Luta sem luto? Reflexões sobre melancolia, poder e política
Terça-feira, 19 de novembro de 2019

Luta sem luto? Reflexões sobre melancolia, poder e política

Imagem: Fernando Frazão / Agência Brasil

 

Por Jordi Othon Angelo

 

E agora, José? 

A festa acabou, 

a luz apagou,

o povo sumiu, 

a noite esfriou, 

e agora, José? 

e agora, você?

você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta?

e agora, José?

(…)

 (José, Carlos Drummond de Andrade)

 

 

Iniciei este texto com um trecho do clássico poema de Carlos Drummond de Andrade, porém sem a pretensão de fazer nenhuma análise detalhada dele, mas sim, com o intuito de olhar para José, que perdeu tudo – ou quase tudo –,  como uma provocação literária para se refletir sobre perdas e sobre as possíveis (inter)conexões entre melancolia[1], apatia, poder e mobilização. E agora, José? Para onde?

 

Vladmir Safatle (2017) afirma que o poder age em nós por meio da melancolia, seja nos sujeitando a alguém, seja nos paralisando. A melancolia, nesse sentido, garante que os cidadãos e as cidadãs se vejam sem perspectivas em relação à política, permanecendo resignados e paralisados diante dela; a melancolia também tolhe a criatividade da imaginação política e se constitui por meio do desencantamento e da negação do campo político. “Mas, a quem interessa a paralisia?”, perguntou Safatle.

 

Étienne de La Boétie (2006), em seu “Discurso da servidão voluntária” (Le discours de la servitude volontaire), já se questionava sobre essa força que paralisava milhões de pessoas e que as colocava voluntariamente em uma situação de submissão a um só, sob o jugo da servidão. Aqui vale apontar um trecho de seu ensaio: “Para que os homens, enquanto neles restar vestígios de humanidade, se deixem sujeitar é preciso uma dessas coisas: ou que eles sejam obrigados, ou que eles sejam abusados […]. Não se poderia imaginar até que ponto um povo tão submisso pela trapaça de um traidor se rebaixa, e em um tão profundo esquecimento de todos os seus direitos, que é quase impossível de revelar sua apatia para conquistar seus direitos, servindo tão bem e tão  voluntariamente, que se diria que eles não perderam somente sua liberdade, mas também sua própria servidão, para ficarem dormentes na mais embrutecedora escravidão […]. Assim, os homens que nascem sob o jugo, alimentados e educados na servidão sem olhar mais adiante, contentam-se em viver da forma como nasceram e não pensam que têm outros direitos, nem outros bens que não aqueles que eles encontraram quando nasceram […]” (LA BOÉTIE, 2006, p. 22-23, tradução nossa).

 

Essa força, para La Boétie, poderia, inicialmente, ser imposta por um processo violento, mas, depois, seria naturalizada e reproduzida, sem a necessidade de nenhuma coação, de modo que a obediência se tornaria voluntária. Em De la Boétie[2] – assim como em Safatle -, podemos concluir que é por meio da melancolia que se garante a sujeição dos cidadãos e cidadãs ao poder estatal, que, por sua vez, opera reificando as pessoas e tornando-as apáticas, resignadas, desengajadas politicamente, em duas palavras: servas voluntárias. A melancolia, nesse sentido, pode ser um instrumento muito eficaz não só para distanciar os cidadãos e as cidadãs dos espaços institucionais de tomada de decisão (poderes Legislativo, Executivo e Judiciário), mas também para afastá-los das preocupações com as estruturas sociais de reprodução de desigualdades que repercutem e afetam sua vida com o(s) outro(s).

 

Nesse sentido, há uma característica da melancolia que me parece bastante pertinente para a compreensão das relações entre apatia, militância e política: a ambivalência, que, segundo Judith Butler (2017), resulta da obsessão por objetos perdidos e da dificuldade de lidar com perdas; nela, o Eu é tanto objeto de amor quanto objeto de ódio. O sujeito se autodegrada, se autoculpabiliza, se autopune, se autoinflige, e não aciona nenhum juízo de censura quanto a isso, ou seja, publiciza e faz soar “seu” fracasso, “suas” fragilidades e “sua” derrota para quem quiser ouvir. Há um patente sentimento de revolta exteriorizado pelo Eu contra si mesmo.

 

A melancolia é, portanto, uma “rebelião que foi derrubada, esmagada” (BUTLER, 2017, p. 198). O melancólico transfere e canaliza para si toda a revolta[3] que tem contra algo ou alguém, o que lhe causa um sentimento ambíguo, ambivalente, por meio do qual ele se autoacusa e se autoviolenta, quando, na verdade, o destinatário da fúria e do ódio do Eu seria o objeto perdido. As fragilidades, a derrota e o fracasso esbravejados pelo Eu representam as fragilidades, a derrota e o fracasso daquilo que não se teve ou daquilo que se queria ter tido ou vivido, como um ideal político, um direito, um amor, ou a oportunidade de ter se revoltado, de ter falado, de ter chorado, de ter gritado quando poderia tê-lo feito.

 

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Douglas Crimp (2005), por sua vez, se debruça sobre as reações diante da perda, mais exatamente, o autor problematiza a (im)possível relação entre militância e luto[4]. Para ele, a militância negligencia a pulsão de morte, ou seja, oculta as dores, as angústias, os medos, as fraquezas, a ira e a tristeza dos atores dos movimentos sociais diante de suas perdas, de modo que são reconhecidos como objeto de enfrentamento apenas os problemas sociais para os quais são direcionadas a crítica e a atuação política desses movimentos, esquecendo que tais problemas afetam cada sujeito individualmente.

 

Aqui constatamos uma contradição: os movimentos sociais – que se insurgem contra a paralisia dos poderes públicos, contra a inexistência de políticas públicas e contra a apatia da sociedade diante das desigualdades e dos problemas sociais – também negam, em alguma medida, o luto (bem como os conflitos pessoais e as fraquezas) dos atores sociais que os sustentam e que lhes dão voz, acarretando o esquecimento do eu (com e minúsculo) diante do nós, e do indivíduo diante do coletivo; isto é, combate-se a “melancolia política” (leia-se, aqui, como desengajamento social e negação da política), mas se reforça, de algum modo, a melancolia nos próprios atores que compõem e dão vida aos movimentos sociais. Esta cena retrata o extremo oposto da ideologia moderna individualista, aquela em que o indivíduo “supera” o coletivo, em que a autonomia “vence” a solidariedade – mas, que, na realidade, produz indivíduos sufocados pela melancolia, em razão da inexistência de vínculos de pertencimento e de solidariedade.

 

Seja na prevalência do eu sobre o nós, seja na prevalência do nós sobre o eu, o resultado da negação das perdas pode gerar um sentimento de melancolia individual e social, em que não se consegue definir o que se perdeu, seja porque se negou, seja porque não se teve a oportunidade de ter vivido/tido aquilo, e, assim, toda a tristeza, a angústia, a ira e o ressentimento que foram sufocados ou negados concretizam-se, na verdade, no doloroso e ambivalente processo melancólico de articulação entre amor e ódio realizado pelo Eu, que atua na tentativa de lidar com perdas e frustrações.

 

Por essa razão, Crimp (2005) busca problematizar e desmontar as lógicas binárias e reducionistas, tanto as que associam o silêncio à morte quanto as que opõem e apartam luto e militância, e sugere que a militância contemple o luto dos sujeitos dos movimentos sociais, a fim de fortalecer, aprimorar e humanizar a luta por direitos. Nessa esteira, se vivido, o luto talvez possa se transformar em luta; se negado, talvez se transforme em apatia, em inação, em violência contra si mesmo e em dor.

 

Por fim, considero que o desafio sobre o qual precisamos refletir seja justamente o de como administrar – e não negar – a dor e o sofrimento diante das perdas e dos traumas (sociais[5] e individuais) e como, ao invés de transformá-los em melancolia e em paralisia (social e/ou individual), torná-los instrumento de engajamento político, de mobilização e de intervenção popular nos espaços públicos e na arena político-institucional, a fim de que se (re) construa um novo ideal, uma nova utopia, um novo caminho e – quiçá- uma [nova] democracia. 

 

E agora, José? Para onde?

 

 

Jordi Othon Angelo Mestrando em Direito pela Universidade de Brasília (UnB). Bacharel em Direito pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Pesquisador do Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (INCT-InEAC). Membro do Laborório de estudos da Cidadania, Adminitração de Conflitos e Justiça (CAJU/UnB). Advogado.

 


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Notas:

[1] Sem querer ser repetitivo – tendo em vista que diversos autores já se propuseram a compreender e a (re) pensar a melancolia -, gostaria de destacar que, segundo Sigmud Freud (1992), o luto seria a reação “normal” à perda de alguém amado; neste caso, se saberia exatamente o que se perdeu, se conheceria o motivo da dor, porque houve uma perda real. Nesse caso, como a perda seria real, o sujeito destinaria toda sua libido ao objeto perdido, a fim de que, ao final de seu trabalho de luto, ela (libido) se tornasse livre novamente e se dirijisse a outro objeto. Na melancolia, segundo Freud, num movimento narcisista, o indivíduo transformaria, inconscientemente, a dor da perda do objeto em uma autopunição, autodegradação, autoculpabilização, direcionando a libido para o próprio Eu. A perda, na melancolia, seria inconsciente, ou seja, seria a perda de algo que não se conheceria exatamente, ou, se se conhecesse, não se saberia exatamente o que se perdeu com aquilo ou naquilo. A melancolia seria uma derivação “patológica” do luto, que se originaria no inconsciente e que carregaria basicamente as mesmas características daquele, exceto a “perturbação no sentimento de autoestima”, que, por sua vez, seria a projeção no próprio indivíduo das frustrações e ressentimentos que ele teria em relação ao objeto perdido. Isto é, esses sentimentos exacerbadamente autopunitivos teriam muito mais a dizer sobre o objeto que sobre o sujeito que sofre a dor.

[2] Cumpre destacar que, para La Boétie, a forma de se desvencilhar do jugo é por meio da desobediência e da não sujeição a quem se está submetido.

[3] Tal revolta pode advir, por exemplo, de algum sentimento não exteriorizado em um momento oportuno e da censura/proibição de viver a perda/luto.

[4] Aqui reside a – sutil – diferença entre luto e melancolia, pois ambas são “formas de elaboração” (Safatle, 2017) diante da perda.

[5] Aqui, refiro-me, sobretudo, a períodos de ruptura democrática e de emergência de regimes políticos autoritários ou totalitários pelos quais algum país tenha passado.

 

Referências:

BUTLER, Judith. Começos psíquicos: melancolia, ambivalência, fúria. In: Idem. A vida psíquica do poder: teorias da sujeição. Belo Horizonte: Autêntica, p. 175-206, 2017.

CRIMP, Douglas. Duelo y militancia. In: Idem. Posiciones críticas: ensayos sobres las políticas de arte y la identidad. Madrid: Akal, p. 99-113, 2005.

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. Trad. Marilene Carone. Novos Estudos, n. 32, p. 128-142, 1992.

LA BOÉTIE, Étienne. Le discours de la servitude volontaire ou le contr’un. Saguenay: Les classiques des sciences sociales, 2006.

SAFATLE, Vladimir. Melancolia no poder. Café filosófico CPFL, vídeo, 44min, 2017.

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