A biopolítica que exalta o consumo e destrói democracias
Sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A biopolítica que exalta o consumo e destrói democracias

Imagem: Justificando

 

Por Francivan Amorim Oliveira

 

Historicamente, temos acreditado na democracia que se apresenta a todos nós. Desde a Grécia Antiga, esse regime é aceito sem críticas racionais suficientes, excetuando raros e fleumáticos filósofos, como Sócrates e Aristóteles, cujas propostas eram em geral retrógradas.

 

 

Sabemos que, naquela época, a escravidão e o ostracismo político existiam, restringindo o envolvimento público a poucos, enquanto a maioria do povo não acessava a Ágora. Cabe perguntarmo-nos, então, se um sistema que se define a priori pelo poder popular não passa de uma ficção contada século após século.

 

Se pensarmos bem, a democracia ateniense foi estabelecida por oligarcas. Clístenes, aristocrata grego, liderou a revolta que pôs abaixo o tirano Hípias. Antes, a cidade-estado esteve sob a égide dos “eupátridas”, os quais controlavam a polis. Segundo Aristóteles, “a democracia surgiu quando, devido ao fato de que todos são iguais em certo sentido, acreditou-se que todos fossem absolutamente iguais entre si”. Não se trata de defender, a partir das dúvidas aqui colocadas, a autocracia; ao contrário, procuro encontrar a democracia que segue os próprios princípios etimológicos (demo – povo; cracia – poder). Até mesmo Platão chegou a dizer: “A democracia é uma constituição agradável, anárquica e variada, distribuidora de igualdade indiferentemente a iguais e a desiguais”. Para seu discípulo Aristóteles, menos afeito à “plebe”, as pessoas não deviam ser a tal ponto equiparadas. Porém, a questão que desejo levantar concerne às constantes exclusões que atingem indivíduos subalternizados. 

 

Michel Foucault, nas suas diversas obras, deslinda as forças coercitivas, que determinam a justiça, o governo, a ciência, enfim, as estruturas de onde provém máximas já introjetadas. Logo, o diferente se vê aglutinado a heterotopias (espaços não hegemônicos) físicas e necessariamente mentais. Assim sendo, localizados nessas camadas específicas, os “réprobos” são caracterizados através de mecanismos eficientes: a psiquiatria, o direito, a mídia etc. A disciplina, escreve ele, “fixa os limites pelo jogo de uma identidade que tem a forma de uma reatualização permanente das regras”. Com domínios sobrepostos, os alicerces a nos sustentar se relacionam hierarquicamente. A economia sempre sublimou a política, pois não adianta exercer o “voto livre” se interesses variados impedem os trabalhadores, que buscam garantir a mínima subsistência, de refletirem sobre escolhas muitas vezes inconscientes – e, enfatizo, não por mera inépcia, mas sim considerando o intuito exterior de afastá-los das informações. O desespero leva a alternativas idílicas dependentes de figuras heroicas em voga.

 

Nossas verdades resistem ao teste de realidade?Nossas verdades resistem ao teste de realidade?

A filósofa Hannah Arendt, em A Condição Humana, distingue labor e trabalho. O primeiro, supervalorizado, abrange a esfera mecânica, limitando o que ela intitula de vita contemplativa; e o último constrói o mundo comum subjetivamente, dado que ele não se acha reduzido a impulsos condicionantes. Conforme o animal laborans (de rebanho) substitui o homo faber (aquele que cria), discursos homogêneos ganham vigência. Isso permite o desenrolar de concepções totalitárias ou extremistas baseadas nesses conceitos normalizadores.

 

Portanto, a efetiva democracia prescinde de fatores essenciais. A globalização, que marcou o início do século XXI, nos conduz a terríveis atividades laborais, porque agora sentimos que o planeta se tornou uma grande arena de combate mútuo. Caso o “capitalismo de vigilância”, definido pela norte-americana Shoshana Zuboff, progredir a escalas astronômicas, seremos submetidos à política da mentira que invade a autonomia de outrem como parte dela. “A política baseia-se na pluralidade dos homens”, afirma Hannah Arendt. Posto isto, as manadas arregimentadas a grupos antípodas e distanciados simbolizam o perigo contemporâneo, implantando fantasias que venham a calhar no seio da sociedade para atrair adeptos. A pluralidade dos homens significa a pluralidade das ideias que possam conviver juntas, não excluindo-se reciprocamente – algo longínquo do espectro atual.

 

Contudo, a democracia não morreu – nem morrerá tão cedo, suponho – em nosso imaginário, visto que continuamos a dotá-la de um papel irrevogável a despeito das circunstâncias. Hoje, o controle e seus ardis assenhorearam a vida, fundados numa enorme biopolítica que exalta o consumo produtor e produtivo. Sair dessas malhas traiçoeiras demanda a compreensão que ora nos falta referente aos impactos diretos de decisões tomadas a reboque. É engano conceber a liberdade como resumida só à livre-expressão; se falarmos e, por outro lado, não conseguirmos avaliar pesos e medidas, ou melhor,  ponderar os fatos, a emancipação concreta se revela quimérica. Destarte, cada homem e cada mulher carecem para tanto de moradia, lazer e alimento. A verdadeira democracia é utópica, mas o horizonte deve permanecer firme.

 

 

Francivan Amorim Oliveira tem dezessete anos e, por ora, não apresenta um currículo vasto.


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