O exemplo do porquê ler autoras e autores negros
Quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O exemplo do porquê ler autoras e autores negros

Arte:  / Justificando

 

Por Veyzon Campos Muniz

 

A coluna de 09/11/2019 de Rodrigo Constantino no Jornal Zero Hora, intitulada “Autores negros: segregar com base na raça só alimenta o racismo”, uma espécie de contraponto a uma entrevista de Djamila Ribeiro no O Globo, publicada em 05/11/2019 , sobre o lançamento de seu importante livro “Pequeno Manual Antirracista” , suscita reflexões.

 

 

Aduz o articulista que autores devem ser lidos, não pelo fato de serem negros, e sim por serem “autores bons”. De pronto, questiona-se: quem é o “bom” autor? Seria aquele que apresenta argumentos que confirmam visões de mundo ou ideologias políticas?

 

Em Porto Alegre, quando se visita o Museu Júlio de Castilhos depara-se com o busto de uma personalidade histórica que pode auxiliar a responder tais questionamentos. Aurélio Viríssimo de Bittencourt, jaguarense radicado na capital do Rio Grande do Sul, viveu entre 1849 e 1919, tendo sido jornalista, escritor, funcionário público, cofundador da Sociedade Parthenon Litterario e dirigente do Jornal do Comércio.

 

Aurélio era um autor negro e sua obra influenciou positivamente na construção de pensamento de muitas pessoas, dentre elas seus filhos. Sérgio de Bittencourt e Aurélio Júnior, seguindo seus passos, articularam a publicação do periódico “O Exemplo”. O semanário pós-abolicionista deu voz a negras e negros gaúchos, sendo precursor na difusão de informações e produção de conhecimento de e para a negritude, mas também para leitores em geral. Tratava-se de um verdadeiro manifesto antirracista difundido semana a semana na imprensa do sul do país. 

 

O mérito individual foi determinante para as vitórias pessoais e profissionais de Aurélio, bem como seu legado transmitiu valores à sua prole e, de fato, impactou na realidade social. Contudo, defender genericamente a universalidade do predomínio daqueles que têm mais méritos, como faz a colunista branco e outros defensores da falaciosa meritocracia, em uma sociedade tão desigual quanto a nossa é ignorar sensivelmente o racismo como um problema estrutural.

 

Ler autores negros, como Aurélio Viríssimo de Bittencourt, e negras, como Djamila Ribeiro, é um exercício salutar para brancos e negros. É, de um lado, se opor aos estereótipos construídos historicamente que colocam as pessoas negras em posição de subalternidade, bestialidade e empobrecimento sociocultural e, de outro, abraçar a necessária pluralidade de ideias. Assim, pontua-se que a erradicação do racismo pode efetivamente começar com tal ação intelectual. Logo, não é segregar indicações literárias com base na raça que alimenta o racismo, e sim acreditar e defender publicamente que a leitura de autoras e autores negros representa hipótese (absurda) de discriminação e preconceito contra a literatura hegemônica branca perpetrados por um grupo étnico-racial historicamente vitimado por toda sorte de violência física, psicológica, econômica e cultural.

 

Nesse novembro, em que se reflete e comemora a Consciência Negra e que se realiza a Feira do Livro de Porto Alegre, por conseguinte, recomenda-se veementemente a leitura de bons autores. Ou seja, aqueles representativos da diversidade de gêneros, perspectivas e convicções, e, sobretudo, que sejam qualitativamente bons pelos valores e ideias que apresentam em narrativas comprometidas com o necessário combate a toda e qualquer forma de discriminação racial.

 

 

Veyzon Campos Muniz é doutorando e mestre em Direito


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