20 de novembro, povo negro nas ruas descolonizando histórias
Terça-feira, 19 de novembro de 2019

20 de novembro, povo negro nas ruas descolonizando histórias

Imagem: RENFA

 

[COLUNA] DISCURSOS NÃO PACIFICADOS, às terças

Por Ingrid Farias

 

No dia 20, em todo Brasil, organizações do movimento negro colocam nas ruas as Marchas da Consciência Negra.

 

 

A data 20 de novembro foi estabelecida pelo projeto-lei número 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003, referenciando o mesmo dia no ano de 1695, quando o líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, foi morto pelas forças coloniais. Zumbi junto a Dandara e tantas outras e outros representaram a luta do povo negro contra a escravidão. Os quilombos representavam uma resistência ao sistema escravista e também uma forma coletiva de manutenção da cultura africana no Brasil. Zumbi lutou até a morte por esta cultura e pela liberdade do povo preto! 

 

“Eu fui odiado, desprezado, detestado, não pela vizinha do outro lado da rua ou pelo meu primo por parte de mãe, mas por uma raça inteira. Eu competi contra algo irracional. Os psicanalistas dizem que nada é mais traumatizante para a criança do que estes encontros com o que é racional. Eu diria, pessoalmente, que para um homem cuja arma é a razão, não há nada mais neurótico do que o contato com o irracional” (Fanon, 1967, p. 118). 

 

A data também reflete a dura realidade das muitas negras e negros que precisamos lembrar, olhar para trás em nossa história e perceber que muitos dos nossos se foram, vítimas do projeto de necropolítica que escolhe quais corpos têm direito à vida, e quais mortes têm direito à comoção. A força colonial contra qual Zumbi e Dandara lutaram permanece viva, criando sistemas que visam ao controle e genocídio do povo negro, alimentados por uma sociedade que não se interessa em rever suas posturas racistas ou se desfazer dos privilégios sociais disponibilizados à branquitude. O fato é que a manutenção de uma lógica colonial para as estabelecer as relações sociais privilegia alguns grupos em detrimento da violação de direitos de outros, ditando quem tem direito de falar, quem tem direito de ser ouvida, quem tem direito de ascender socialmente, de produzir intelectualmente ou de viver. O racismo produz cotidianos cruéis para o povo negro, revelados através de dados, como no levantamento feito pelo Atlas da Violência de 2017, apontando que de cada 100 pessoas que sofrem homicídio no Brasil, 71 são negras. Isso corresponde a 78,9%. No sistema prisional, mais da metade das pessoas privadas de liberdade (61,6%) são pretos e pardos, de acordo com Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias. O atlas da desigualdade ainda revela que, apenas em 2089, daqui a pelo menos 72 anos, brancos e negros terão uma renda equivalente no Brasil. 

 

O projeto colonial permanece bem vivo, atacando de forma sistemática os avanços da luta antirracista pela garantia de direitos para população negra. Essa realidade é refletida nos contextos nacional e internacional com o crescimento de grupos ultraconservadores, pautados por ações de reprodução do racismo, etnocentrismo, fundamentalismo e neoliberalismo. São esses grupos que atacam direitos conquistados. Na maior parte das vezes essa ofensiva não tem uma justificativa racional, é apenas referenciada por uma lógica de hierarquia racial, defendendo uma supremacia branca e propagando ódio contra o “OUTRO”, sujeito conceito por Grada Quilomba como aquele que não pode falar por si, aquele que foi infantilizado, irracionalizado pelo “EU” branco, no caso o NEGRO, POBRE, INDÍGENA. 

 

“O medo branco de ouvir o que poderia ser revelado pelo sujeito Negro pode ser articulado com a noção de repressão de Sigmund Freud, uma vez que a “essência da repressão”, escreve ele: “encontra-se simplesmente em afastar algo e mantê-lo à distância do consciente”. (Freud 1923, p. 17). Este é aquele processo pelo qual as idéias desagradáveis – e verdades desagradáveis – tornam-se inconscientes, vão para fora da consciência devido à extrema ansiedade, culpa ou vergonha que causam… Uma vez confrontado com verdades desconfortáveis desta história muito suja (7), o sujeito branco comumente argumenta: “não saber…”, “não entender …”, “não se lembrar…”, “não acreditar…” ou “não estar convencido por…”. Estas são expressões desse processo de repressão, no qual o sujeito resiste tornando consciente a informação inconsciente, ou seja, alguém quer fazer o conhecido, desconhecido.” (Quilomba, 2018, pag41) 

 

A luta contra o racismo no Brasil precisa de aliados e aliadas que se posicionem contra esse sistema colonial racista, agindo ao lado das organizações negras contra essas as ofensivas. É necessário que o engajamento e ação antirracista sejam a prática do dia a dia. Não há mais tempo, é necessário marchar ao lado do povo negro, que ainda precisa reivindicar humanidade! Com a disposição de rever posturas e alterar realidades cristalizadas como sendo as únicas possíveis. 

 

A estética é política!

A estética é política!

 

Marchamos para descolonizar referências bibliográficas, olhares sobre a beleza negra, sobre nossa força, sobre o direito de viver e ter espaço social e político para ser. Com a construção de processos que garantam o lugar de protagonistas dos movimentos negros e indígenas na luta antirracista e da constituição de novos marcos civilizatórios para a sociedade. Mas também é preciso que essa ação coletiva dê possibilidade de realizar o debate de que o racismo não é um problema das pessoas negras, indígenas e de outros grupos sociais discriminados, mas sim de seus algozes, as pessoas brancas, que precisam assumir a responsabilidade, indo além da convocação, apoio e solidariedade, mas apontando a disposição para se desfazerem de seus privilégios. Para isso é necessário a criação de espaços para realizar conversas desconfortáveis, que desestabilizam e reinventam perspectivas, promovendo aprendizagens para descolonizar as relações raciais e assim poder repactuar novas bases para a confiança e alianças políticas, que resultem em ações transformadoras.

 

No nordeste, a Articulação Negra de Pernambuco convocou a Marcha da Consciência Negra com concentração no principal parque da cidade, conhecido como Parque Treze de Maio. O movimento chama atenção para a reivindicação feita pelo movimento negro, na década de 90 à Câmara Municipal do Recife, solicitando a alteração do nome do Parque para Vinte de Novembro. O projeto de lei foi apresentado na época por um vereador, mas não foi aceito pela Casa. Na época, o movimento, realizou uma ação simbólica e colocou uma placa no parque alterando seu nome. Essa placa foi retirada há muitos anos, e amanhã o movimento negro de Pernambuco retoma a história roubada e (re)batiza o parque como fizeram os que vieram antes de nós, para que a luta do movimento negro não seja invizibilizada ou esquecida para que os que virão depois de nós. Descolonizar imposições que nos violam, que violam nossa memória, essa é também a nossa luta, alterar referências para construção de narrativas históricas. 

 

O movimento negro espera que amanhã várias organizações e pessoas brancas estejam presentes nos atos organizados em todo Brasil, apoiando e possibilitando a construção de uma aliança de fato profunda contra o racismo, possibilitando descolonização dos lugares de fala e poder.

 

Ingrid Farias é ativista feminista negra. Membra da Articulação Negra de Pernambuco – ANEPE e da Rede Nacional Feministas Antiproibicionistas – RENFA.

 

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