“Populus”, meu cão
Quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

“Populus”, meu cão

Imagem: Reprodução – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Josely Teixeira Carlos

 

1977, Regime Militar no Brasil tendo à Presidência Ernesto Geisel.

 

 

No campo musical, os holofotes ainda estavam voltados para “Como nossos pais” e “Velha roupa colorida”, canções gravadas pelo compositor cearense Antonio Carlos Belchior (1946-2017), um ano antes em Alucinação, com grandioso sucesso também na interpretação de Elis Regina, no célebre Falso brilhante… porém, mais do que esses dois hits o fizera, “Populus”, do álbum Coração selvagem, desvelava muito mais a crueza pela qual passava o Brasil naquele momento. Exatamente, por isso, a intenção inicial de Belchior foi gravá-la ainda em 1976, no disco que deveria ter-se chamado justamente Populus. Frustrando o projeto do artista, a letra, de título original “Populus, meu cão” (que traz o termo em latim para povo, nação, pessoas, gente), foi censurada e só veio a ser gravada neste trabalho de 77. 

 

Terceiro álbum da carreira do “rapaz latino-americano”, Coração selvagem foi lançado pela Warner Music, nova gravadora, e é o segundo LP com produção de Marco Mazzola – que também tinha sido o responsável pela escolha da palavra alucinação para dar nome ao disco, que é considerado a obra-prima de Belchior, pois, como declarou o produtor, era “mais poderoso e definia melhor a obra”.

 

Coração selvagem, como indica a expressão, introduz na carreira de Belchior, para além da imagem do homem seco, fortemente explorada em A palo seco (1974) e Alucinação (1976), o componente erótico e sensual, já explícito na foto da capa do disco, que mostra somente o rosto de Belchior com o torso nu. Bastante diferente de seus dois primeiros LPs, pela primeira vez ele aparece de olhos abertos, como se encarasse fixa e selvagemente o espectador-ouvinte. Essa manifestação de um personagem que possui apelo sexual, tal qual Elvis Presley, James Dean e Marlon Brando, surge então já na canção-título do disco, “Coração selvagem”, que abre o lado A.

 

Nesse contexto lúbrico e sem o especificador “meu cão” no título, como forma provavelmente de que a retirada da precisão possessiva pudesse “tranquilizar” os censores para o real sentido da música, emerge “Populus”, bem no finalzinho do álbum, em penúltima faixa do disco.

 

Em uma leitura de superfície, “Populus”, uma ciranda-rock quase psicodélica, narra de modo aparentemente despretensioso a história de vida de um cachorro, de nome Populus, infeliz, desgraçado, miserável. Na verdade, ao ser lançada – pelo autor de Alucinação, música e disco – no contexto da ditadura militar (1964-1985) no Brasil, a canção traz em sua cenografia a dureza da vida do povo e funciona como metáfora da vida dos próprios brasileiros, numa época de restrição a liberdades individuais e sociais, que culminava com torturas e mortes (o mesmo acontece em outra letra do disco, o rock “Caso comum de trânsito”). Nesse cenário, a delicadeza do canto de Belchior – que começa com um ninar inicial – cumpre o papel de amenizar a crueldade da qual trata na letra.

 

Nela, quem fala é o dono do cão. O dono do Povo (Populus, meu cão) anuncia, ele mesmo, a condição de opressão e apatia pela qual passa seu cão: (…) o escravo indiferente que trabalha / e, por presente, tem migalhas / sobre o chão.

 

Repetindo insistentemente ser dono do cão (populus, meu cão / populus, meu cão), ele revela que esses domínio e sujeição às/das pessoas-cães são perenes e foram herdados ao longo do tempo, seja nos períodos de escravidão, seja nos de ditadura: Primeiro, foi seu pai, / segundo, seu irmão, / terceiro: agora é ele, agora é ele, agora é ele / de geração, em geração, em geração.

 

Ao descrever o destino de Populus (a morte, sem razão, referindo-se aos mortos nos porões da ditadura) e aludindo ao título do poema “Congresso internacional do medo”, do escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade, o dono do cão descortina que circula nos meios institucionais da Política (No congresso do medo internacional / ouvi o segredo do enredo final) e do Judiciário (Documento oficial em testamento especial) e faz uma menção in direta ao DOPS, o Departamento de Ordem Política e Social criado em 1924 e implementado no Regime Militar pós-64 para controlar o cidadão e vigiar as manifestações políticas, bem como as atividades intelectuais, sociais e partidárias, associadas ao comunismo.

 

O dono do povo-cão retrata também a incapacidade de Populus diante de sua submissão e sofrimento (impostos por seu dono), num ambiente bárbaro de torturas: Delírios sanguíneos, espumas nos teus lábios… / Tudo em vão.

 

O sujeito que narra afirma ironicamente ter medo de populus, seu cão, e coloca em evidência sua posição de opressor com relação à situação degradante de Populus, o oprimido, ao considerá-lo como bicho, “não-gente”: (…) roto no esgoto do porão. (…) / Seu olhar de quase gente, / as fileiras dos seus dentes!

 

E, finalmente, o dono do cão confessa que, apesar de suas declarações de ser indefeso (Tenho medo de populus) e de suas máscaras, o reconhecimento de sua identidade tirânica por outros membros do populus, do povo, da nação, é fatal: Trago o rosto marcado / e eles me conhecerão, me conhecerão, me conhecerão, me conhecerão.

 

Encerrando “Populus”, como redenção, o povo-cão por fim se rebela contra o discurso autoritário de seu algoz e irrompe em fala; são 33 segundos de pedido de Socorro: S.O.S., grita desesperadamente o povo-cão! Nessa disfonia, em que prevalece arbitrariamente a voz do opressor, está o cerne da canção-denúncia de Belchior, que restitui a voz ao oprimido, a quem resta conclamar: “Save Our Souls” (“Salvem nossas almas”).

 

(…)

 

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Ano de 2019, Democracia. 

Findado um amargo período de eleições para Presidente da República, o Brasil já ultrapassa onze meses do início do novo governo, chefiado por Jair Bolsonaro, eleito no 2º turno com assustadores 56 % dos votos. Já nas preliminares, sua gestão não disfarçou de nenhum modo a arquitetura do Projeto de Governo, que se baseia no autoritarismo, na obsessão pela retirada de direitos sociais e constitucionais, outrora conquistados e, mais estarrecedoramente do que tudo isso, no flerte (muitas vezes apologético) a práticas da ditadura militar no Brasil.   

 

Para citar um primeiro exemplo do conjunto de ações tomadas pelo presidente, Jair Bolsonaro exonerou, em junho último, todos os integrantes do MNPCT (Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura), um grupo do governo federal, formado por 11 profissionais, que, desde 2013, vinha monitorando, através de estudos e relatórios, violações de direitos, e atuando para prevenir a prática de tortura em instituições como as penitenciárias do País. Foi o MNPCT que elaborou um conjunto de relatórios sobre a situação de presídios como o Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim), no Amazonas, onde 111 presos foram mortos em massacres entre os anos 2017 e 2019. Por óbvio, o ato do presidente da República constituiu-se em uma retaliação à atuação da instituição, o que implica, a partir disso, em uma descontinuidade na denúncia de práticas de tortura no Brasil.

 

Nessa atmosfera bestial, não esqueçamos também que o político paulista, defensor declarado do regime militar no País, considera como “herói brasileiro” o coronel reformado e já falecido (em 15 de outubro de 2015, por falência múltipla dos órgãos) Carlos Brilhante Ustra (reconhecido pela Justiça em primeira instância como torturador no período da ditadura militar), segundo afirmou, em 2016, quando era deputado federal, em sessão do Conselho de Ética da Câmara. Ustra foi o primeiro militar brasileiro a responder por um processo de tortura, durante a ditadura. Enquanto o coronel comandou o DOI-CODI (o Destacamento de Operações de Informações) em São Paulo, entre 29 de setembro de 1970 e 23 de janeiro de 1974, 45 mortes e desaparecimentos forçados foram registrados, de acordo com dados da Comissão Nacional da Verdade.

 

É preciso lembrar que a posição de Ustra, como figura-fetiche ou ídolo de Bolsonaro, também foi celebrada pelo Presidente, em outras ocasiões históricas da política nacional, como no pronunciamento que fez o então deputado, durante a primeira fase de votação do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Ao declarar seu voto a favor da cassação, bradou Bolsonaro: “pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra”. Mais recentemente, em agosto, quando o Presidente da República recebeu, no Palácio do Planalto, Maria Joseíta Silva Brilhante Ustra, a viúva de Ustra, Bolsonaro reiterou: “Tem um coração enorme. Eu sou apaixonado por ela. Não tive muito contato, mas tive alguns contatos com o marido dela enquanto estava vivo. Um herói nacional que evitou que o Brasil caísse naquilo que a esquerda hoje em dia quer”.

 

De fato, Ustra pode ser considerado o arquienunciador (uma espécie de guru) de Bolsonaro, aparecendo em momentos-chave de pronunciamento público do político. Na fase de  campanha eleitoral, por exemplo, Bolsonaro afirmou, em entrevista ao programa de TV Roda Viva, que tinha, como livro de cabeceira o título “Verdade Sufocada”, assinado por Ustra. E, já como presidente, Bolsonaro citou novamente este livro do coronel, para argumentar que Fernando Santa Cruz, pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, teria sido assassinado por militantes de esquerda, e não por agentes do Estado durante a ditadura, segundo defendeu o chefe de Estado.

 

Da realidade da canção para a realidade histórica e vice-versa

Mas qual a relação entre esta cançãodenúncia de Belchior e Jair Bolsonaro, considerando a história entre o período autoritário do Brasil e a situação política do país de hoje?

 

Ouça “Populus” e interprete você mesmo!

 

Não olvidemos, contudo, que “Populus” “é somente uma canção! A vida realmente é diferente. Quer dizer… Ao vivo é muito pior!”.

 

Josely Teixeira Carlos é pós-Doutora em Análise do Discurso e Música pela Paris X. Doutora em Letras pela USP/Sorbonne. Pesquisadora da USP, com mestrado e doutorado sobre Belchior


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