O Parasita e o mundo do trabalho
Quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

O Parasita e o mundo do trabalho

Imagem: Filme “Parasita”

 

Por José Paulo Caires

 

O filme sul-coreano Parasita, do diretor Bong Joon Hoo, fez história na cerimônia do Oscar de 2019, em Los Angeles. Foi o primeiro filme não falado em inglês que levou a estatueta de Melhor Filme, o prêmio mais importante da noite.

 

 

Além da importância de levar ao público mundial um olhar diferente das narrativas já habituais de Hollywood, o filme proporciona também reflexões sobre as relações sociais e o mundo do trabalho.

 

Chama atenção de início a quebra de paradigma quanto à realidade da sociedade sul-coreana, sobre a qual as poucas notícias que chegam ao Brasil por meio da grande mídia nos induzem a crer que se trata de um país plenamente desenvolvido e tecnológico. 

 

A realidade retratada no filme, contudo, demonstra que a Coréia do Sul sofre com os problemas causados pela desigualdade social e pela emergência de trabalhos precarizados. Assim, é possível enxergar nos dramas vividos pelos personagens da família Ki-taek a realidade de milhões de brasileiros.

 

Na primeira parte do filme, a família pobre nos é apresentada desempenhando um trabalho repetitivo, marginal e mal-remunerado: típico de sociedades que vivem o problema do desemprego estrutural, à família de Kim é relegado o papel apenas de montar as embalagens para pizzas, trabalhando em casa, de forma temporária, recebendo por produção e sendo cobrados a render cada vez mais.

 

É de se notar também que tanto na primeira parte do filme, em que monta embalagens de pizzas, quanto na segunda parte, em que trabalham na casa da família rica, os Ki-taek estão sempre ocupados em posições relacionadas ao setor de serviços. No mundo tomado pela introdução avassaladora de novas tecnologias, pouco espaço sobra para que a classe trabalhadora se ocupe na agricultura e na indústria.

 

É o que o sociólogo Ricardo Antunes define como um movimento pendular¹, que se caracteriza por cada cada vez menos indivíduos trabalhando além dos seus limites em trabalhos estáveis e cada vez mais indivíduos com pouco trabalho, aceitando qualquer forma de trabalho, como é o caso dos Ki-taek.

 

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E se aceitam qualquer ocupação, evidente que irão fazer de tudo para conseguir tarefas que lhe paguem melhor, ainda que não sejam qualificados para tanto. A trama se enreda então para a entrada gradual da família de Kim na residência dos Park.

 

O filho se ocupa das aulas de inglês, a filha demonstra dominar habilidades de arte para ensinar ao caçula dos Park, a mãe se apresenta como uma completa governanta e o pai se mostra um exímio motorista.

 

Para conseguir os empregos, a família Ki-taek não demonstra o menor escrúpulo e é provável que a partir daqui o leitor e a leitora tenham a dimensão de que começa a se mostrar quem são os parasitas que dão o nome ao filme.

 

A conquista pelos Ki-taek dos trabalhos disponíveis na família Kim, não medindo esforços para alijar dos postos aqueles que os ocupam é um fiel retrato da influência do pensamento neoliberal na classe trabalhadora.

 

Ao atribuir caráter de inevitabilidade para as políticas neoliberais, como são exemplo no Brasil a reforma trabalhista e a reforma da previdência, a classe dominante alija a classe trabalhadora de se opor a tais medidas, de modo que até quem tem a perder com os efeitos das reformas propostas é induzido a apoiar aquilo que lhes será prejudicial, acreditando que não há alternativa que não o crescimento máximo econômico, com aumento da produtividade e da competitividade. O sacrifício será necessário.

 

Dessa maneira, o clássico conflito entre capital e trabalho é transferido para trabalho e trabalho, atribuindo à meritocracia o poder de definir vencedores e perdedores na sociedade, apropriando-se e ressignificando demandas e aspirações de parcela das classes dominadas.

 

Se a conquista do posto de trabalho é definido por competência e merecimento, não há dúvidas de que ninguém merece o cargo mais do que eu. Mais do que minha família. Ora, dane-se o fato de que você nunca deu aulas de artes ou de que nunca dirigiu uma Mercedes. Você consegue. E, além do mais, o outro trabalhador nem era tão bom assim.

 

É curioso notar também a crítica sutil ao modo com que são escolhidos aqueles que vão prestar serviços à família Park. Quando indagado sobre referências de governanta, Kim apresenta logo um cartão de visitas feito em papel de alto padrão de uma suposta empresa “premium”, que oferece serviços pra clientes de classe alta.

 

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Basta para que o pai aceite a indicação, tomando por base tão somente o nome da empresa e a qualidade do papel. Não toma sequer a precaução de ligar em busca de referência. 

 

É a busca incessante pela exclusividade, pelo “premium”, pelo “gourmet”. Não basta mais tomar os serviços domésticos, é preciso algo que lhe garantam ser o melhor. Os serviços passam a ser vistos, portanto, como mercadoria a ser ostentada e exibida como troféu, sem que se dêem conta de que se trata apenas dos mesmos serviços prestados há décadas por aqueles que só têm a oferecer a força de trabalho.

 

Chegamos assim na última parte do filme, em que explode o conflito social após a forte chuva que cai sobre a cidade. Enquanto para a família dos Park a chuva é uma benção, pois limpa o tempo e torna possível a festa no jardim, para os Ki-taek é a ruína: é a inundação da casa, é a perda dos bens, é a noite desconfortável no jardim.

 

No mundo em que qualquer trabalho é o melhor trabalho e o maior inimigo é o trabalhador que dorme no ginásio ao seu lado, contudo, não há tempo para desculpas, para tomar conta dos seus próprios problemas e dilemas. 

 

Os Ki-taek devem se apressar, a festa já vai começar. É de se notar que os Park sequer cogitam a existência da realidade dos seus empregados além dos limites da sua própria casa. É como se a família de Kim só existisse para serví-los, atores indispensáveis para a harmonia do espetáculo da família perfeita. E quem não estaria feliz num domingo de sol não é? Os Ki-taek conseguem disfarçar tudo, menos o cheiro.

 

Na definição do dicionário Houaiss, parasita é “organismo que vive de e em outro organismo, dele obtendo alimento e não raro causando-lhe dano.” No mundo do trabalho do século XXI, os Park só vivem porque há muitos Ki-taek para lhes servir. Não há dúvidas também de que a sina dos Ki-taek do mundo seja sofrer danos. Ao final do filme, a pergunta que ecoa é: quem são os parasitas?

 

 

José Paulo Caires é Especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela USP – Ribeirão Preto. Graduado em direito pela UNESP. Membro do GPTC – Grupo de Pesquisa Capital e Trabalho. Advogado trabalhista.


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Notas:

[1] ANTUNES, Ricardo. Dimensões da Precarização Estrutural, 2012. In. DRUCK, Graça; FRANCO, Tânia (org.) A perda da razão social do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2007

Quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
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