Sim! Precisamos falar sobre o drama da educação no Brasil
Segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Sim! Precisamos falar sobre o drama da educação no Brasil

Imagem: Tânia Rêgo / Agência Brasil

 

Por Timóteo Bezerra da Silva

 

Nas palavras do economista e professor Eduardo Giannetti, o futuro do Brasil não será definido nas reuniões do Conselho de Política Monetária (COPOM), ou tão pouco nas profundezas do pré-sal, ou mesmo nos pregões da bolsa de valores; o futuro do Brasil será decidido nas milhares de salas de aulas espalhadas por esse país, afinal, sempre ouvimos os dizeres que o futuro do país está na educação.

 

 

Entretanto o drama da educação brasileira remonta de tempos antigos, na verdade, educação nunca foi uma prioridade desse país, não o foi nos tempos do Brasil colônia em que a educação era destinada para a elite local, os filhos dos senhores de escravos, e até mesmo a educação oferecida pelos jesuítas ao povo, e povo entenda-se, escravos e índios, era com objetivo de catequizá-los para melhor servir à igreja e à coroa portuguesa, vide, por exemplo, que muitos jesuítas logo abandonaram as atividades “educativas” para se dedicar exclusivamente ao tráfico negreiro, pelos menos era mais honesto, do que travestidos de santos e em nome de Deus, promoverem verdadeiras barbáries no tão jovem Brasil.

 

A fratura da educação brasileira ainda não foi curada, ela perpassa a história e se prolonga até os nossos dias. Enquanto que países como os EUA que tiveram a criação de suas universidades praticamente paralela ao nascimento da nação, pois sabiam os seus fundadores que sem ensino, sem educação, essa nação não se sustentaria. O Brasil só foi ter sua primeira universidade após 300 anos do seu nascimento oficial, pois Portugal proibira que se criassem universidades no país.  Apenas no século XX, com mais de um século de atraso em relação aos EUA, o Brasil foi universalizar a educação fundamental, e, diga-se de passagem, ainda de modo bastante precário, rudimentar até.

 

Algumas das maiores empresas hoje que dominam a economia global nasceram dentro de universidades, crianças em alguns países recebem educação financeira, aulas de programação, internet das coisas, a revolução industrial 4.0 chegou às escolas, enquanto que nós temos alunos que terminam o ensino fundamental sem saber sequer ler um texto básico. Estima-se que somente 1% dos alunos de escolas públicas no Brasil são capazes de resolver uma simples equação usando o Teorema de Pitágoras, esse é o nosso drama, não conseguimos aprender o básico.

 

Alguns mais vividos atribuem o nosso problema educacional aos recentes governos ditos de esquerda, os mais saudosos dos governos militares dizem que naquele período a educação era melhor, porém, o que acontecia era que durante os governos militares a educação era restrita à elite, o pobre pouco ou quase nenhum acesso à educação tinha 1/3 da população brasileira era analfabeta nesse período, a evasão escolar era altíssima.

 

A nossa realidade educacional não avançou, e hoje, existem aquele que apostam na militarização das escolas como santo graal para uma revolução no ensino, a história mostra que não é esse o caminho, essa aposta não será eficaz, mas os governos adoram acreditar em panaceias, soluções que nunca antes ninguém pensou talvez governos e políticos sofram da loucura quixotesca que ao se deparar com a realidade brutal, passam a lidar com elas por óticas fantasiosas. Os burocratas e tecnocratas com seus moralismos, quando não os fanáticos religiosos, agravam esse cenário o transformando em guerra santa interferindo na espera soberana da educação, e a consequência disso? O caos que vivemos.

 

A grande verdade é que educação nunca foi encarada como política de Estado, um projeto desenvolvimentista para um país, a verdadeira independência de uma nação. Por aqui, nós preferimos apostar na especulação financeira, populismo barato, e autoritarismo para manter o povo no seu lugar, perpetuando assim, miséria, desigualdade, injustiça, como se vivêssemos em um eterno círculo vicioso. Aqui, em terra brasilis somos eternamente o país do futuro, o país da esperança, vivendo o sonho de um amanhã que nunca chega. 

 

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Entra governo e sai governo e o assunto educação não passa de plataforma política , pois educação no Brasil é uma mera conveniência política usada como instrumento nas mãos dos genocidas nacionais, pois com sua irresponsabilidade, condenam gerações inteiras a uma vida de subemprego, violência nas cidades, desigualdade social e tantos outros problemas relacionados com a falta de educação.

 

O Presidente Bolsonaro flerta em fazer parte da OCDE, que é um grupo de países ricos, o que talvez seja a pergunta óbvia a ser feita é: o que esses países têm em comum? Dai o leitor poderia me responder: tecnologia, infraestrutura, sistema jurídico e político forte e etc., mas eu acrescentaria mais um item a essa lista, um sistema educacional robusto, e não somente na educação superior, mas desde a educação básica até à universidade, esses países a cada ano aprimoram e investem em seus sistemas de ensino, sobretudo no século XXI, a era do domínio da informação onde conhecimento é poder. 

 

O resultado do último PISA divulgado esse ano de 2020, uma espécie de termômetro da qualidade do ensino e aprendizagem, mostra que 68% dos alunos até 15 anos nas escolas brasileiras não sabe resolver questões básicas de matemática. Daniel Barros, jornalista e escritor, autor do livro “País mal educado”, traz uma triste e grave realidade, apenas 1% dos alunos com idade até 15 são capazes de responder um simples Teorema de Pitágoras, 50% desses alunos não conseguem compreender o que leem, e esse é o país que segundo o Presidente da República quer fazer parte do clube dos ricos, o Brasil é uma piada pronta mesmo.

 

A tragédia da educação brasileira é pavimentada pelo descaso dos governos federais, estaduais e municipais, irresponsabilidade política, fraudes em licitações de merenda escolar, colégios onde a criança não tem carteira, ou onde abrigar porque não tem teto, professores sem treinamento, largados à própria sorte, sem incentivos para melhorar, com um salário que em muitos lugares é ultrajante, parece que a educação no Brasil é feita para não funcionar, como se esse estado de caos fosse o que realmente foi planejado para acontecer, o projeto arquitetônico da mediocridade deu certo.

 

Os atuais problemas com as provas do ENEM, universidades que não divulgaram suas listas com resultados dos vestibulares, os alunos que ficaram prejudicados, problemas no SISU, o lamentável e absurdo episódio de censura do governo de Rondônia, enfim, é apenas a ponta de um iceberg que aponta para um horizonte ainda mais desolador. 

 

O assunto “Educação” para o ministro Weintraub virou uma espécie de cruzada, em pouco tempo na direção da pasta, declarou guerra às universidades, guerra aos professores, guerra aos alunos, como se tivesse sido encarregado pelo próprio Messias (e de fato o foi) para limpar a terra santa dos hereges e impuros adoradores de Paulo Freire, os comunistas que se instalaram em todas as estâncias do sistema educacional brasileiro. 

 

Quando o Ato Institucional nº 5 foi instituído em dezembro de 1968, o vice-presidente civil do general Costa e Silva alertava sabiamente que o problema de uma lei como aquela não era o Presidente nem aqueles que com ele governavam, mas o guarda da esquina. O guarda da esquina do governo Bolsonaro? A Secretaria de Educação de Rondônia, levada pela onde antidemocrática que tem varrido o Brasil se avocou na posição de censora, proibindo o acesso a livros considerados impróprios para os alunos, uma espécie de codex proibido da Santa Inquisição bolsonarista capitaneado por seu general, seu ministro da educação. 

 

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A lição da história do mundo nem sempre é aprendida, ou ao que parece, é apenas ignorada pelos saudosos do fascismo e do autoritarismo. Em 1933, a Alemanha mostrava para o mundo o que viria ser conhecido como terror. Enquanto Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, o mesmo Goebbels reproduzido pelo secretário de cultura do presidente Bolsonaro, milhares de livros eram queimados em praça pública, e a partir dali, o Estado declarou uma guerra ao contraditório, ao diferente, uma onda sem precedentes se alastraria pela Alemanha, como uma praga o nazismo começou de dentro para o fora, nas salas de aulas se formavam os membros do partido nazista, da Schutzstaffel (SS), os perseguidores de judeus e minorias, delatores do Estado.

 

Pessoas como Eisntein, Freud, Hemingway, cientistas, pensadores, educadores, todos foram considerados impróprios, perturbadores da ordem. A censura promovida pelo Governo de Rondônia somente consegue produzir o que há de mais repugnante da humanidade, e o mais importante, nada contribui para o aprendizado do aluno. Obras como a de Machado de Assis poderiam melhorar a qualidade do ensino, melhorar a capacidade de compreensão dos alunos para interpretar textos, haja vista que o problema de leitura é uma das maiores deficiências dos alunos brasileiros.

 

Vivemos em um Estado pós-democrático de acordo com Rubens Casara, o Estado do ponto de vista político é um mero capataz de manutenção do status quo, fazendo apenas a gestão dos indesejados. Talvez exista uma ironia entre os xiitas bolsonaristas, vide Rondônia, e o personagem Brás Cubas de Machado de Assis, a gritante hipocrisia. Buscando reescrever a história, manipulando a realidade, pintando um cenário onde a obscuridade e prepotência pode ser descritas como o bem maior, entretanto, tudo o que fizeram foi somente buscar os seus próprios interesses. E a educação é uma ótima moeda de troca para os seus fins pessoais.

 

O ministro culpa os governos anteriores pelo fiasco que é a educação básica hoje no Brasil como mostra os resultados do IDEB e PISA. Se eu fosse um existencialista sartreano eu diria que o ministro age de má fé, o inferno está sempre no outro, a desculpa de todo incompetente para o serviço é culpar o outro, e assim se protege. 

 

Enquanto profissionais da educação, professores, gestores, setores da sociedade civil, e tantos outros estão lutando a batalha das Termópilas para fazer um pouco de diferença na vida do aluno, o líder mor (em tese deveria ser) ignora sua função para se perder em embates sem sentido e guerras ideológicas.  Culpar FHC, Lula, Dilma, o diabo que for não fará a educação brasileira dá o salto de qualidade que se precisa. Transformar a educação em campo de batalha não faz com que nossas crianças aprendam mais, declarar guerra às universidades, profissionais da educação não fará com que professores se sintam mais motivados a ensinar. Porém, culpar o outro é sempre a saída mais fácil porque não há responsabilidade a ser assumida.

 

Nosso drama é terrível, temos graves problemas, porém, temos também exemplos de excelência na educação brasileira. A cidade de Sobral no Ceará, por exemplo, conseguiu dá um salto de qualidade na educação, com planejamento estratégico, cronograma de metas, escola integral, professores qualificados, gestores escolares competentes, acompanhamento dos alunos em relação ao conteúdo ensinado e aprendido. Isso levou a cidade a ter um IDEB acima de média nacional. 

 

A educação é libertadora. Acredito que para muitas pessoas, a educação pode ser um divisor de águas, a chance de mudar a vida e sair de uma condição ancestral de miséria. O Brasil é um dos países mais desumanos e desiguais do mundo, talvez a resposta que buscamos para nossas mazelas esteja mesmo nas salas de aulas no nosso país.

 

 

Timóteo Bezerra da Silva é técnico em gestão educacional na Secretaria de Educação do Distrito Federal.


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Notas:

[1] GOMES, Laurentino. Escravidão: do primeiro leilão de cativos à morte de Zumbi dos Palmares. 1ª Ed. Globo Livros. Rio de Janeiro. 2019

[2] BARROS. Daniel. País mal educado: por que se aprende tão pouco nas escolas brasileiras? 1ª Ed. Record. 2018

[3] https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/nazi-propaganda-and-censorship, último acesso em 08/02/2020.

[4] CASARA. Rubens. Estado Pós-Democrático: neo-obscurantismo e a gestão dos indesejáveis. 2º Ed. Civilização Brasileira. 2017.

[5] ASSIS. Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 3ª Ed. Ciranda Cultural. 2019.

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