mais democrático e mais pessoas tenham acesso à sétima arte — e, consequentemente, mais conhecimento da diversidade cultural existente no Brasil.

 

 

Gabriel Vinicius de Souza é Graduando em Direito pela Universidade de Ribeirão Preto – UNAERP. Pesquisador científico credenciado pelo CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa). Orientador de iniciação científica pela Universidade de Ribeirão Preto. Escrevente Técnico Judiciário na 1ª Vara de Execuções Criminais e Tribunal do Júri. Colunista e articulista jurídico.


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