A lógica de mercado na sua vida
Terça-feira, 19 de novembro de 2019

A lógica de mercado na sua vida

Imagem: Depositphotos

 

Por Martel Alexandre del Colle

 

A lógica de mercado é simples: cada um de nós está procurando o maior benefício próprio possível. Quando todos nós estamos procuramos o maior benefício individual – egoístico – possível, então alcançamos o maior benefício coletivo possível. Essa é a ação da mão invisível do mercado. 

 

 

Será que isso é verdade?

 

Vamos pensar em alguns cenários.

 

Você decide não comemorar seu aniversário no ano presente. Pela manhã, quando você abre a porta encontra uma caixa em sua porta. Há um bilhete em cima da caixa. Uma pessoa lhe presenteou, lembrou-se de você. Você fica feliz com o presente. No mês seguinte, suas redes sociais avisam que a pessoa que lhe presentou no seu aniversário fará aniversário no dia seguinte. Você então decide comprar um presente para àquela pessoa.

 

Espere um momento. Digamos que você ganhou um presente que custa cinquenta reais. Segundo a lógica do mercado, aquela relação era a situação mais vantajosa para você, até você decidir retribuir. Quando você retribuiu, acabou por diminuir suas receitas, ou até mesmo ficou no negativo, caso tenha se decidido por um presente mais caro do aquele que recebeu.

 

Pode-se dizer que a relação ainda é de vantagem, pois se você der um presente agora, então poderá ganhar outro no ano que vem. Porém, isto não é uma garantia. Não é “o mais vantajoso”. E a pessoa que lhe deu o presente? Qual a vantagem que ela terá financeiramente? Você não era obrigado a retribuir. Pela lógica do mercado, essa relação jamais deveria existir. Pela lógica de mercado, você deveria ligar para a pessoa que pretende presentear e avisar da sua intenção. Depois de avisar sobre sua intenção, deveria perguntar qual presente ganhará em troca. Se a troca fosse a mais vantajosa para você, então deveria presentear e receber o outro presente. Se fosse menos vantajosa, então você deveria cancelar a transação. Não é isso o que geralmente acontece. A lógica de mercado não faz sentido em todos os campos da vida. E a financeirização da vida tem consequências nefastas. Afinal, o que é mais vantajoso, dentro da lógica de mercado, que um roubo?

 

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Você trabalha durante o ano todo para comprar um veículo, um sujeito aponta uma arma em sua cabeça e leva o veículo embora. Ele conseguiu um valor altíssimo em segundos, enquanto você levou o ano todo. Ele está em muita vantagem diante da lógica de mercado. Talvez tentar financeirizar a vida não seja um bom negócio. Talvez essa ideia de ver economia em tudo esteja preparando o terreno de violência que você tanto odeia.

 

Não quero aqui abrir o leque de conclusões, deixo isso para a pessoa que lê. 

 

Só quero abrir mais uma trilha: homens matam mais do que mulheres. Homens morrem mais do que mulheres. Homem estupram mais do mulheres. Homens se matam mais do que mulheres. E talvez, assim como a financeirização da vida possa levar à violência cotidiana que nos assusta, o nosso jeito de colocar o homem na sociedade esteja os levando à morte. E talvez a salvação esteja justamente no feminismo. Na redução das obrigações de competição e violência entre homens. Talvez exista uma conexão entra machismo e violência que prejudique não só mulheres, mas os homens também.

 

É interessante perceber que algumas espécies são capazes de matar outras espécies, mas dificilmente fazem o mesmo com a própria espécie. Dizem que os dentes das piranhas são muito potentes, capazes de arrancar nacos de carne de um humano com facilidade. Elas também seriam capazes de arrancar esses nacos de outras piranhas, porém, quando piranhas brigam entre elas raramente usam os dentes umas contra as outras. Elas acabam por usar a caudas para atacar àquelas da mesma espécie. Por quê? Porque existem laços entre a espécie que superam o interesse, a individualidade, a vantagem individual, a agressão.

 

Nós também somos mais que indivíduos, somos um grupo. E talvez como grupo consigamos construir uma sociedade melhor do que se empurrarmos essa lógica mercantil mais para dentro de nossas relações.

 

 

Martel Alexandre del Colle tem 28 anos e é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná


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