A Onda Conservadora dos Xiitas no Brasil
Quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A Onda Conservadora dos Xiitas no Brasil

Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil – Arte: Gabriel Pedroza – Justificando

 

Por Timóteo Bezerra da Silva

 

Nos últimos dias foi possível ver um raio-X do Brasil, o país está fraturado. Atualmente vivemos a maior crise de nossa história recente, anos de recessão econômica, milhões de desempregados, contudo a maior crise que enfrentamos é a crise da civilização, o colapso de uma sociedade polarizada que não consegue mais se ouvir, muito menos estabelecer o diálogo.

 

Quem acompanhou o julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre a prisão em 2ª instância e posteriormente acompanhou a soltura do ex-presidente Lula, e agora testemunha a tara para que se mude a Constituição Federal[1] considerando trânsito em julgado a decisão em 2º grau presenciou o caos, de modo que aquele que é favorável ao que diz a Constituição Federal de considerar culpado e poder ter sua liberdade em regra retirada apenas após o esgotamento de todos os recursos é considerado um traidor da pátria, alguém favorável à corrupção. Adeus! Direitos e garantias fundamentais.

 

Entretanto, do outro lado do tabuleiro temos os paladinos da justiça, os conservadores do Estado de Direito, aqueles que lutam em tese por um país onde a lei tenha validade a todos, mas será mesmo assim? O clérigo Henri Dominique Lacordaire dizia que “Entre os fortes e os fracos, entre ricos e pobres, entre senhor e servo, é a liberdade que oprime e a lei liberta”.

 

Com base nisso, com honestidade intelectual mostrando paridade de armas jogarei no terreno da epistemologia conservadora, utilizando-me do que os verdadeiros teóricos do conservadorismo dizem sobre lei, sociedade e justiça, e assim buscar entender se no Brasil tem-se conservadores de fato ou é só o velho fascismo mostrando que está no cio. 

 

Um princípio básico que todo conversador sabe ou deveria saber é o respeito à ordem legal, a lei é aquilo que dá ao Estado a consistência, a validade, o legitima, por exemplo, em ter o monopólio da força, o direito de punir alguém. Frédéric Bastiat[2], filósofo conservador francês, no seu livro “A Lei”, vai dizer que a lei é a justiça, infelizmente hoje no Brasil, ser conservador virou uma palavra da moda, é “cool” se definir como conservador, sobretudo após uma temporada de governos chamados de esquerda, todavia, a grande maioria daqueles que se autodenominam conservadores no Brasil, apenas se travestem usando a fantasia de conservadores, que tiram ou colocam quando é conveniente, e felizmente, o ordenamento jurídico sob o qual repousa as bases da sociedade não pode se permitir ao luxo de se render a conveniências.

 

A primeira coisa que precisa ser dita é que Direito e paixão não se misturam, e todas as vezes que essa união ocorreu na história do mundo, tragédias e barbáries foram cometidas em nome do bem comum. 

 

Assim, viver em sociedade naturalmente significa viver em conflito, e é através da democracia que se busca o equilíbrio nesses conflitos, contudo, o que se ver pelos chamados conservadores é a recusa de jogar o jogo democrático, não aceitando a soberania da Constituição tentam moldar as regras de forma que agrade suas paixões, Bastiat chamou isso de “espoliação legal”, toda vez que o legislador busca mudar a lei para que ela se curve diante do seu interesse, conveniência ou paixão, Bastiat vai além e diz que pessoas assim corrompem o propósito da lei, afirmação essa verdadeira, sobretudo quando o legislador usa de sua função para extinguir um princípio que não pertence a esquerda ou a direita, presunção de inocência é um direito conquistado pela humanidade por meio de um longo período de lutas contra arbítrios e injustiças dos detentores do poder.

 

Leia também:

A Vitória Pírrica na Segurança Pública do Rio de JaneiroA Vitória Pírrica na Segurança Pública do Rio de Janeiro

Todavia, e aqui me utilizo dos ensinamentos de Francis Schaeffer[3], o ser humano é conhecido como um ser racional, entretanto, a nossa sociedade contemporânea há muito deixou de ser uma sociedade que pensa para se tornar uma sociedade que apenas sente tudo nós resolvemos com sentimentos, emoções, paixões “siga o seu coração” é o slogan do século XXI, esse nosso momento é o que Schaeffer vai chamar de “morte da razão”.

 

Roger Scruton[4], um filósofo britânico, vai dizer que ser um conservador em sua essência é amar as coisas que herdamos e desejar reafirmar essa herança. De acordo com Scruton, a sociedade brasileira está lastreada em três pilares sob os quais se encontra nossa herança enquanto civilização.

 

O primeiro pilar é a Civilização Ocidental, nós somos herdeiros da democracia grega, e viver em democracia é viver sob a arte da divergência e mesmo assim sermos capazes de respeitar o outro. Os debates na democracia acontecem apenas no campo das ideias, nunca no âmbito pessoal através de ofensas gratuitas, de agressões de qualquer tipo, dos discursos de ódio e pelo desprezo por quem pensa diferente, e no Brasil, infelizmente chegamos a esse nível, com debates superficiais, mas mais que isso, perdeu-se o respeito pelo outro, nossas paixões acaloradas solapam qualquer tipo de racionalidade principalmente no debate público.

 

O segundo pilar que sustenta nossa sociedade é o Estado de Direito, ou seja, o respeito às leis, e esse no Brasil vem sofrendo diversos golpes e ataques. O nosso ordenamento jurídico se transformou em um grande “self service” ou Direito à la carte como diz o professor Aury Lopes Jr, que ora queremos nos servir da lei contra as injustiças, as mazelas, as desigualdades, mas quando essa mesma lei vai contra as nossas paixões, nossos sentimentos pessoais, nós a desprezamos, não aceitamos; obviamente agindo assim; instaura-se na sociedade o que muito se fala hoje: insegurança jurídica.

 

Em considerável medida, o judiciário brasileiro tem responsabilidade sobre esse estado de instabilidade que o país vive, pois todas as vezes que um juiz encarna o personagem famoso nas histórias de “Alice no País das Maravilhas”, Humpty Dumpty[5] que diz à Alice que as palavras têm o significado que ele quer, há um enorme prejuízo, e não raras vezes injustiças, pois um juiz jamais decide conforme lhe aprouver, o juiz decide conforme a lei, e é ai que repousa as bases de um país respeitável. 

 

Segundo Scruton, o terceiro pilar da sociedade brasileira e também nossa herança é o Cristianismo, que somente no Brasil abarca 90% de sua população, são mais de 120 milhões de católicos e mais de 40 milhões de evangélicos, os números são consideráveis. Desta feita, nos últimos anos pudemos observar o crescimento de uma chamada “direita cristã” no Brasil, cuja pauta de atuação desse gueto social são questões morais e mais recentemente a pauta política ideológica.

 

Nos últimos dias, foi possível acompanhar pelas redes sociais líderes religiosos conclamando o país a oração pelo momento atual do Brasil, o curioso foi que essa convocação veio logo após a decisão do STF sobre a possibilidade de prisão em 2º grau e a libertação do ex presidente Lula. Isso é reflexo de uma igreja que preza pela pauta da militância sobre questões ideológicas, políticas, e o que é mais grave, mostra uma igreja com líderes que não aprenderam ainda a viver em democracia, a respeitar o Estado de Direito, logo temos setores reacionários dentre de uma instituição que em tese não se move por questões ideológicas ou políticas.

 

Leia também:

Qual seria o grau de consciência do governo Bolsonaro?Qual seria o grau de consciência do governo Bolsonaro?

Roger Scruton em seu livro “O que é conservadorismo” vai falar que a igreja é uma instituição com objetivo que não é desse mundo, mas que está nesse mundo, porém vende-se como uma “causa social”, dificilmente ficamos surpresos se o resultado disso é não apenas um moralismo vazio, mas também uma teologia ridícula.

 

A chamada direita cristã no Brasil, reacionária, que mais sonha com uma teocracia xiita, que um Estado democrático de fato, traveste-se de piedade e um discurso de amor, mas com uma atuação distinta do discurso, haja vista que se fossemos de verdade um país que vivesse sob os valores cristãos com pessoas realmente comprometidas com questões estruturais como amor ao próximo, justiça generosa, desenvolvimento social sustentável, a realidade brasileira seria diferente.

 

Um dos problemas de ignorarmos a história e que corremos o risco de não valorizarmos o legado que nos foi entregue a um custo altíssimo. É patente que o nosso sistema tem problemas e muita coisa precisa ser melhorada, porém não é colocando fim ao um legado de conquistas civilizacionais que vamos melhorar as condições de vida no nosso país. A história da civilização é uma história de lutas por direitos.

 

Edmund Burke[6], considerado pai do conservadorismo britânico, vai dizer que dentro desse contrato social lastreado pela Constituição de um país, temos responsabilidades não somente com aqueles que estão vivos, mas devemos respeitar e honrar o legado daqueles que se foram, bem como deixar um legado para os que virão. E quantos dos nossos irmãos e irmãs empreenderam as suas vidas lutando e as vezes até morrendo para que hoje tivéssemos direitos e garantias fundamentais como a presunção de inocência que agora queremos extinguir?

 

Existe algo que deve ser indelével em nossos espíritos, em nossos corações, em nossa mente, nenhum dos direitos que temos hoje foi nos dado de bom grado, o usufruto dos direitos que temos hoje como liberdade de expressão, presunção de inocência, propriedade privada, vida, liberdade, devido processo legal, direitos trabalhistas, e etc., todos esses direitos que permitiram o desenvolvimento civilizacional do ocidente foram conquistados durante um árduo período de lutas históricas. Não nos esqueçamos do movimento pelo fim da escravidão, o movimento sufragista, a luta pelos direitos civis dos negros na América, a luta pelo fim do Apartheid, a luta pelos direitos humanos, a luta pelos direitos trabalhistas, a proibição da tortura, temos uma história de resistência, de lutas, e de modo algum podemos dispor disso por paixões convencionais transitórias.

 

A Batalha de Gettysburg, ocorrida em 1863 no Estado da Pensilvânia – EUA, foi a batalha mais cruel e sangrenta durante a Guerra Civil americana, mais de 50 mil mortos em apenas 3 dias de combate, o curioso é que os americanos não estavam lutando contra o inimigo estrangeiro para defender o seu país, aquela era uma luta entre irmãos compatriotas.

 

Com o campo de batalha pintado de vermelho, banhado com o sangue dos jovens americanos vítimas dos disparos de seus próprios irmãos, o ódio e o rancor os destruiu, a Guerra da Secessão ou Guerra da Separação foi a guerra de uma sociedade sectária, polarizada, a guerra levou a morte milhares de pessoas, deixou um país rachado, cheio de ressentimentos, feridas que levaram tempo para curar e algumas ainda hoje estão abertas. Talvez possamos aprender com os mortos, ou nós nos unimos e deixamos de lado a paixões que nos governam e nos separam, ou seremos igualmente destruídos, esse é o legado do qual Burke se referiu.

 

 

Timóteo Bezerra da Silva é técnico em gestão educacional na Secretaria de Educação do Distrito Federal.


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

[1]  http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm, Art. 5º, inciso LVII, Art. 60, § 4º, inciso IV, ultimo (acesso em 16/12/2019).

[2] BASTIAT. Frédéric. A Lei – As Bases do Pensamento Liberal. Tradução Eduardo Levy. 1ª Ed. São Paulo. Faro Editorial. 2016.

[3] SCHAEFFER. Francis. A Morte da Razão. Tradução João Bentes. 2ª Ed. São Paulo. Ultimato. 2014.

[4] SCRUTON. Roger. O que é Conservadorismo. Tradução Guilherme Ferreira. 1ª Ed. São Paulo. É Realizações. 2015.

[5] CARROLL. Lewis. Alice através do espelho e o que ela encontrou lá. Tradução Sebastião Uchoa. Editora 34. São Paulo. 2015..

[6] BURKE. Edmund. Reflexões sobre a Revolução na França. 1ª ed. São Paulo. Edipro. 2019.

Quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend