Muito a percorrer
Quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Muito a percorrer

Imagem: Marcello Casal Jr / Agência Brasil – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Tatiana Dias Silva

 

O IBGE acaba de publicar um estudo intitulado Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil.

 

 

Trata-se de mais uma contribuição deste Instituto à sua vasta e importante trajetória de pesquisas e estudos que têm apontado a magnitude das desigualdades raciais no Brasil. Oferece retrato impressionante das desiguais condições de vida que têm, nos diferenciais de cor ou raça, elemento central do tecido social nacional. Felizmente, este quadro tem apresentado alguns avanços e o ensino superior é um desses espaços. 

 

Se hoje festejamos que 50,3% dos estudantes do ensino superior público são pretos e pardos, aproximando-se da representação populacional deste segmento, estes avanços são tributários de lutas de muito tempo. Desde o início dos anos 2000, tensionado pela Conferência Internacional contra o racismo (Durban, África do Sul, 2001) e pela mobilização histórica do movimento negro, o Estado brasileiro passa a adotar medidas especiais de enfrentamento a essas desigualdades raciais. As universidades, de forma autônoma e com ampla repercussão, lideram essa vanguarda institucional. Uma década depois das primeiras ações afirmativas para ingresso de estudantes negros nas universidades, é aprovada a Lei de Cotas no Ensino Superior Federal (Lei n. 12.990/2012). Nossos passos vêm de longe.

 

A esses dados, restringindo-me ao ensino superior, gostaria de acrescentar algumas reflexões. Ao longo dos últimos anos, é possível verificar aumento das pessoas que se identificam como pretos ou pardos. Estudos mostram que essa variação não é explicada por variáveis como fecundidade nem restrita a faixas etárias específicas. Ao responder a pesquisas como as do IBGE, o indivíduo não tem nenhuma expectativa de benefício direto. Assim, este fenômeno parece guardar maior relação com o sentido de pertencimento, o desvelar do tabu racial e os movimentos de valorização da matriz negra.  Então, é de esperar que esse aumento de identificação racial também se reflita nos estudantes de ensino superior, ainda que, evidentemente, não responda por essa expressiva variação.

 

Um outro elemento de reflexão está dentro das instituições de ensino superior. Para que cursos estes estudantes são selecionados? As cotas são efetivamente preenchidas igualmente por curso ou turno, como disciplina a legislação? Estes estudantes conseguem concluir seus estudos? Essas são questões fundamentais tanto para se qualificar o debate em torno dessas informações, como para mapear possíveis lacunas em que se possa intervir para garantir melhores resultados na promoção da igualdade. Muitas dessas questões têm sido respondidas por pesquisadores e pesquisadoras nas universidades e centros de pesquisa, mas a tarefa é grande e extrapola os limites dos dados coletados pela PNAD. Para responder a essas questões, é preciso melhoria nos processos de coleta e transparência de dados, desagregados por cor ou raça, desvelando da invisibilidade estatística os meandros dos mecanismos de discriminação racial.

 

Considerando os dados da PNAD de 2018, entre as pessoas de 25 anos ou mais, com nível superior completo, apenas 33% são pretas ou pardas. Nessa faixa etária, a cada 100 negros, apenas 10 concluíram o ensino superior. A cada 100 pessoas brancas, 24 alcançaram essa etapa. Se estamos no caminho certo, muito ainda resta a percorrer.

 

 

Tatiana Dias Silva é doutora em Administração pela Universidade de Brasília


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