O não dito do racismo brasileiro
Segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

O não dito do racismo brasileiro

Imagem: Solon Neto / Alma Preta

 

Por Nathália Antonieta Avellar 

 

O racismo brasileiro se atesta e exerce-se na sua sutileza e naturalidade, formando um crime perfeito. Se por uma via o racismo formal atestado por meio de leis nos deixa evidente a discriminação baseada na raça, em casos como o período do Apartheid na África do Sul, o racismo informal nos presenteia com a dúvida. A informalidade do racismo, que ainda é presente estruturalmente, permite que ele se dilua em outras categorias. Assim, o racismo vira piadas, acasos, preferências estéticas, atitudes suspeitas e outras categorias que poderíamos delimitar mas que no fundo se baseiam na mesma base e objetivo: a discriminação racial. 

 

 

Quando falamos do Brasil o racismo consegue se fazer ainda mais sutil. Isto porque no Brasil consideramos nós mesmos como um país miscigenado. E assim como país miscigenado que somos todos nós teríamos um pouco de branco e um pouco de negro, um pouco de tudo e assim somos todos iguais e convivemos pacificamente. E de fato somos um país miscigenado mas esta miscigenação em qualquer momento pressupôs igualdade. 

 

Em primeira mão ignoramos como esta miscigenação foi feita e seus respectivos porquês, que nos leva novamente à estaca do racismo. A miscigenação brasileira foi fruto de processos complexos como a sexualização das mulheres indígenas e negras escravas e o estupro destas mulheres por parte dos homens brancos colonos. Além disto, a miscigenação brasileira também foi fruto de um projeto de embranquecimento do país. Apesar de ter sido evidentemente falho este projeto acreditava no branco como uma raça superior e a partir da incentivada miscigenação com os brancos esperava que as novas gerações brasileiras fossem se embranquecendo até apagar todos os traço de negritude um dia já tidos. 

 

Desta forma, não podemos pensar na miscigenação como um fator que nos iguala socialmente uma vez que esta mesma já partiu da própria discriminação racial. Não podemos achar que impede que façamos nossas leituras sociais de quem é negro e branco porque de fato não nos impede, assim como não impede a desigualdade racial estrutural. Em 2016, segundo o IBGE, a taxa de analfabetismo entre a parcela branca da população era de 4,2%, já a a taxa de analfabetismo da parcela negra da população já era de 9,9%. Neste mesmo relatório podemos ler o seguinte relato: 

 

“Quando sai com sua filha, de pele bem branca e cabelos claros, muitas vezes é tratada por estranhos como a babá da criança. Certo dia, estava no mercado e reprimiu a filha por uma pirraça. Foi, então, abordada por uma senhora, que disse: ‘A mãe da menina sabe que você fala com ela assim?’.”

 

Danielle Cavadas, autora do relato, é fruto dessa miscigenação brasileira. 

 

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Filha de mãe negra e pai branco, o caso de Danielle nos mostra que independente de qualquer mestiçagem fazemos sim nossas próprias leituras sociais de quem é negro e quem é branco, e assim quem consideramos em posições superiores e inferiores. O mito da igualdade racial brasileira é isto, apenas um mito. E é através dele que afundamos nosso racismo ainda mais em um local de não dizer e sutileza. 

 

Afinal, se não temos uma diferença racial entre nós como algum evento ocorrido pode ter sido fruto de discriminação racial? E este é um dos passos em que nós velamos nosso racismo. Para além disto isolamos os eventos ao invés destes serem colocados em uma perspectiva de semelhança. Assim, episódios de racismo vão se tornando eventos fragmentados em que foram apenas uma piada, só uma coincidência ou apenas uma paranóia de sua vítima. E desta forma criamos uma imaginário de um país que apesar de ter sido construído integralmente em uma base racista e assim estruturado que quase nunca possui qualquer ato racista ou pessoas racistas. 

 

Entretanto, mesmo diluídos e mascarados os atos racistas seguem ocorrendo. A filósofa, feminista e escritora Djamila Ribeiro, ao citar o antropólogo e professor Kabengele Munanga, em entrevista consegue sintetizar toda esta questão quando diz:  “Aqui, o racismo é o crime perfeito, ou seja, é evidente, promove desigualdade e as pessoas ainda estão negando que ele exista.” 

 

Assim, diluímos o racismo ao ponto de que ele se torna apenas uma mera interpretação. Um evento racista como ser confundida com uma babá ou ser seguido por seguranças em um shopping se transforma em um “mas você tem certeza?”; “Ah mas, pode ser que não tenha sido bem isso.” No fundo sabemos o que são estas coincidências, sabemos também que não são coincidências que ocorrem com pessoas brancas. Mas o racismo brasileiro consegue ser eficaz ao ponto de fazer com que até pessoas negras se questionem sobre o ato de racismo sofrido. 

 

O racismo por vezes também se vela ao ponto de tornar-se um incômodo, uma sensação quase sem elaboração explicativa. É um olhar, um tom de voz, a simples ausência de pessoas negras em um local que no fim produzem a discriminação racial na forma de uma sensação. Uma sensação de incômodo, não pertencimento, inferioridade e até vergonha que pessoas negras vão sentindo. A escritora Elisa Lucinda aborda a problemática durante entrevista “Diálogos Ausentes” promovida pelo Itaú Cultural em 2017: 

 

“Todo mundo sabe o que eu vou dizer agora. A coisa mais triste é você chegar, e isso é o que mais acontece, nos ambientes onde tem maioria branca – e o Brasil precisa falar assim: precisamos ver isso -, e então o que eu sinto de ruim é um olhar que diz assim: ‘O que que você tá fazendo aqui? Aqui não é o seu lugar'”

 

A escritora prossegue na mesma entrevista ao explicar a dificuldade de elaboração do sentimento causado pelo racismo não dito, a discriminação por simples gestos e sutilezas: 

 

“Não é flagrável, isto pode se confundir com paranoia. Se toda hora você sente esse olhar, tudo você acha que é isso. E além disso você não tem como provar mesmo. A pessoa pode simplesmente dizer:  ‘Isso é impressão sua’. Muito difícil, mas todo mundo sabe o que é. Todo mundo que é preto sabe o que é.”

 

Por isso eu também parafraseio o antropólogo e professor Kabengele Munanga e digo que no Brasil o racismo é um crime perfeito. É perfeito pois se dilui em categorias o suficiente para que ele haja como se não existisse. Porém em uma sociedade pautada e estruturada por meio dele o racismo existe. Não apenas existe como é operante.   

 

Sua estrutura velada apenas exime quem tem uma atitude racista de se ver tendo uma atitude racista e retira o poder da vítima do racismo de denunciar o ato. Todavia, em qualquer momento a sutileza do racismo brasileiro retira o racismo de suas atitudes e nem a dor de quem o sofre. Assim, ele é, no Brasil, um crime perfeito, pois ao se atestar e exerce-se por meio de sua sutileza e certa naturalidade ele absolve quem o pratica e retira a fala de quem o sofre. Porém sua sutileza nunca retira a dor de quem o sofre nem a discriminação racial por trás dele.

 

 

Nathália Antonieta Avellar é graduada em Relações Internacionais pela PUC-MG e possui especialização em políticas de cuidado com perspectiva de gênero pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales.


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Referências:

 

  • ELISA Lucinda – Diálogos Ausentes (2017). Produção de Roberta Roque. Realização de Gabriel Carneiro. Coordenação de Kety Fernandes Nassar. Intérpretes: Elisa Lucinda. Roteiro: Gabriel Carneiro. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. (9.2 min.), P&B. Legendado. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=w5UBFd0wZ94>. Acesso em: 21 jan. 2020.
  • GOMES, Irene; MARLI, Mônica. As cores da desigualdade. Retratos: A revista do IBGE, Rio de Janeiro, v. 11, n. 11, p.8-11, maio 2018. Disponível em: <https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/17eac9b7a875c68c1b2d1a98c80414c9.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2020.
  • PÁGINA22. O crime perfeito. 2016. Disponível em: <http://pagina22.com.br/2016/02/04/o-crime-perfeito/>. Acesso em: 22 jan. 2020.
  • SALES JÚNIOR, Ronaldo Laurentino de. Raça e Justiça: O mito da democracia racial e o racismo institucional no fluxo de justiça. 2006. 476 f. Tese (Doutorado) – Curso de Programa de Pós Graduação em Sociologia, Universidade Federal de Pernambuco, Pernambuco, 2006. Disponível em: <https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/9747/1/arquivo9288_1.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2020.
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