Por um “Lula Livre” e a esquerda para além do Lulismo
Terça-feira, 26 de novembro de 2019

Por um “Lula Livre” e a esquerda para além do Lulismo

Imagem: Fernando Frazão / Agência Brasil

 

Por Luciano Freitas Filho

 

Início esse texto com o reforço de uma defesa política legítima: “Lula livre! ”. Dito isso, retorno ao debate proposto no título desse texto. 

 

 

A libertação do Lula tem duplo sentido nas reflexões que ora apresento. Primeiramente, por entender que se trata de um ato de justiça sendo posto em prática, quando debatemos a emergência da sua soltura e a inconstitucionalidade de seu aprisionamento. Mas também, busco reforçar uma reflexão sobre a esquerda brasileira libertando-se do ‘lulismo’. 

 

Defendo a legitimidade da soltura do Lula por parte do STF, no último dia 08 de novembro.  Não somente por compreender a “presunção de inocência”, cláusula pétrea, em que deve se garantir um processo penal democrático e justo, durante toda a persecução penal, desde a investigação até a conclusão, como também percebo quão estratégica é a mobilidade política do ex-presidente de ‘ Norte a Sul’ do Brasil, no intento de problematizar e/ou provocar a população para reagir frente aos desmontes promovidos pelos onze meses de governo Bolsonaro ( com particular atenção às reformas da previdência, tributária, administrativa e a possível mudança constituinte com vistas à retirada de direitos fundamentais e cláusulas pétreas ). 

 

Trata-se de uma das maiores lideranças políticas da América Latina, temido, inclusive, pelos opositores do campo da direita local e no exterior. O Partido dos Trabalhadores/PT tem razão em sustentar a tese que Lula tem cacife para unir a esquerda (mesmo sem consensos e provisoriamente). 

 

Contudo, qual o interesse do Lula e do PT em jogo, afinal? Seria aglutinar a esquerda e a centro-esquerda adormecida e inerte perante as reformas desastrosas propostas pelo governo atual ou reiterar apoios para uma pseudocandidatura do Lula à presidência da república, nos mesmos moldes e vícios que em 2018, e nos últimos “minutos do segundo tempo” lançar a candidatura do Fernando Haddad? Seria se utilizar da mesma estratégia errada que fortaleceu os percentuais do Bolsonaro para se eleger, cometendo certo “estelionato eleitoral”, uma vez que o Lula está inelegível? 

 

Com tais questionamentos, retomo a ideia da esquerda libertando-se do lulismo. Luis Inácio Lula da Silva, sem dúvida, foi um dos melhores Chefes de Estado da história desse país. Trabalho com dados, índices e fatos concretos que comprovam as diversas benesses provenientes do seu governo, nos mandatos existentes entre 2003 e 2011.  Por outro lado, são os erros desse mesmo governo que reforçam a tese de que o lulismo não é mais um movimento político sadio e benéfico ao Brasil. A centralidade do poder na figura do Lula, os excessos ou conivências com atos ilícitos por parte do PT, ao longo dos mandatos dele e da ex-presidenta Dilma, bem como os extremismos provocados por um populismo raivoso e que polarizou bastante o país, dividindo-o entre vermelhos e verde-amarelos, nos levam a afirmar que não nos é estratégico apostar no lulismo ( ao menos por enquanto, em tempos de ultraconservadorismo e pós-verdade ).  

 

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Lula pode e deve contribuir bastante para balançar corações e mentes; esquentar corpos arrefecidos em pleno processo de desmonte acelerado no Brasil. Contudo, trabalhemos com duas questões pertinentes ao debate e para o cenário político e, sobretudo, para problematização do lulismo : 1- a rejeição e/ou antipetismo ainda são questões reais e decisórias para que um governo péssimo como o governo Bolsonaro ainda permaneça com grande adesão popular, mesmo apresentando incidentes diplomáticos graves, difusão de  fake news , bem como cometendo atos criminosos ‘descaradamente’ ; 2-  o personalismo ou centralidade na pessoa do Lula, assim como a exaltação de seu nome enquanto liderança em atos beirando ao fanatismo, em tom vermelho, não cabem enquanto ‘missões’ ou pautas prioritárias da esquerda brasileira, hoje. Essa é uma bandeira de luta do PT, que pode ser apoiada pela esquerda partidária e não-partidária, mas não sustentada como uma pauta primeira ou emergencial. 

 

No último dia 17 de novembro, na cidade do Recife, mais de 200 mil pessoas saíram às ruas para celebrar a soltura do ex-presidente. Nesse ato, observou-se que de longe foi objetivo do partido mobilizar massas para reiterar a oposição às medidas austeras do governo. O ato deixou um gosto amargo de fel e instigou dúvidas acerca das futuras andanças ou caravana do ex-presidente em outras cidades, daqui em diante. A ideia é apenas reforçar Haddad e o PT, promovendo uma onda vermelha em torno da exaltação do Lula, reforçando uma falsa candidatura do Lula, como em 2018 , ou é a ideia de mobilizar movimentos, unir a esquerda para se posicionar em oposição contra as reformas e outras medidas danosas ao povo brasileiro? O lulismo ainda vai apostar no personalismo e na estrela do Lula, ou vai passar a apostar em outras milhares de estrelas, passando a perceber uma expansiva constelação? Reitera-se, inclusive, que esse líder tem 74 anos. Não seria a hora de se investir em sua capacidade de liderar para preparar outros potenciais dirigentes? 

 

Será que dessas 200 mil pessoas em Recife, teríamos pelo menos 100 mil deles nas ruas, nas semanas seguintes, contra as reformas? Se juntarmos os 200 mil que foram ao ato e os outros tantos milhares que decidiram não ir nele, não teríamos um protesto bem expressivo?

 

A autocrítica tão demandada ao PT, que aparentemente não foi compreendida pelo partido, diz respeito a deixar mais claro qual o projeto do partido afinal: projeto para se manter no poder para que o partido sobreviva, poder pelo poder, fisiologismo ou é um projeto para os trabalhadores e uma real luta de classes? Onde está a CUT e outras centrais sindicais diante dessa reforma proposta ao servidorismo público, por exemplo? A ideia é deixar passar as reformas sem se manifestar e, por conseguinte, estimular a tese e os discursos de um “volta PT” ?  Lembremos, inclusive, que algumas dessas reformas foram gestadas e/ou maturadas/ensaiadas nos dois governos petistas. Talvez, seria até cômodo para a esquerda e a direita brasileira deixar para o atual presidente o papel espinhoso de promover tais reformas e, em assunção de governos futuros, afirmar estar isento da culpabilidade.  

 

Defender cortar o cordão umbilical da esquerda com o lulismo não é odiar o PT ou defender o isolamento do Lula. Muito pelo contrário, é permitir desdobramentos a partir do próprio Lula para outros caminhos possíveis e bem mais viáveis perante a conjuntura atual; é legitimar outras novas lideranças de partidos diversos atuando na/pela esquerda.  É pensar o PT envolvido no processo de reoxigenação da esquerda, sem necessariamente ditar os caminhos. E para tudo isso, pretende-se perceber e reafirmar a importância do Lula e de sua liberdade. 

 

Reconhecer os erros da esquerda, não somente os do PT, diante dessa polarização profunda e danosa existente na sociedade brasileira, é emergencial. 

 

Reconhecer esses erros não implica em legitimar atos fascistas ou afirmar as falas obscenas e violentas e os atos criminosos vistos em apenas 11 meses de governo Bolsonaro. Esse momento de ode à burrice e à ignorância, bem como ao ódio, não é a resposta ou caminho correto para superar erros cometidos pelos governos do PT. Por outro lado, é também pensar que a solução para toda essa mazela do governo bolsonarista não vem por meio de uma reeleição do Partidos dos Trabalhadores em 2022, tendo por base as mesmas práticas viciadas de sua militância e a centralidade da tomada de decisão nas mãos do Lula.  Os rumos da esquerda brasileira não podem ser reféns de estratégias gestadas/definidas em reuniões da Executiva Nacional do PT. 

 

 

Luciano Freitas Filho, doutorando em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ. Membro da Comissão Dom Helder Câmara de Direitos Humanos da UFPE. 


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