O que existe de realidade social nos filmes que ganharam o Oscar?
Quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O que existe de realidade social nos filmes que ganharam o Oscar?

Imagem: Reprodução – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Lillian Lages Lino

 

Em diferentes países e contextos sócio, econômico e culturais, no ano de 2019, foram lançados três filmes emblemáticos.

 

 

Bacurau, Coringa e Parasita. O primeiro, representante nacional sob a direção de Kleber Mendonça Filho, narra a história de moradores do sertão brasileiro que descobrem que não estão em qualquer mapa. Drones monitoram a região e estrangeiros invadem o povoado, iniciando um conflito e um ato de resistência dos moradores de Bacurau.

 

O segundo filme, Coringa, é um blockbuster norte americano que já teve diversas filmagens, sendo a primeira em 1940- e a mais recente no último ano, chegando a render o Oscar de melhor ator para Joaquin Phoenix. O famoso palhaço do crime, ou ainda, o grande anti-herói das histórias em quadrinho, Arthur Fleck, trabalha em uma agência de talentos e comparece semanalmente para ver uma assistente social para lidar com seus problemas mentais. 

 

Após uma confusão no trabalho, Fleck é demitido e suas questões ganham novas dimensões. Ele chega a ser agredido no metrô, reage e mata três rapazes. Sendo estes rapazes da elite, inicia-se uma caça aos palhaços pelos meios de comunicação. O que estava no âmbito pessoal e psicológico ganha contornos político-sociais.

 

Saindo do Oscar com 4 estatuetas, incluindo Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro – algo único no histórico da premiação, o sul-coreano Parasita, discorre sobre a história de uma família de classe baixa que está desempregada, morando em um porão, em uma área desprivilegiada da cidade com diversos fios expostos e sujeira na rua,  e que , por meio do contato de um amigo, vê a chance de trabalho e ascensão social ao trabalharem para uma família de classe alta, que vive em uma mansão. 

 

O conflito de classes é notável e, muitas vezes, trágico-cômico, a exemplo da proprietária da mansão comentar que a chuva do dia anterior tinha sido gostosa, enquanto que o motorista ouve tudo e relembra que a água tomou conta da sua casa, perdeu tudo e está dormindo em um abrigo.

 

Mas o que há de comum entre estes três filmes tão cultural e geograficamente alijados e o que eles representam? Cada um a seu modo e com suas especificidades, seja em Bacurau, Gothan City ou na Coréia do Sul, representa a desigualdade social que está atingindo patamares alarmantes e que conclama atenção e um debate profundo.

 

De acordo com a confederação global Oxfam, a desigualdade social atingiu níveis recordes e o número de bilionários dobrou na última década. Os bilionários têm mais riqueza que 60% da população mundial e o 1% mais rico do mundo tem mais do que o dobro da riqueza do resto da humanidade combinada.

 

Mais do que revelar dados econômicos, o relatório conclui que essa desigualdade é sexista e atinge muito fortemente as mulheres. Elas atuam em trabalhos domésticos e de cuidado não remunerados e representam 75% em nível global.

 

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Dentre os sete temas que seriam discutidos em Davos, estava o de economias mais justas. Ou seja, a desigualdade estava em pauta no Fórum Econômico Mundial deste ano. 

 

Neste contexto, como atua o Estado de bem-estar social?  Esping-Andersen (1993) destaca que o welfare state recorrentemente é analisado sob dois prismas: o estrututuralista e o que enfatiza instituições e atores. Enquanto que o primeiro concebe os fenômenos de maneira holística, muitas vezes se sobrepondo às culturas, entendendo a força das estruturas sociais que se desenvolvem no capitalismo, o segundo entende que a economia está intrinsicamente imbricada com as instituições políticas e sociais. 

 

Com base nesta segunda visão, identifica-se que a concepção de cidadania social de T. H. Marshall (1950) seria a base desse Estado de bem-estar social. Ele deve ser compreendido como um sistema de direitos e garantias mas não apenas. Também deve ser concebido na sua relação com o mercado e com a família no que concerne à provisão social. 

 

Amarrado em governos neoliberais e promessas de solução com privatizações, o Brasil está bastante distante desse ideal de cidadania social e é o 7º país mais desigual do mundo, ficando atrás de países africanos.

 

Com recursos orçamentários modestos, o programa Bolsa Família tem alto impacto social. Além de reduzir a pobreza e a extrema pobreza, tem mostrado avanço na redução da desigualdade social, conforme comprovam os índices de Gini.

 

Na contramão desse avanço, apesar de ter criado a parcela de 13º para o auxílio, ainda que sem aumento real seguindo a inflação, o atual governo Jair Bolsonaro faz sucessivos cortes no programa. Foram excluídos 8% dos beneficiados no curto prazo de 6 meses e criou-se uma lista de espera.

 

Esse cenário espelha muito bem o que é retratado no filme Eu, Daniel Blake: as dificuldades criadas sistematicamente pelos governos que burocratizam e muitas vezes impedem o acesso aos serviços públicos de assistência social. 

 

Ainda que não seja atual o cinema retratar as mais diversas mazelas sociais , chama a atenção a concomitância do lançamento de Bacurau, Coringa e Parasita. Culturalmente e geograficamente heterogêneos, estes filmes iluminam a mesma questão macro da desigualdade social e o vácuo de políticas públicas que estamos vivenciando nesta ausência de um efetivo Estado de bem-estar social. Parafraseando o diretor de Parasita, Bong Joon-Ho, “todos vivemos no mesmo país, chamado Capitalismo.”

 

 

Lillian Lages Lino é Doutoranda em Ciência Política na Universidade Federal de São Carlos. Mestra em Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo. Servidora Pública na Universidade Federal de São Paulo.


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