Abstinência sexual na adolescência não resolve coisa alguma
Quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Abstinência sexual na adolescência não resolve coisa alguma

Imagem: Valter Campanato / Agência Brasil

 

Por Joice Melo

 

Uma estratégia polêmica baseada em ideologias pessoais fez os atuais ministros Damares Alves e Luiz Henrique Mandetta lançarem no dia 03 a Campanha de Prevenção da Gravidez na Adolescência, cujo o objetivo é mostrar aos jovens que a abstinência sexual é a melhor solução para resolver o problema da gravidez na adolescência que, segundo a OMS (2018), atinge por ano mais de 400 mil jovens.

 

 

Sabemos que a gravidez precoce atinge muitas meninas justamente por causa da falta de informação e, em alguns casos, violência sexual. Por mais que para muitos a informação possa ser algo totalmente acessível, para outros, não, por isso, é bom olhar além da bolha e se atentar ao fato que os maiores casos desse problema de saúde pública são maiores na região Nordeste, concentrando 180 mil nascidos ou 32% do total. Na região Sudeste, com 179,2 mil (32%), região Norte com 81,4 mil (14%), a região Sul (62.475–11%) e a Centro Oeste (43.342–8%).

 

Dizer que os adolescentes precisam parar de transar é basicamente fechar os olhos para esses números tão alarmantes, é não olhar para os principais motivos que levam a essas gravidezes e negligenciar todo abuso e falta de informação que muitos adolescentes ainda passam atualmente.

 

Outro fato interessante e muito machista neste caso, é lançar a campanha pautando apenas meninas, como se elas engravidassem sozinhas e como se todo esse peso de uma gravidez indesejada fosse somente delas fechando os olhos para a falta de comunicação, informação e abusos que elas sofrem e como se meninos não fossem interessante nesta campanha. Não vemos em escolas aulas de educação sexual que pautam métodos contraceptivos e informações sobre abusos.

 

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Alguns conservadores, infelizmente, acreditam que essas práticas irão incentivar os jovens a fazerem mais sexo, mas é totalmente o contrário, essas ações são importantes para que muitos entendam que o corpo do aluno em questão, não pode ser tocado sem consentimento e que métodos anticoncepcionais e de proteção às IST’s são armas fundamentais para que este problema diminua aos poucos.

 

Em São Paulo, 184 mil casos de violência sexual contra crianças e adolescentes foram registrados entre 2011 e 2017. Um caso recente até mostrou que em uma palestra sobre educação sexual, uma menina de 8 anos revelou ter sido abusada pelo pai de uma colega quando ia até a casa dela. Além disso, é importante dizer que 72% das pessoas estupradas são menores; 18% têm até 5 anos (Ministério da Saúde), ou seja, educação sexual nas escolas não ensina a fazer sexo, mas a se proteger de abuso, infecções sexualmente transmissíveis e gravidez na adolescência.

 

Mas parece que um jovem iniciar sua vida sexual é bem pior do que ele saber que pode se proteger, tudo isso por conta de uma ideologia pessoal e cristã num país que deveria ser laico. Infelizmente, muitas famílias abraçam essa ideia da ministra justamente também por conta das suas convicções e informações suficientes. Falar pro jovem que a falta de sexo é importante para se proteger, é como dizer: VAI E FAZ e se eles fazem, é importante que façam isso com segurança.

 

 

Joice Melo é pós-graduanda em comunicação e marketing digital, além disso, pesquisa sobre Fake News e sua relação com a política. É também editora da Revista Mães que Escrevem.


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