Um longo anoitecer sobre Liberdade
Segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Um longo anoitecer sobre Liberdade

Imagem: José Cruz / Agência Brasil

 

Por Igor Tadeu Camilo Rocha

 

No início de novembro, foi publicado um romance que, de todos os que li recentemente, é aquele que traz para o mundo sensível da narrativa ficcional chaves mais incisivas para se refletir a respeito de viver sob o avanço do obscurantismo.

 

 

Trata-se de Vosso Reino, primeiro romance do historiador Warley Alves Gomes.[1] Nele, o autor, que pesquisa sobre textos literários publicados ao longo do processo da Revolução Mexicana e seus desdobramentos, muitas vezes remete a estilos populares na América Latina do século XX. No entanto, a história constrói-se a partir de um formato que podemos entender como um romance distópico. Entende-lo por essa via vai servir mais diretamente aos objetivos deste texto, que é falar um pouco sobre como que a partir do núcleo central de personagens, seus dramas e trajetórias, se constroem arquétipos de relações e percepções de mundo sob ataque do fascismo.

 

Resumindo brevemente a história: ela se passa na cidade fictícia de Liberdade, localizada num país igualmente imaginário do qual não se menciona o nome ao longo do livro. Este país viveu alguns anos sob governos de centro-esquerda. Porém, nos anos anteriores ao início da história, tais governos passaram a ser massacrados por mídia e movimentos diversos todos os dias, até surgirem grandes manifestações de rua contra ele. De um lado, havia uma minoria progressista que acreditava que aquele governo estava cada dia mais perto da direita; de outro, um crescente número de pessoas que considerava tal governo o responsável por toda a corrupção do sistema, sendo seduzido mais e mais por soluções que prometiam um ordenamento definitivo daquele caos, que viria na forma do conservadorismo religioso, violência de estado e militarização da sociedade. Em sua maioria, havia também pessoas simplesmente desencantadas com a política, não se sentindo parte dela – pelo contrário, entendendo-se cada vez mais excluído dela, por razões das mais variadas possíveis.

 

Em meio a isso, desenvolve-se a história de três amigos. Eram três estudantes universitários, amigos e colegas que se conheceram na Universidade Pública de Liberdade – UPL. Eram Adon Santiago, que cursava engenharia, sua namorada Lara, estudante de administração, e aquele que era o melhor amigo de ambos, Daniel, estudante de filosofia. A história começa na semana anterior à participação dos três no primeiro dos grandes protestos da cidade, evento mudaria definitivamente as trajetórias dos três que. Dessa manifestação e das subsequentes se desenrolaram eventos que fizeram com que a Frente Nacionalista – partido conservador, nacionalista, fundamentalista cristão e anti-minorias – crescesse em poder. 

 

Seu crescimento se deu no “vácuo de poder” deixado pelo Partido Laboral – partido de centro-esquerda – na medida em que era associado tanto à corrupção quanto a traição das pautas com as quais foram eleitos. É nesse cenário que os desencontros entre os personagens, em meio as manifestações de rua e crescente violência do estado contra elas ou as instrumentalizando contra adversários, acontecem.

O real e o ficcional

O que a ficção pode nos trazer para pensar a realidade? Há alguns teóricos que se debruçaram sobre o assunto, complexificando as fronteiras entre fictício e real. Dois breves exemplos, a fim de desenvolver a discussão sobre aspectos das personagens que acessam sensibilidades sobre se vier sob o obscurantismo e autoritarismo, conforme se desenvolve em Vosso Reino.

 

Hayden White, analisando a escrita da história pelos historiadores, distinguiu “passado histórico” e “passado prático”: o primeiro é norteado pela pergunta “isso é real?”, sendo o passado analisado pelo historiador com o devido rigor científico e de acordo com protocolos acadêmicos. Preocupa-se, sobretudo, com o anacronismo e busca, no limite, a verdade sobre o que aconteceu. Por sua vez, há o “passado prático”, cujo acesso é guiado pela pergunta “o que devo fazer?”, com a qual se mobiliza o passado em função de construção moral e ética do presente.[2]

 

White propôs à escrita da história por historiadores uma aproximação desses dois passados, tomados como “tipos ideais”. Assim, produzir-se-iam narrativas sobre o passado guiando-se pela busca da verdade, mas sem perder de vista a dimensão ética e política do seu ofício, evidenciando a relação da escrita sobre o passado com as demandas do presente em que vive. Seria uma forma de valorizar o potencial crítico do historiador e sua produção, conectando-os com a sociedade de forma mais ampla, não somente com um público especializado.

 

A escrita literária, aqui, tem proximidades com a escrita histórica, ainda que existam claras diferenças – quanto à forma e objetivos – entre elas. A literatura – outras produções ficcionais também – podem remeter ou aludir a um passado recente, com objetivos mais ou menos claros de provocar reflexões ético-políticas e morais ao seu leitor ou expectador. Assim, quem viveu no Brasil de 2013 para cá poderá identificar muitos elementos familiares nas manifestações nas ruas de Liberdade, por exemplo.

 

Já Wolfgang Iser, entende que ficção, realidade e imaginário se relacionam através daquilo que chama de “ato de fingir”. Segundo ele, partir dessa categoria o autor da peça ficcional direciona-se à realidade, primeiramente, escolhendo tema, estética, acontecimentos e sentimentos, dentre outros aspectos. Em seguida, combina tais elementos, captados na realidade, no interior de uma narrativa, de maneira a transgredir limites dela no seu interior. Finalmente, o autor apresenta na narrativa um outro mundo, que é um “mundo representado”. Iser ressalta, nessa operação, a importância do imaginário enquanto uma “experiência de acontecimento”, que permeia a percepção do que entendemos como sendo o mundo real, e que é acessado pela ficção na medida em que ela alcança as sensibilidades e imaginação de seu leitor ou expectador.[3] A tensão real x imaginado/construído molda, em certa medida, visões da realidade.

 

É assim que a chave crítica da realidade em Vosso Reino se desenvolve, trazendo para o cenário fictício dramas reais, que remetem a realidades identificadas pelo leitor e, muitas vezes, vivida por ele. É a partir disso, da tensão entre referências históricas, dramas universais e trajetórias imaginadas e narradas, que pretendo ensaiar breves considerações sobre os arquétipos, ou seja, modelos ou padrões que podem ser repetidos, de pessoas vivendo sob avanço do fascismo e tensões políticas diversas que permeiam seus dramas humanos universais, de acordo com o que aparece no núcleo central de personagens: o arquétipo da aceitação, ou da resistência e o da negação.[4]

Aceitando o fascismo

O estudante de engenharia Adon nos faz pensar, em primeiro lugar, sobre como e por quais motivos alguém adere conscientemente ao fascismo. E mesmo quais os limites desse “conscientemente”. Talvez possamos responder a esses questionamentos através da banalidade do mal, que remete à obra Hannah Arendt[5], que busca explicar certa mecanização da desumanidade. O crime mais bárbaro é cometido não por um psicopata, mas por um burocrata, que o faz por trás de ordens e de maneira irrefletida. Na trajetória de Adon, observamos que, até ele de fato tornar-se essa parte da engrenagem da barbárie fascista, houve um processo, no qual antes do “ser fascista” desvela-se o “tornar-se fascista”.

 

“Tornar-se fascista” é parte do processo de aceitação, por Adon, da barbárie que se instaurava. Primeiro veio sua identificação com os apelos à ordem, família e nação. Eles iam ao encontro de desejos do personagem por estabilidade. As respostas simples que o fascismo dá a tudo iniciam a trajetória trágica de Adon, organizando sua visão de mundo em objetivos muito claros. São elas que lhe dão identidade, sendo seu simulacro de participação ativa na criação da ordem que cessaria o caos no qual estava inserido.

 

Mas isso não se dá sem conflitos. Há a dimensão humana da auto-aceitação e auto-representação do personagem. Não sou (somos) fascista(s) é algo que aparece nas suas falas como uma espécie de mantra que repetia para os outros, para si e sobre seus companheiros da Juventude Patriota, grupo de extrema-direita ao qual se junta. Aceitar o fascismo, na narrativa da personagem, se localiza longe de se aceitar como um monstro. É mais um conjunto de operações para justificar violências, físicas e simbólicas, cometidas, em nome de algo maior, heroico. 

 

Assim, racionaliza a barbárie a ponto de ela tornar-se um imperativo para o nascimento de um novo mundo. A violência só acontece contra aqueles que se desviaram; e se ela for contra antigos amigos, ainda assim é justificável por eles terem se degenerado. Quem sabe se, pela dor em seus corpos e mentes, eles não voltariam ao caminho certo?

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Resistindo ao fascismo

 

Se Adon cedeu cada vez mais ao avanço do fascismo sobre Liberdade e o resto do país, Lara fez o caminho oposto: a marca central da sua trajetória é a resistência e, junto com ela, as dores de resistir. 

 

Essas dores manifestam-se de várias formas. Primeiramente, o próprio sentido da resistência vai se tornando progressivamente mais claro na medida que o autoritarismo e o obscurantismo avançavam; em segundo lugar, resistir significa, também, perder pessoas – fisicamente, pela morte, mas simbolicamente, como quando viu seu namorado cedendo à barbárie; e em terceiro, resistir também é abalar suas relações com o mundo, com seu entorno e com as pessoas, já que o alerta quanto ao que elas têm de pior, e que as motivou a levar o mundo ao fascismo, é permanente.

 

Mas no tempo da ditadura tudo era melhor! O novo governo vai matar todos os vagabundos e comunistas”: viver pensando que cada um a cada esquina é um potencial enunciador dessa frase provoca dores existenciais profundas.

 

Por outro lado, as ações, os confrontos e os trabalhos com pessoas e grupos que lutavam contra o sistema que se implantava, executados por Lara, elevavam sua certeza de que era melhor perder do lado que estava do que vencer estando do outro.

 

Além do mais, há uma dimensão da resistência importante na trajetória de Lara: a afetiva. O pai da personagem, por exemplo, é jornalista, que resistiu e fora perseguido pela ditadura que houvera décadas antes naquele país fictício. Na perspectiva de Lara, ele e as demais pessoas juntas a ela na luta contra a barbárie atenuam a tensão da desconfiança permanente, reforçando mesmo o sentido de resistir.

A negação de uma razão já sem sentido

 

Finalmente, chegamos a Daniel. Talvez a frase que mais o resuma seja a que diz à sua amiga Lara, algum tempo depois de a reencontrar, após os primeiros protestos: a razão já não faz mais sentido.

 

De fato, o fascismo é a degradação máxima da razão, como já disse Lukács[6]. Daniel tendo isso em mente seguiu um caminho no qual negar qualquer possibilidade do sentido de tudo aquilo que vivia, naquela sociedade fascista, era, talvez, a única coisa que fazia algum sentido. Para tanto, o álcool e as drogas foram ora escapismo, ora refúgio, tornando-se também, em alguns momentos, seu único vínculo com sua humanidade.

 

O niilismo, por essa mesma perspectiva, é também uma negação da razão. A atitude autodestrutiva de Daniel, em conjunto com sua apatia crescente com a realidade que se impunha a ele, violentando diariamente seu corpo e espírito, acentuam esse seu traço. 

 

Daniel mostra que a auto-anulação, a apatia e autodestruição tornam-se, para alguns, uma maneira alternativa de existir quando tudo perde o sentido. Ao contrário do que aconteceu com Adon, o fascismo lhe tirava o sentido e razão de existir.

 

Porém, algo na sua trajetória contrasta com essa condição. O amor que teve por Talita, mulher transexual com quem Daniel cultivou seus derradeiros desejos de permanecer naquele mundo, desvelam os traços de vivacidade da personagem, que estava adormecida sob o longo anoitecer da razão sobre Liberdade, e sobre a liberdade.

 

Aqui se dá a pensar que mesmo no mais profundo fascismo não há destruição absoluta dos sentidos de existir, da razão e da humanidade dos indivíduos, ainda que os abalos existam e sejam profundos.

Da ficção ao nosso “real”

A ficção oferece algumas chaves de leitura sobre a realidade. Ela alcança imaginação e sensibilidades do leitor. Vosso Reino é um romance que constrói uma chave crítica nesse sentido, remetendo a memórias e vivências de uma história brasileira recente num espaço fictício, sem perder de vista questões universais da experiência humana em meio a contexto de barbárie. 

 

Num Brasil em que a realidade, a cada dia, desafia o romance distópico naquilo que ele possui de mais absurdo e degradante, talvez estejam na ficção os elementos para entender melhor este país.

 

 

Igor Tadeu Camilo Rocha é Doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. 


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Notas

[1] GOMES, Warley Alves. Vosso Reino. Rio de Janeiro: Ed. Jaguatirica, 2019.

[2] WHITE, Hayden. The practical past. Evanston: Northwestern University Press, 2014.

[3] ISER, Wolfgang. “Atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcional”. In: COSTA LIMA, Luiz. Teoria da literatura em suas fontes. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2002. Vol. II. p. 955-987.

[4] Pensando no possível interesse que quem ler este artigo tiver na leitura do romance, tentarei entrar no mínimo de detalhes sobre as trajetórias e destinos das personagens. Dito de outra forma, evitarei os spoilers

[5] ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

[6] LUKÁCS, György. El Asalto a La Razón: la trayectoria del irracionalismo desde Schelling hasta Hitler. Ciudad del México: Fondo de Cultura Económica México-Buenos Aires, 1959.

Segunda-feira, 2 de dezembro de 2019
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