Está faltando dinheiro, ou distribuição adequada dos recursos?
Quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Está faltando dinheiro, ou distribuição adequada dos recursos?

Imagem: Agência Brasil – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Martel Alexandre del Colle

 

Parece-nos que todos os problemas do Brasil têm um fundo econômico.

 

 

Os problemas da saúde são devido à falta de dinheiro para um atendimento melhor. Há também o problema da burocracia relacionado ao repasse de verbas, e, também, o problema da corrupção que não permite que essas verbas cheguem onde deveriam chegar. A educação precisava de mais investimento, seja ele público ou privado. Era necessário mais dinheiro e um dinheiro gasto de melhor forma, diriam. Na realidade, parece-nos que todos os problemas do mundo são uma questão financeira. É, parece-me, uma ilusão. A situação começa a ficar curiosa quando descobrimos que a espécie humana já produz mais alimentos que o necessário para alimentar toda a população do planeta, mas ainda temos uma quantidade enorme de pessoas morrendo de fome.

 

Então por qual razão o dinheiro – a economia – aparece como o grande fator dessa discussão? Por que tudo passa pelo dinheiro?

 

Uma pergunta muito complexa para uma resposta curta. Talvez a melhor alternativa seja quebrar essa grande pergunta em pequenas perguntas. A primeira delas: 

 

O que é o dinheiro?

 

O antropólogo David Graeber explica que a humanidade não possuía o entendimento de economia que temos hoje. Por isso, fazer uma análise das relações de tempos antigos baseando-se em nossos conceitos geraria uma conclusão anacrônica. De fato, o ser humano utilizou o escambo e a moeda como meios de troca com viés econômico, mas somente quando uma sociedade atingia certo nível de organização. O Estado se organiza antes da organização de uma moeda, já que a moeda precisa de um órgão garantidor, alguém que crie e sustente a lógica da dívida.

 

Antes dos grupos humanos desenvolverem estados, as relações sociais e de escambo aconteciam de forma diferente. Não havia nos grupos humanos uma visão econômica. Portanto, as relações de troca aconteciam como forma de criar laços de compromisso, fidelidade, agradecimento, reconhecimento. Também não havia a concepção de produção de excedentes como uma forma motivar trocas favoráveis, já que tal conceito ganha força a partir do momento em que ocorre uma divisão do trabalho. E para haver uma divisão do trabalho possível e funcional era preciso a garantia de que outros cidadãos teriam a obrigação de produzir outros bens. Novamente percebemos que o Estado foi uma construção fundamental para o desenvolvimento significativo das relações econômicas, do mercado.

 

Quando surgem os Estados com certo nível de desenvolvimento, as relações de troca começam a ter grande importância nos modos de viver. O objetivo das trocas era, e continua a ser, tornar a vida mais fácil. Eu troco algo que não tem tanta utilidade para mim por algo com mais utilidade. Enquanto alguém aceita a troca por considerar o que será recebido mais útil do que aquilo que ela está trocando comigo. Em resumo, troco algo com maior valor de uso para mim, por algo que para mim tem um valor de troca aproximadamente igual e que terá um valor de uso maior para a pessoa que recebe. Quando falamos de troca puramente econômicas. Aquelas frias, feitas puramente no mercado. Não é a regra de todas as trocas e relações.

 

A moeda, que surge como uma forma de garantia do crédito de um estado, é subjetivamente definida como um sistema de comparação de valor que permite uma troca de produtos. 

 

Mas como saber o valor da moeda em comparação com outros produtos? Mais importante: de onde vem o valor?

 

Aqui existe divergências entre economistas, mas eu vou com Marx (e um pouco com Smith) na afirmação de que o valor vem da quantidade de trabalho necessária para se adquirir para si aquele produto. Ou seja, eu posso comprar ouro, mas também posso garimpar um local e encontrá-lo na natureza. O valor se estabelece numa análise média do quão difícil seria o esforço para adquirir esse ouro no garimpo. Não só isso, mas também há o fator da raridade ou dificuldade em se encontrar o ouro. Não se conta só o valor do trabalho depois de encontrar o produto, mas também o valor do trabalho até que ele seja encontrado. Quanto mais trabalho, tanto mais caro. Até o limite da impossibilidade, o que leva o produto a custar zero. Exemplo disso são as reservas naturais encontradas em outros planetas. Mesmo que se encontrasse um planeta feito completamente de ouro, isso não afetaria em nada o valor do ouro no nosso planeta. Isso porque ainda é impossível adquirir esse ouro. Ou seja, o trabalho tende ao infinito. Porém, se amanhã fosse descoberta uma maneira de explorar esse ouro, então o valor do ouro sofreria mudanças conforme a quantidade de trabalho necessária para se extrair uma certa quantidade de ouro e transformá-la em valor de troca ou de utilidade. Alguns economistas contrários a essa ideia afirmam que essa teoria não prevê as flutuações oriundas da tecnologia que deixam o trabalho mais fácil. E vejo isso como um equívoco interpretativo. A teoria prevê quando afirma que uma nova tecnologia criará uma média entre a quantidade de trabalho anterior e a nova quantidade de trabalho. Nesse vácuo alguns produtores conseguirão um lucro maior por estimarem o trabalho do seu produto no trabalho anterior, enquanto estão usando menos trabalho (gastando menos para produzir). Mas esse fator com o tempo se estabiliza e é necessária uma nova onda de tecnologia para causar uma nova flutuação. Um exemplo seria uma nova tecnologia de celular que custasse menos da metade para o produtor. Ele poderia vender essa tecnologia por um preço acima do valor da tecnologia anterior por um certo período, mesmo que a produção fosse mais barata, pois entra aí uma análise do custo de produção da nova tecnologia pelo método anterior. Obviamente, as outras empresas terão de trazer uma tecnologia igual ou superior para se manter no mercado, e com isso, o preço volta a ser baseado na tecnologia que agora é o padrão e não mais a inovação. Por isso os produtos são caros quando lançados, mas caem de preço conforme o tempo passa, mesmo que o trabalho continue igual. Tudo isso foi teorizado para o sistema capitalista, que é um sistema criado, uma lógica possível dentre diversas outras. 

 

A moeda tinha seu valor lastreado em metais. Novamente uma criação, e uma que não deu muito certo. Essa tentativa de criar uma lógica baseada num valor anterior as relações de mercado e estado acabaram com resultados ruins para os países que insistiram nessa lógica. Hoje, não é preciso saber quanto há de ouro em um país para se imprimir moeda. E, por consequência, não é verdade que um aumento da quantidade de moeda leve invariavelmente a inflação. O que não significa que imprimir dinheiro livremente não gere inflação. A questão aqui é que existem possibilidades diferentes da equação mais dinheiro igual a mais inflação.

 

Mas no que é lastreada a moeda?

 

Em um sistema de ativos e passivos flutuantes que tem sua garantia nos estados. Basicamente o lastro vem de títulos que os Estados emitem e depois pagam. Criando assim um lastro móvel que é pago pelo Estado que coloca aquele valor em circulação. E é por isso que o capitalismo – e o mercado – não existe sem o Estado, pois é o Estado que garante a solidez da moeda. E é por isso que uma criptomoeda não é uma moeda, pois ela não tem seu valor garantido por nenhum Estado, podendo, assim, ser definida como valor zero da noite para o dia. O que não tira o mérito de transações mais céleres devido a essa tecnologia, ela apenas não se define como moeda.

 

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Fica claro que o dinheiro, a moeda, não é algo mágico, nem capaz de ser a uma panaceia. Fica claro que aquele papel que você utiliza para pagar coisas não tem utilidade alguma, mas apenas valor de troca. Sua utilidade seria, no máximo, a sua grande capacidade de troca. A moeda nada mais é do que um acordo. E todo acordo precisa de um garantidor. Quem garante que a sua nota de cinquenta reais vale alguma coisa é o Estado. A moeda não cria a lógica, mas é exercida sobre a lógica que se construiu. 

 

Mas que lógica é essa?

 

Thorstein Veblen, em seu livro A TEORIA DA CLASSE DO LAZER, explica-nos que a espécie humana possui, desde longa data, dois mecanismos de ação que se desenvolveram devido às pressões e conjunturas que as comunidades humanas passaram. Essas forças são a criatividade e o conservadorismo.

 

Segundo Veblen, quando um humano, ou um grupo de humanos, passava por uma situação de grande dificuldade, onde a existência era difícil, e havia perigo para a continuidade da vida, este tentava de forma criativa sair daquela situação até encontrar uma situação mais estável. Por exemplo, se o frio era um problema, soluções como o fogo ou usar peles de couro poderiam ser desenvolvidas.

 

Num ambiente hostil, a mudança só deveria ser exercida quando o conservar de uma posição significasse a morte, caso contrário nada deveria ser modificado. Ou seja, se uma comunidade humana encontrasse uma forma de sobreviver se alimentando de uma certa espécie animal, então trocar de dieta sem necessidade representaria um risco desnecessário, já que a nova dieta poderia ser venenosa, perigosa para caçar, ou apresentar algum outro problema.

 

O que este economista quer nos trazer é que essas forças continuam guiando nossa espécie, pois foram milhares de anos em que essas forças fundamentais nos mantiveram vivos e levará mais alguns milhares de anos para que elas, talvez, deixem de nos guiar.

 

Os atritos entre grupos humanos e dentro dos grupos humanos, por diversas razões, desenvolveu as hierarquias e lugares dentro do ambiente comunitário. Como forma de definir seu local sem perder a coesão, poderiam ser usadas técnicas como a “demonstração de força ou de aliança com fortes” – seja essa força entendida num sentido amplo, não somente de poder físico. 

 

Diante disso, dentro das sociedades mais complexas percebemos com facilidade a diferença de reconhecimento, de status, ou de classe. Os humanos do que podemos chamar de elite não precisavam mais de mudanças como forma de sobreviver, pois suas posições sociais lhes garantiam certa tranquilidade em conseguir os recursos necessários a vida e o lazer, logo, se tornavam mais conservadores que aqueles que precisavam encontrar formas criativas de superar as dificuldades. Enquanto a vida para as classes sociais mais baixas se tornava mais difícil, pois estas tinham de produzir para seu sustento e para o sustento da classe superior.

 

Naturalmente, havia uma luta para ascender à classe superior. Com o tempo, as classes inferiores começaram a imitar os modos e atitudes da classe de cima – um fenômeno que não se esgota na antiguidade. Isso leva, possivelmente, a uma visão de que o conservadorismo é algo positivo, pois ele é algo das elites. Enquanto se tem a visão de que o trabalho manual e as lutas para mudar a realidade são coisas da ralé. 

 

A questão é que para se ser conservador é necessário estar em posição confortável, mas é preciso mais do que isso. É preciso não ver os de baixo como do mesmo grupo, da mesma espécie. É muito comum encontrar, analisando a história humana, grupos exploradores justificando suas ações por serem mais próximos de uma divindade, ou de uma etnia supostamente superior, dentre outras justificativas. Essa separação facilita o ignorar da dor dos que estão abaixo. A reprodução da justificativa moral de que os miseráveis estão lá por merecerem estar lá, porque desejam estar em condição de miséria. 

 

Fica relegada a classe de baixo a curiosidade como inovação para mudar às suas condições de vida, mas essa corre o risco de engolir a ideologia da classe conservadora e acabar por abandonar a empatia. Trocando o desejo de melhoria para todos por uma corrida para chegar ao topo e sair da classe que sofre.

 

E esse é o problema atual da nossa sociedade. Não é uma questão somente econômica, até porque economia monetária, a financeirização da vida é uma fenômeno não inerente a vidas humana. Não é dinheiro o que falta. O que falta é enxergar o outro. Morrem 60 mil pessoas por ano no Brasil, mas nenhuma dessas pessoas tem rosto, história. Falta-nos empatia.

 

 

Martel Alexandre del Colle tem 28 anos e é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná


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