Gramsci e o “intelectual orgânico”
Sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Gramsci e o “intelectual orgânico”

Imagem: Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Sergio Baptista dos Santos

 

Este artigo pretende mostrar a importância do intelectual orgânico na teoria normativa do pensador italiano Antonio Gramsci (1891-1937).

 

 

Em uma sociedade de classes não existe, segundo Gramsci (1968), intelectuais completamente autônomos em relação à estrutura social. Na verdade, afirma Gramsci (1968), cada grupo social essencial, ou seja, aquele envolvido diretamente nas relações de produção hegemônica de uma etapa do desenvolvimento histórico real, cria para si uma ou mais camadas de intelectuais que lhes proporcionam homogeneidade e consciência de sua própria função, não apenas no campo político, mas no social e econômico. Esses intelectuais, que Gramsci (1968) denomina como “intelectuais orgânicos” porque têm uma ligação vital com a classe que lhe deu origem, são, na maioria das vezes, especialização de elementos parciais da atividade primeva do tipo novo que a nova classe consolidou.

 

Para Gramsci, todos os homens são intelectuais, entretanto, nem todos desempenham a função de intelectual. Ou seja, o que diferencia um intelectual de não intelectual é a variante relativa ao peso que a atividade braçal ou intelectual tem na vida de cada indivíduo. O desafio de se criar uma nova camada intelectual consiste em elaborar criticamente a atividade intelectual que existe em cada indivíduo em determinado grau de desenvolvimento histórico das forças produtivas para uma nova e integral concepção de mundo. O modo de agir desse novo intelectual não consiste na diletante eloquência dos afetos, mas em um envolvimento consequente na vida prática, numa relação orgânica com a classe que lhe deu origem, garantindo a essa um consenso social a respeito do seu domínio. O intelectual orgânico é um persuasor permanente.

 

A escola, segundo Gramsci, é o espaço para elaboração dos intelectuais de todos os níveis, Ela reflete o desenvolvimento histórico e cultural real de uma dada formação social. Pois “[…] quanto mais extensa for a ‘área’ escolar e quanto mais numerosa forem os graus verticais da escola, tão mais complexo será o mundo cultural, a civilização de um determinado Estado. (GRAMSCI, 1968, p. 9).

 

Gramsci (1968) observa que em nenhum momento do desenvolvimento histórico real foi elaborada uma quantidade tão grande de intelectuais como na moderna sociedade burguesa. Entretanto, para esse teórico marxista, a formação de uma massa de intelectuais não se justifica, apenas, pelas necessidades da produção econômica por meio de formação de técnicos, mas pelas necessidades políticas do grupo dominante. A relação dos intelectuais com o mundo da produção não é, como a dos grupos fundamentais, imediata. É mediatizada pelo conjunto das superestruturas das quais, o intelectual é funcionário

 

Segundo o arcabouço teórico de Gramsci (1968), a superestrutura é constituída por todos os aspectos da vida que não estão imediatamente ligados à reprodução material, às relações de produção econômica, à base estrutural da sociedade. Ela se divide em dois planos: […] o que pode ser chamado de sociedade civil (isto é, o conjunto de organismos chamados comumente de privados) e a sociedade política ou Estado

 

Tais planos correspondem respectivamente à função de hegemonia que o grupo dominante exerce em toda sociedade e do domínio direto. Ou seja, na sociedade civil a classe dominante exerce seu poder por meio do convencimento, do domínio indireto, já, na sociedade política, garante o seu domínio por meio da força física, do domínio direto. Para Gramsci (1968), o domínio de uma classe sobre outra se dá muito mais no plano da sociedade civil. Quando uma classe constrói sua hegemonia na sociedade civil, o Estado exerce, fundamentalmente, funções administrativas e diretivas para essa classe, funções coercitivas ocorrerão apenas quando houver crise na hegemonia social do grupo dominante.

 

As funções relativas ao domínio indireto e direto são exercidas pelos intelectuais orgânicos dos grupos dominantes. Os intelectuais revelam seus vínculos “orgânicos” com o mundo da produção ao exerceram funções de hegemonia social no governo político das classes dominantes na superestrutura. Ou seja, funções:

 

[…]1) do consenso ‘espontâneo’ dado pelas grandes massas da população à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante à vida social, consenso que nasce do prestígio (e, portanto, da confiança) que o grupo dominante obtém, por causa de sua posição e de sua função no mundo da produção; 2) do aparato de coerção estatal que assegura ‘legalmente’ a disciplina dos grupos que não consentem, nem ativa e nem passivamente, mas que é constituído por toda a sociedade, na previsão dos momentos de crise no comando e na direção, nos quais fracassa o consenso espontâneo

 

O corolário do pensamento de Gramsci (1968) é que os grupos subalternos só poderão alterar sua situação se criarem seus próprios intelectuais orgânicos. Esses, ao promoverem a homogeneidade e consciência às classes dominadas, possibilitam a construção de uma nova hegemonia na superestrutura (civil e político), e uma nova correlação de forças no plano estrutural, na base econômica da sociedade.  Tais transformações na sociedade capitalista correspondem à emancipação das classes trabalhadoras, o operariado, do julgo da burguesia.

 

 

Sergio Baptista dos Santos é Doutor em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). 


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Notas:

[1] GRAMSCI, Antonio. Intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968., 1968, p. 9.

[2] Id. ibid. p. 9.

[3]  Id. ibid. p. 9

Sexta-feira, 22 de novembro de 2019
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