Nem empresas, nem sociedade
Sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Nem empresas, nem sociedade

Imagem: Antonio Cruz/Agência Brasil

 

Por Catia Eli Gemelli Aline Mendonça Fraga

 

No dia 03 de janeiro de 2020, ao sair do Palácio da Alvorada, o presidente Jair Bolsonaro fez uma nova declaração¹ polêmica a jornalistas: 

 

 

“Tem livros que vamos ser obrigados a distribuir esse ano ainda levando-se em conta a sua feitura em anos anteriores. Tem que seguir a lei. Em 21, todos os livros serão nossos. Feitos por nós. Os pais vão vibrar. Vai estar lá a bandeira do Brasil na capa, vai ter lá o hino nacional. Os livros hoje em dia, como regra, é um amontoado… Muita coisa escrita, tem que suavizar aquilo”.

 

Essa declaração, em especial, a ideia de que os livros didáticos são lixo e um amontoado de coisas escritas que devem ser suavizadas, foi debatida e analisada em vários artigos de importantes veículos de comunicação, e muito bem comentada por pesquisadoras e pesquisadores da área da Educação. Este artigo dedica-se a analisar a continuidade dessa polêmica declaração de Jair Bolsonaro tão logo começou seu segundo ano de governo. 

 

Na sequência da declaração, que também incluiu a incansável crítica ao educador e patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire, o presidente Jair afirmou:

 

“Devemos buscar cada vez mais facilitar a vida de quem produz, fazer com que essa garotada aqui tenha um ensino que vá ser útil lá na frente. Não ficar nessa historinha de ideologia. Esse moleque é macho, pô. Estou vendo aqui, o moleque é macho, pô. E os idiotas achando que ele vai definir o sexo quando tiver 12 anos de idade. Sai pra lá.”

 

Neste trecho, destacam-se outras duas questões constantemente presentes na narrativa construída por Jair e sua equipe de governo, principalmente o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, e a Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves: o discurso de que a Educação servirá aos princípios econômicos e a aversão à educação para a diversidade (sob a alcunha delirante do “combate à ideologia de gênero”).

 

No twitter oficial do presidente, por exemplo, há uma mensagem postada no dia 12 de janeiro que diz “Livro didático no Governo Jair Bolsonaro: mais barato e sem política ou ideologia de gênero”. O tweet inclui ainda um vídeo em que Abraham fala sobre a distribuição dos livros didáticos e afirma que nas edições futuras “não vai ter ideologia e pronto. É pra ensinar a ler, a escrever ciência, matemática… não é pra doutrinar. Isso é coisa do passado. Daqui pra frente, só coisa boa”.

 

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Contudo, a intenção de fazer desaparecer qualquer discussão sobre gênero e sexualidade nos espaços escolares vai na contramão das novas exigências do mercado de trabalho. Ou seja, não “facilita a vida de quem produz” (empresas) e muito menos propicia para “a garotada” um estudo que “vai ser útil lá na frente”.

 

Na lista das melhores empresas para se trabalhar figuram organizações nacionais e multinacionais, como gigantes da área de tecnologia de informação, bancos com lucros bilionários, entre outras empresas que vem crescendo em “cenário de crise”. Como atesta a Great Place to Work (GPTW)² – autoridade de referência global no mundo do trabalho e especializada em colocar organizações na concorrida lista – todas essas empresas têm em comum políticas e práticas de diversidade e inclusão. 

 

Estar de fora da discussão sobre diversidade é estar de volta ao passado. O mundo do trabalho, daqui pra frente, exige que as oportunidades sejam para todas, todes e todos e aborda a diversidade como pauta estratégica e lucrativa. As diversidades, que incluem a de gênero e de sexualidade (LGBTQI+), também reforçam a importância de debates sobre políticas de inclusão étnica-racial, de pessoas com deficiência, de imigrantes e refugiados e o respeito a pluralidade de religiões e culturas.

 

A narrativa de Jair ainda criticou o alegado “incentivo a militância” do “governo de esquerda”, que “[…]Chegou ao cúmulo de acabar com uma escola como o Colégio Pedro II, no Rio. Acabaram com o Pedro II. Menino de saia, MST lá dentro. E outras coisas mais que não quero falar aqui”. Vale destacar que o Colégio Pedro II ficou entre as instituições de ensino com o melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2018 entre as instituições de ensino públicas no estado do Rio de Janeiro, de acordo com o ranking da ZBS, empresa de tecnologia

 

Ao contrário do que diz o presidente, as grandes empresas buscam atualmente muito mais do que funcionários/as que saibam fazer uma regra de três simples. A procura é por profissionais que respeitem a diferença e se sintam seguros para serem quem são (usar saias, se for vontade, e não usar, se não for). É assim que se amplia o potencial criativo e de inovação que, por consequência, gera mais competitividade e valor para as empresas. Ao ignorar a diversidade, organizações perdem dinheiro, na medida em que deixam de lado um grupo significativo de consumidoras/es. Grandes corporações já se deram conta de que homofobia, transfobia e sexismo prejudicam o desempenho econômico. O bom e velho capitalismo valoriza o pink Money (o dinheiro rosa, jargão para o potencial de consumo do público LGBTQI+) e o gay index (o índice gay, ligado a criatividade empresarial). 

 

Desta forma, uma educação conservadora, tolhida e pouco plural não apenas deixa de cumprir o papel social da Educação, como também vai de encontro às novas exigências das empresas que oferecem postos de trabalho altamente qualificados (e sendo assim, bem remunerados). Trata-se de um projeto educacional que não é “útil” nem “a quem produz”, muito menos à “garotada” que em breve será inserida no mercado de trabalho.

 

 

Catia Eli Gemelli é Doutoranda em Administração na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. e professora de Administração no Instituto Federal do Rio Grande do Sul

Aline Mendonça Fraga é doutora em Administração na Universidade Federal do Rio Grande do Sul


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Notas:

[1] https://exame.abril.com.br/brasil/bolsonaro-diz-que-livros-didaticos-tem-muita-coisa-escrita/; https://hashtag.blogfolha.uol.com.br/2020/01/06/2020-o-ano-em-que-livro-virou-um-montao-de-amontoado-de-muita-coisa-escrita/; https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-diz-que-livros-didaticos-tem-muita-coisa-escrita-e-pede-estilo-mais-suave,70003142807 – Acesso em 16 de janeiro de 2020.

[2] Sítio virtual da Great Place to Work. Disponível em: < https://gptw.com.br/> Acesso em 16 jan. 2020.

[3] https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2019/06/5654027-colegio-pedro-ii-esta-entre-as-melhores-escolas-do-estado-em-ranking-do-enem.html. Acesso em 16 jan. 2020

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