A frágil democracia burguesa
Quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A frágil democracia burguesa

Imagem: Miguel Schincariol

 

Por Rita de Cássia Moreira Jubini

 

“[…] aquela aparente desordem que é, na verdade, o mais alto grau de ordem burguesa.” (Dostoievski em Londres, 1862).

 

 

Ao analisar o tempo histórico sob a perspectiva dialética, as ideias sólidas se desmancham no ar.[1]

 

A atmosfera que rege a democracia burguesa é absolutamente frágil. Os golpes parlamentares ou militares que aconteceram, nos últimos anos, na América Latina, sustentam essa afirmativa. Aliás, é, também, através desses golpes, que o imperialismo se mostra como a sombra[2] que condiciona e administra a vida moderna. 

 

O discurso falacioso de que a narrativa marxista inibe a progressão da esquerda é facilmente refutado quando trazemos esses golpes à luz da discussão – principalmente o golpe de 2016, no Brasil.

 

Foi, justamente, num governo revisionista que a democracia [burguesa] caiu. O governo de Lula e, posteriormente, de Dilma, estiveram longe de aparelhar o Estado ou, até mesmo, de regulamentar a mídia. Fala-se, aqui, de governos que respeitaram ‘as regras’ de uma conjuntura ‘burguesa-democrática’. 

 

Isto é, nada tinham de viés ou práticas marxistas; sequer estimularam a consciência de classe; porém, assim mesmo, foram vítimas de um golpe. Um golpe que, a cada, vem sendo desmascarado.

 

Além disso, é possível trazer outros exemplos de governos progressistas da América Latina que caíram, apesar de suas posturas “mais duras”, em relação ao exemplo do Brasil. 

 

A Bolívia, de Evo Morales, ou a Venezuela, de Maduro, apesar das características governamentais, consideradas, talvez, mais autoritárias, não conseguiram inibir os golpes e nem as suas caóticas tentativas. Isso porque esses governos não desmantelaram as estruturas da luta de classes. 

 

Os ideais, embora progressistas, não foram suficientes para manter uma democracia mais igualitária em ascensão – aliás, é importante lembrar que, aqui, o objetivo não é definir as decisões tomadas pelos governos citados como “corretas” ou “erradas”; trata-se, na verdade, de uma análise mais profunda e menos maniqueísta. 

 

A grande semelhança entre o discurso neoliberal e o discurso neofascista é a ideia de que o marxismo (ou, em outras palavras, uma “esquerda radical”) seria um grande equívoco político e social.

 

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Por um lado, o neoliberalismo diz que um discurso mais revolucionário colocaria a democracia [burguesa] em risco. O que não faz muito sentido, uma vez que essa democracia vem caindo, como foi mencionado no texto, dentro do próprio contexto revisionista. E o neofascismo, por outro lado, deturpa o marxismo de uma forma ignóbil, confusa e delirante.

 

Uma vez que o neoliberalismo e que uma centro-esquerda dão ‘as costas’ para a corrente marxista, como uma forma de contrariá-la ou de dizer que “este não é o momento de falar”, fornece-se, assim, o monopólio do discurso para a ala fascista.

 

E é exatamente por isso que se faz tão necessário desconstruir essas ideias deturpadas e delirantes. É exatamente por isso que não se deve esperar “a hora certa” (se é que ela existe) para, finalmente, iniciar os trabalhos de base. 

 

Sim, o fascismo além de ser anticomunista, é antiliberal. Mas não é antiliberal por querer redistribuir as riquezas; é antiliberal por ser conservador. Ou seja, a lógica de manutenção da desigualdade social, concentração da riqueza e luta de classes, sob a estrutura de ambos, continuará sendo a mesma (porém, é claro, em proporções distintas). 

 

A ideia marxista é a única que alcança as estruturas fajutas de uma sociedade que, embora tenha tido os seus avanços significativos, somente consegue lidar, em suas práticas governamentais e filosóficas, com os sintomas, e não com as causas das mazelas. E, às mazelas, não se refere, apenas, à desigualdade social. A questão do suicídio[3], do machismo[4], do racismo, da homofobia, da xenofobia…. Todas essas mazelas são produtos de séculos e séculos de luta de classes. Esses problemas coexistem com a luta de classes (que, é importante lembrar, vai além do capitalismo). 

 

As Revoluções Burguesas, como o próprio Marx reconhece, foram fundamentais para os progressos sociais, na perspectiva dialética. Porém, elas não alcançaram o ‘coringa’ das grandes desigualdades que permeia a economia e que é responsável pela fragmentação social.

 

Pois então, que falemos mais sobre o marxismo! Que sejamos mais responsáveis e mais científicos! Que tiremos o monopólio, sobre o assunto, de uma direita neofascista, incoerente e mística! Que relembremos do sentido positivo da palavra utopia!

 

Se não formos nós, quem desconstruirá essa ideia nefasta que se tem sobre uma corrente tão coerente e libertadora? 

 

 

Rita de Cássia Moreira Jubini é formada em História pela Universidade São Camilo, ES


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Notas:

  1. Frase retirada do Manifesto do Partido Comunista (1848).  Editorial Avante!, Lisboa, Portugal, 1997.
  2. Referência a passagem de “Os Miseráveis”, em que Vitor Hugo traz a seguinte reflexão: “Aos ignorantes, ensinem o máximo de coisas que puderem: a sociedade é culpada por não ministrar a instrução gratuita; ela é responsável pelas trevas que produz. Uma alma cheia de sombras é onde o pecado acontece. A culpa não é de quem pecou, mas de quem fez a sombra”.
  3. Referência ao ensaio “Sobre o Suicídio”, de Karl Marx (1846). O livro impresso pela Editora Boitempo (2018) traz consigo um conteúdo parcial, com o título de “Um Marx Insólito”, obra de Michael Löwy (1938), em que há a seguinte passagem: “A classificação das causas do suicídio é uma classificação dos males da sociedade burguesa moderna, que não podem ser suprimidos – aqui é Marx quem fala – sem uma transformação radical da estrutura social e econômica”.
  4. Outra referência ao ensaio “Sobre o Suicídio”, de Karl Marx (1846), em que o livro impresso pela Editora Boitempo (2018) traz consigo um conteúdo parcial, com o título de “Um Marx Insólito”, obra de Michael Löwy (1938): “[…] Esse texto de Marx é uma das mais poderosas peças de acusação à opressão contra as mulheres já publicadas. Três dos quatro casos de suicídio mencionados nos excertos se referem a mulheres vítimas do patriarcado ou, nas palavras de Peuchet/Marx, da tirania familiar, uma forma de poder arbitrário que não foi derrubada pela Revolução Francesa”.
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