A relevância da Consciência Negra
Quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A relevância da Consciência Negra

Imagem: Fernando Frazão / Agência Brasil

 

Por Ricardo Corrêa

 

“E as pessoas pensam quando você se ama, você odeia elas.  Não, quando eu me amo elas se tornam irrelevantes para mim.”  – Dr. John Henrik Clarke

 

 

Eis alguns pontos: a valorização da estética negra, cultura africana e afro-brasileira; discussão sobre o legado dos negros que lutaram para que pudéssemos usufruir de alguns direitos; elaboração de uma educação formal e informal que retrate a história dos nossos ancestrais e o valor do “ser negro”; avaliação das conquistas e derrotas desde a abolição da escravidão; construção de estratégias de superação do racismo que segue violentando os corpos e subjetividades, enclausurando os negros nas periferias e impingindo péssimas condições de sobrevivência.

 

O Dia Nacional da Consciência Negra e Zumbi dos Palmares é comemorado no dia 20 de novembro. Esse marco no calendário nacional foi conquistado pelas organizações, e movimentos sociais, mobilizados em torno da luta da população negra. A data é uma oposição a narrativa da classe dominante que valoriza o dia 13 de maio em função da abolição da escravidão que foi assinada pela Princesa Isabel. É importante ressaltarmos que essa narrativa objetiva demonstrar a suposta generosidade da princesa regente, mas na realidade esconde as lutas dos escravizados que foram fundamentais para a mudança do regime. Abdias do Nascimento (1914-2011), um dos principais nomes do movimento negro brasileiro, comentou que a narrativa sobre a abolição da escravidão é “parte do coro de autoelogio que a elite escravocrata fazia em louvor a si mesma no intuito de convencer a si mesma e à população negra desse esbulho conhecido como democracia racial¹.

 

Há tempos que os negros sofrem com o racismo no Brasil, portanto, a ampliação da pauta acerca da discriminação e preconceito racial é necessidade permanente. E, apesar das estatísticas estarrecedoras mostrarem a marginalização social, as medidas de combate ainda são insuficientes. Nesse sentido, a comemoração vem ao encontro com tamanha relevância por ser o momento que conseguirmos atrair maior atenção da sociedade, e assim, trazermos os conteúdos mencionados no início do texto para dentro das discussões.

 

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Steve Biko, líder estudantil e ativista anti-apartheid, foi o precursor do Movimento da Consciência Negra na África do Sul². Segundo Biko, a consciência negra é uma filosofia que deveria ser assumida como um modo de vida, carregando em sua essência “a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças com seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes que os prendem em uma servidão perpétua.” E ainda ressalta que o objetivo é “infundir na comunidade negra um novo orgulho de si mesma, de seus esforços, seus sistemas de valores, sua cultura, religião e maneira de ver a vida”. Nesse contexto, ao enxergarmos a história e qual o lugar que ocupamos no mundo, veremos que não temos controle sobre o sofrimento causado pelo racismo, e isto é um ponto que o racismo tem procurado incutir na cabeça dos vitimados. Portanto, a consciência negra permite que os negros tirem o fardo das costas e entendam que o homem branco na seara dos privilégios tem arrancado os nossos direitos. Ao apreendermos essa visão o combate ao racismo torna-se mais radical e eficiente.

 

Zumbi vive!

 

O legado de Zumbi dos Palmares, também, faz parte da comemoração, e a data escolhida refere-se ao dia em que foi assassinado a mando da coroa portuguesa, em 1695. As lutas que o guerreiro quilombola travou contra o sistema escravagista foram importantes para a abolição da escravidão. Sob sua liderança, os escravos escapavam das fazendas e refugiavam-se no Quilombo dos Palmares, situado na Serra da Barriga; naquela época, pertencente à Capitania de Pernambuco. Esse território quilombola resistiu por quase um século, e o modo de vida se caracterizava pela cooperação coletiva e resgate da cultura africana. A luta de Zumbi tornou-se inspiração para a população negra devido à coragem com que enfrentou o sistema escravagista.

 

Infelizmente estamos presenciando no Brasil a ruptura da democracia, o que tem colocado a população negra emaranhada em complexos obstáculos. Os direitos sociais estão sendo negligenciados e as condições mínimas de sobrevivência demandando de colossais esforços que nem sempre são alcançados. Essas questões provoca-nos a assumir uma tomada de consciência que não pode se encerrar no dia 20 de novembro, mas pertencer a uma práxis cotidiana, prevendo e combatendo o racismo. E como disse Steve Biko “A abordagem da Consciência Negra seria irrelevante numa sociedade igualitária, sem distinção de cor e sem exploração.”

 

 

Ricardo Corrêa é Professor e especialista em Educação Superior 


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Notas:

[1] Entrevista com Abdias do Nascimento Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/node/5078/>. Acesso: 13 nov. 2019

[2] Quem foi Steve Biko e como ele se tornou um ícone contra o apartheid. Disponível em: < https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/09/12/Quem-foi-Steve-Biko-e-como-ele-se-tornou-um-%C3%ADcone-contra-o-apartheid>. Acesso em: 13 nov. 2019

 

Referências:

BIKO, Steve.  Escrevo o que eu quero. São Paulo. São Paulo: Ed. Ática, 1990 

BRASIL. Lei 12.519 de 10 de novembro de 2011. Institui o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Disponível em: < ttp://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato201
1-2014/2011/Lei/L12519.htm. Acesso em: 10 nov. 2019.

SANTOS, Joel Rufino dos. Zumbi. São Paulo: Ed. Moderna, 1985

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