Sínodo da Amazônia, o que mudou?
Quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Sínodo da Amazônia, o que mudou?

Imagem: Agência Brasil – Arte: Gabriel Pedroza

 

Por Afonso Rangel Luz

 

Convocado pelo Papa Francisco o Sínodo[1] realizado no Vaticano, entre 6 a 27 de outubro de 2019, teve por objetivo central discutir as novas formas de evangelização da Igreja no território amazônico. Tendo por tema: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”, a Igreja católica buscou “adaptar-se” a realidade própria da região em questão.

 

 

Para isso, alguns pontos foram levantados, para maior inserção nos mais longínquos povoados ribeirinhos e aldeias indígenas, a saber: CONHECER os saberes e a diversidade dos povos, e a biodiversidade local; RECONHECER as lutas e resistências dos povos locais, desde o início da colonização; CONVIVER com o modo de ser de seus povos, buscando o equilíbrio destes com a natureza; e DEFENDER a Amazônia dos projetos econômicos que buscam sua degradação. 

 

O documento usado para nortear as discussões foi o Instrumentum Laboris (instrumento de trabalho) que, apontava alguns dos desafios enfrentados pelos povos amazônicos, como a má distribuição de terras, a degradação da biodiversidade, o ataque aos povos indígenas e dentre outros temas. Buscando atender a essa “nova forma de evangelizar”, algumas questões foram levantadas, como, por exemplo, a flexibilização do celibato sacerdotal para homens casados, ou seja, a ordenação de homens casados ao ministério sacerdotal, já que a Igreja enfrenta dificuldades quanto à quantidade insuficiente de padres na região amazônica. Outros temas também foram propostos, como a ordenação feminina e a incorporação de costumes culturais próprios ao rito católico. Tais questões, aliadas a pauta ambiental, geraram conflitos com setores conservadores da Igreja e até mesmo desconfiança por parte do governo brasileiro, que viu como preocupante o interesse da Igreja católica em temas ambientais na Amazônia. O maior conflito, porém, foi no interior da instituição, provocado por cardeais conservadores que não aceitavam as propostas apresentas no documento norteador, a exemplo do cardeal americano Raymond Leo Burke. 

 

O documento final do Sínodo da Amazônia foi publicado em 26 de outubro, pelo Papa Francisco. Nele alguns temas são apresentados, como: a Igreja com rosto indígena, migrante, jovem, que dá a devida importância aos valores culturais dos povos amazônicos. Apesar de alguns avanços dos setores progressistas da instituição, ainda se vê que a forte influência conservadora é predominante na Igreja. Sobre o celibato sacerdotal, por exemplo, o documento o reconhece como “dom de Deus”, logo, sendo algo que não deve ser questionado, pois, levaria o sacerdote dividir seu tempo entre as “coisas de Deus” e a rotina de um homem comum, como o trabalho, problemas familiares, conflitos entre amigos e por aí vai. O documento aponta apenas uma pequena abertura, ao apresentar que se deve “[…] estabelecer critérios e regras por parte da autoridade competente, para ordenar sacerdotes homens idôneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham um diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado, permitindo ter uma família legitimamente constituída e estável, para promover a vida da comunidade cristã através da pregação da Palavra e da celebração dos sacramentos nas áreas mais remotas da região amazônica”[2]. Assim, somente o diácono permanente, que já compõe o clero, poderá ganhar o grau do sacerdócio. Mesmo assim, é mais um pequeno avanço para uma instituição que se mantem fixa as suas tradições e dogmas.

 

Quanto ao protagonismo feminino, este parece ainda está limitado a um segundo plano, infelizmente. A proposta do “diaconato feminino”, que está em voga na história recente da Igreja desde 2016, por meio da “Comissão de estudo sobre o diaconato das mulheres”, instituída pelo Papa Francisco, não ganhou a atenção dos padres sinodais. Com isso, fica a reflexão: ainda há um longo caminho para que a Igreja consiga acolher de forma plena e igualitária os grupos distintos da sociedade. Quanto a Amazônia, somente os anos revelarão os efeitos do Sínodo. Aguardemos!

 

Afonso Rangel Luz é Graduado em História pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Pesquisador de História recente da Igreja católica, com recorte para a Teologia da Libertação. Professor da Educação Básica no Colégio Estadual Dr. Rômulo Almeida, em Santo Antônio de Jesus – BA.


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Notas:

[1] Sinudus do latim e significa literalmente caminhar juntos

[2] Trecho do documento presente em matéria do portal católico A12. Link: https://www.a12.com/redacaoa12/igreja/documento-final-do-sinodo-da-amazonia-e-votado-e-aprovado

Quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
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