A (Re) Construção da Subjetividade do Povo Preto Brasileiro
Quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A (Re) Construção da Subjetividade do Povo Preto Brasileiro

Imagem: Marcello Casal Jr / Arquivo / Agência Brasil

 

Coluna Féministas

Por Camila Ferreira

 

“Partindo da constatação de que o olhar do outro tem uma participação destacada nos primeiros momentos da constituição psíquica, propõe-se uma hipótese sobre a imitação do olhar como fator determinante na constituição do eu” Paulo Carvalho de Ribeiro

 

 

Como escapar do olhar do Outro e ou daquele que me condena?

 

O caminho é individual, mas a caminhada pode ser compartilhada.  

 

É o que faço neste texto, sem pretensão de dar nenhuma receita, mas sim, de apenas ampliar os horizontes de quem me lê.   

 

O conceito de olhar elaborado pelo psicanalista Lacan, foi o que me moveu a transmutar um ciclo geracional de um olhar limitante, reducionista, vulgar e violento sob a população negra brasileira.  

 

A volta às minhas origens (ancestralidade) e a compreensão do significado simbólico dos mitos africanos descortinaram arquétipos, que habitam o inconsciente coletivo, para minha emancipação. Foi através da análise junguiana que consegui empreender perguntas bem como respostas mais elaboradas para uma ação mais eficiente frente às angústias advindas do racismo sistêmico e estrutural brasileiro com seus efeitos danosos, isto é, descobri uma estrutura psíquica que foi restringida historicamente, para então modificá-la a partir de uma identidade cultural, ou seja, o conjunto de características de um povo e ou etnia, no caso a África com seus mitos, ampliando suas possibilidades arquetípicas para o encontro com minha identidade individual.

 

O mitólogo e escritor Joseph Campbell, no seu livro O Poder do Mito, explica que os mitos são potencialidades espirituais da vida humana, aquilo que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente. Para isto é preciso captar a mensagem dos símbolos, ou seja, quando busquei, aceitei e integrei a identidade histórica e ancestral negra, foi possível criar uma imagem própria, autêntica, me reconectando com meu Eu interior.

 

Nesse sentido, reatar os laços africanos rompidos violentamente, desatar os nós feitos e a compreensão da imagem de que os negros(as) brasileiros(as) não vieram exclusivamente da escravidão, nos liberta de uma percepção de realidade e de sistemas de valores que nos impede de acreditar que possamos decidir e escolher quem somos e finalmente metamorfosear a triste, porém factual realidade constatada pelo psicanalista Frantz Fanon, em seu livro Pele Negra e Máscara Branca, que para o negro seu destino é ser branco.

 

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E é o mesmo Fanon que mostra a necessidade e o direito de escolha quando diz “Na verdade, pensamos que só uma interpretação psicanalítica do problema negro pode revelar as anomalias afetivas responsáveis pela estrutura dos complexos. Trabalhamos para a dissolução total desse universo mórbido… Mas, para se chegar a esta solução, é urgente a neutralização de uma série de taras, seqüelas do período infantil… Todo povo colonizado — isto é, todo povo no seio do qual nasceu um complexo de inferioridade devido ao sepultamento de sua originalidade cultural — toma posição diante da linguagem da nação civilizadora, isto é, da cultura metropolitana… o negro não deve mais ser colocado diante deste dilema: branquear ou desaparecer, ele poder tomar consciência de uma nova possibilidade de existir”.

 

Numa linha histórica, vê – se que o olhar construído pelos brancos e não brancos (aqui há uma mostra da perversidade desse sistema) em volta dos negros(as) na sociedade brasileira, é condensado no racismo e desenvolvido no embranquecimento, bem como no mito da democracia racial, conceito apresentado pelo sociólogo Gilberto Freyre, como a solução para superar um passado de barbárie na pele da escravidão, mas sem propor ou permitir a negros(as) projetos ou alternativas de cidadania, impedindo assim o acesso a outros lugares, posições e papéis.

 

Esse estratagema organizado pela sociedade não negra brasileira interfere diretamente na maneira como essa população se percebe, desde que raptadas da África e escravizadas no Brasil.

 

Esse processo invisibiliza histórias importantes de personagens que representam a perspectiva histórica e mitológica do negro(a) – como Dandara Palmares, mulher de Zumbi dos Palmares; Virgínia Leone Bicudo, socióloga e psicanalista; a filosofia Kemética, que nasce na África com um nome como chamavam os antigos egípcios, Kemet = Terra Preta; Exu, o orixá guia dos caminhos da sabedoria sagrada; Xangô, orixá guerreiro, da vontade e determinação – apagando inclusive da história todas as tentativas de resistência como as organizações quilombolas, que lutavam contra um sistema opressor e violento, danificando assim a construção da subjetividade deste povo.

 

Um olhar que precisa ser desconstruído, uma vez que o(a) negro(a) é um ser que foi destituído de sua humanidade e por conseguinte de direitos para reaver seu verdadeiro Eu. 

 

O psicanalista Jung diz que ninguém nasceu para ser cativo, nem enquadrado em nenhuma teoria científica e que a vida tem um propósito: o processo de individuação, ou seja, a busca de si mesmo.

 

Dilatar o olhar e a consciência da população negra brasileira e dos não negros (as), sobre todo o processo que vai da volta às origens, ao acolhimento da dor de quem ele já poderia ter sido, até o espaço para que outros potenciais se manifestem encurtando o tempo entre uma geração e outra, é não esgotar as possibilidades de respostas para a pergunta que dá início ao texto “Como escapar do olhar do Outro e ou daquele que me condena?”

 

 

Camila Ferreira é Arte Educadora, Psicanalista Junguiana e Idealizadora do Canal, no Youtube, Vozes Negras.


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