Emicida no Theatro Municipal para o povo negro
Sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Emicida no Theatro Municipal para o povo negro

Imagem: Emicida / Instagram

 

Por Renan Almeida

 

Neste dia 27, aconteceu um show que entrou pra história de pretos e pretas desse país. O rapper Emicida e sua divina banda apresentaram em duas sessões lotadas no Theatro Municipal o lançamento do álbum AmarElo.

 

 

Sessões estas que tiveram seus ingressos lotados em apenas 10 minutos de abertura de vendas. Não suficiente, foram instalados telões e caixas de som com transmissão ao vivo na escadaria do Teatro Municipal, para aqueles que não conseguiram adquirir ingressos. Um dos primeiros shows de rap no Theatro Municipal, mas com certeza, um dos dias mais lindos da história deste teatro.

 

Logo no início do show, algo de diferente. Na contramão dos eventos que ocorrem no Municipal, a Laboratório Fantasma (produtora do Emicida) avisa que fotos e vídeos feitos por fãs estão liberados. E mais, estes serão escolhidos e utilizados para um projeto de filme chamado “Experimento Social AmarElo”. No entanto, para além de ser apenas um projeto para filme, isso somado ao fato dos telões instalados do lado de fora do Theatro Municipal, se torna uma forma de democratizar o acesso ao show e torná-lo acessível para aqueles que não puderam lá estar, seja por disponibilidade de ingresso ou por falta de dinheiro. Sabemos que o teatro é um espaço desde sempre elitista, frequentado por um público muito específico, ou seja, democratizar esse acesso é, de fato, um ato político. E, ainda falando sobre democratização, um dos atos mais importantes neste show foi a presença de intérpretes de libras durante todo o evento, tornando ainda mais acessível aquele encontro.

 

Pois bem, Emicida abre seu show e, logo na primeira performance “A Ordem Natural das Coisas” já há emoção no Theatro Municipal, por parte dos artistas e do público em sua maioria preto. Aliás, a emoção é algo que que sobrou naquele teatro neste dia.

 

Em dado momento, Emicida diz: “É muito importante trazer um concerto de rap para cá. Isso aqui é o resultado do sonho coletivo de muita gente. Essa conquista é o que anistia o espírito de quem veio antes de nós e sofreu.” Nada mais justo, Emicida.

 

Dia 07 de julho de 1978, aconteceu algo marcante neste mesmo Theatro Municipal. Ou melhor, em suas escadarias. Nesta data, em pleno Período de Ditadura Militar, representantes e militantes de diversos grupos se reuniram como resposta à discriminação racial sofrida por quatro garotos negros do time infantil de vôlei Clube de Regatas Tietê, que foram impedidos de entrar na piscina, e a prisão, tortura e morte do trabalhador e pai de família Robinson Silveira da Luz, acusado de roubar frutas numa feira, sendo torturado no 44º Distrito Policial de Guaianaeses e falecendo por conta das torturas. Com um número de em torno de duas mil pessoas, atletas, artistas, entidades do movimento negro se uniram e pela criação do Movimento Negro Unificado, para desmarcarar o racismo velado da sociedade nacional. Um marco na resistência contra a Ditadura Militar.

 

Hoje, o encontro daqueles músicos e seu público (em sua maioria preto), só se faz possível por conta dessa luta que se originou em 1978. O enfrentamento do racismo, da discriminação racial, mudou a forma da população negra lutar. E é incrivelmente histórico que na data deste show em específico a população negra esteja no Theatro Municipal para desfrutar do show de um artista que veio da periferia e que, ao pisar em espaços elitizados, ressalta a importância da luta daqueles que fizeram ser possível este ato. E, tornando o show ainda mais emocionante, Emicida aponta que quatro representantes do Movimento Negro Unificado estavam presentes naquele show, pedindo que se levantem. O Theatro Municipal se encheu de gritos, lágrimas, palmas e, principalmente, de muita gratidão.

 

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A importância deste show ainda esteve presente nos convidados. Trazendo Pabllo Vittar e Majur, o show atingiu um dos momentos mais eufóricos durante a música “AmarElo” pois, além de cantar junto com as cantoras, a platéia permaneceu de pé e aplaudiu de forma efusiva. Nada mais coerente. Assim como os negros, a comunidade LGBT também encontra diversos percalços em sua luta por voz nessa sociedade, ainda mais em momento tão conservadores quanto estamos vivendo. Pabllo, Majur e Emicida dão as mãos nessa música, mostrando que “ninguém solta a mão de ninguém” nunca fez tanto sentido. A liberdade individual não faz sentido, não há como lutar pela liberdade pela metade.

 

Durante o show, não foi difícil ver pessoas chorando. Em um dos pontos mais emocionantes foi quando Emicida disse: “Há cinco séculos, a religião foi usada como argumento para justificar o sequestro de 12 milhões de pessoas. Aquelas pessoas foram obrigadas a caminhar cinco séculos ouvindo que elas não tinham alma. Que a noite de hoje sirva para nos dizer que pegamos a nossa alma de volta.”, apontando o fato das Igrejas Católicas no período colonial justificarem a escravidão de negros, pois supostamente, estes não possuiam alma, logo, não podiam ser convertidos ao catolicismo, apagando também toda a ancestralidade e religiosidade dos povos negros.

 

Durante diversos anos o rap não chegou nos lugares mais altos da sociedade por conta de sua origem periférica e da nossa sociedade racista. O rap, assim como o funk, foi tratado durante anos como uma cultura de baixo valor e sem qualidade, e hoje, Emicida traz consigo luta e elegância ao Theatro Municipal. Sem nunca se esquecer que traz o Gueto consigo. O garoto Leandro Roque, que se tornou um gigante do rap, ainda cantou algumas músicas finais, tais como “Gueto”, que exalta o orgulho negro através do funk: “Onde estiver, onde pisar, nós sempre vai ser gueto!”, traduzindo toda a representatividade deste show. Nós somos pessoas negras pisando em um espaço elitizado durante anos, estamos conquistando espaços que nos foram negados e, ainda assim, “nós sempre vai ser gueto!”

 

Já no fim do espetáculo, Emicida disse: “Tento ser um cara elegante, olha onde eu trago vocês”. Também disse: “Já pensou nossos filhos vendo as fotos desse dia aqui?”. E encerrou o show dizendo: “Obrigado, Theatro Municipal. Nos vemos nos livros de história”.

 

Sem dúvida, Emicida. O que foi feito no Theatro Municipal entrará pra história! Como resistência, como luta, mas também com orgulho e a elegância que só a música preta sabe trazer à nossa sociedade.

 

 

Renan Almeida é produtor e editor audiovisual, músico, mestre de bateria da Chorões da Tia Gê e militante do movimento hip hop


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