55 anos sem Malcom X
Segunda-feira, 2 de março de 2020

55 anos sem Malcom X

Imagem: Reprodução

 

Por Luanda Julião

 

Terminei ontem de assistir o documentário dividido em seis episódios, intitulado Quem matou Malcom X? com um nó na garganta e nos pensamentos, com aquele mal estar que as injustiças são capazes de causar na gente. Injustiças as quais Malcom X engajou-se durante grande parte de sua vida em denunciá-las em combatê-las. 

 

 

No dia 21 de fevereiro de 1965 Malcom X foi assassinado no auditório do Audubon Ballroom, no Harlem, em Nova York, enquanto discursava para um público que incluía sua mulher e suas filhas. Na época, não era segredo para ninguém que, desde que ele abandonara a Nação do Islã e conquistara os holofotes da mídia nacional e internacional em suas palestras que escancaravam as injustiças e a violência infligida à população negra, ele estava na mira do FBI, que o espionava constantemente. Malcom X também estava na mira dos fanáticos da Nação do Islã, que o viam como um traidor. A casa em que ele e sua família moravam foi incendiada uma semana antes do crime que tiraria a sua vida. Ele mesmo já havia afirmado em diversas entrevistas que sabia que estava correndo perigo. 

 

Malcom X é considerado um dos mais polêmicos e populares líderes do movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Em meados da década de 1960, ele se tornou herói e exemplo de superação para muitas pessoas que não viam perspectivas na mudança do quadro social e legislativo da população negra. Engajado em mudar a vida dos negros nos Estados Unidos, seus discursos calorosos e sinceros atrairam uma legião de seguidores ávidos por mudanças diante das práticas racistas e a violação dos direitos. Era corajoso e ardil em sua batalha pelo reconhecimento da cidadania dos negros. Batalha que faz seu pensamento ecoar até hoje quando falamos na violência sofrida pela população negra no Brasil e no mundo. 

 

Seus discursos escancaravam a violência policial, a vida nos guetos, a sub-cidadania dos negros e a falsa democracia. Falsa porque contemplava apenas os brancos e relegava aos negros uma vida de exclusão, humilhação e pobreza. Malcom X exigia mudanças. As injustiças sofridas por ele em sua infância e juventude e por outros negros suscitaram nele uma revolta que o colocou em ação. Clamava bravamente por justiça e liberdade. Era contra a passividade na batalha pelo reconhecimento dos direitos dos negros e na luta contra o racismo. 

 

Malcom X nasceu como Malcom Little no dia 19 de maio de 1925 em North Omaha, Nebrasca. Anos mais tarde, convertendo-se ao islamismo, recusou Little (sobrenome herdado do período escravocrata) e adotou a letra X como sobrenome. Desde a infância, sua vida foi atravessada pela violência racial.  Com apenas quatro anos de idade viu sua casa ser incendiada por racistas. Dois anos depois, seu pai, um pastor batista e membro da Associação Universal para o Progresso Negro foi assassinado por membros do Ku Klux Klan. Sua mãe, com dificuldades para sustentar os filhos teve um colapso nervoso e foi internada num hospital psiquiátrico. Malcom e seus irmãos foram separados e levados para lares adotivos. Alguns anos depois, ele abandonou a escola e foi morar com a sua irmã mais velha. Neste período, conseguiu sobreviver trabalhando como engraxate e na estação ferroviária. Até descobrir que com o tráfico de drogas e assaltos às residências conseguiria muito mais dinheiro. Aos 20 anos de idade foi preso e condenado, sendo libertado sete anos depois. É a partir de então que começou a sua transformação.  Malcom X tornou-se integrante ativo da Nação do Islã e rapidamente conquistou posições importantes. Em 1953, após adquirir a confiança do líder Elijah Muhammed, foi nomeado como o principal ministro. Em 1958 começou a viajar por diversos lugares dos Estados Unidos com o intuito de inaugurar templos e atrair milhares de fiéis para a Nação do Islã. Nesta época, espalhava a ideia separatista das raças com a criação de um Estado independente para os negros. É justamente nesse período que Malcom começou a aparecer nas universidades, nas capas de revista, nos programas de rádio e televisão. Torna-se uma das figuras mais importantes no debate sobre o racismo e seus comícios e palestras começam a despertar a curiosidade do governo, que passa a ver nele uma ameaça, pois coloca publicamente em debate as concepções sobre a política, poder e cidadania da sociedade do seu tempo. Sua situação piora em 1964, quando a Nação do Islã também passa a vê-lo como uma ameaça, ou melhor, um traidor. 

 

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Longe de Elijah Muhammed, Malcom X começou a trilhar o seu próprio caminho. Após a peregrinação a Meca, cidade sagrada do Islã, Malcom X passou a adotar outro nome: Al haji Malik Al-Habazz. Além do novo nome, Malcom X viu um horizonte ilimitado se abrir diante dele. Horizonte este que engrandeceu sua ideologia e o tornou mais reconciliador e pacifista, a ponto de admitir que os brancos também poderiam ajudar na luta contra o racismo. É essa mudança de perspectiva que o fez fundar a Organização da Unidade Afro-americana, uma organização não religiosa que defendia os direitos humanos para todos os descendentes de africanos. 

 

O documentário, disponível desde o início de fevereiro no catálogo da Netflix, acompanha a ardorosa pesquisa e investigação do ativista Abdur-Rahman Muhammad, que dedicou trinta anos de sua vida rastreando provas que desvendassem as fraudes e as farsas montadas no crime que tirou a vida de Malcom X. 

 

Determinado em descobrir a verdade a respeito do assassinato, Muhammad passou anos da sua vida analisando documentos e relatórios, entrevistando antigos membros das mesquitas da Nação do Islã em Nova Jersey e em Nova York. Os resultados e as evidências de sua extensa investigação são mostrados na série: a condenação de dois homens inocentes, os erros gritantes cometidos pelos investigadores, a omissão e despreocupação da polícia que ignorou e omitiu fatos, as ações (ou a falta delas) do governo, da mídia, da polícia e do FBI  que rapidamente encerraram o caso e que direta ou indiretamente contribuíram para a morte do fundador da Organização para a Unidade Afro-Americana. Em suma, os reais motivos para o massacre de Malcom X.

 

O que chama a atenção no documentário é que ninguém nas estruturas de poder se importou em desvendar verdadeiramente o assassinato de Malcom X. A imprensa da época, comandada pelos brancos, noticiou o ocorrido, mas tendenciosamente, como se Malcom X fosse o culpado do seu próprio assassinato ou como o crime fosse o resultado de uma rivalidade entre gangues de negros extremistas e radicais. Imediatamente após o crime, a polícia alegou que os criminosos eram do Harlem e apresentaram três acusados, os quais foram condenados, e rapidamente encerraram o caso.

 

Muhammad discorda da investigação policial, a qual apresenta inúmeras falhas. Ao perscrutar os relatórios criminais, Muhammad percebe que muitos dados foram encobertos pelo governo e pela polícia, levantando a questão de um assassinato político e revelando a passividade jurídica em relação ao caso. 

 

Em suas pesquisas, Muhammad descobre que dos três homens que foram presos e condenados (Talmadge Hayer, preso em flagrante e Thomas 15X Johson e Norman 3X Butler algumas semanas após o crime) apenas Talmadge Hayer participou de fato do crime. Os outros dois são inocentes, pois segundo as evidências apresentadas eles nem estavam na cena do crime. Muhammad aprofunda sua busca pela verdade e descobre o envolvimento de quatro membros de uma mesquita da Nação do Islã em Newark (Nova Jersey) delineando o envolvimento deles como um segredo aberto na cidade. O que choca nas revelações não é o fato de muitos moradores de Newark saberem do envolvimento de moradores no crime, mas isso ser ignorado pela própria polícia. 

 

Os policiais e o FBI aproveitaram o fato de Malcom X ter abdicado da Nação do Islã e criado inimigos para rapidamente encerrar o caso incriminando alguns membros da Nação do Islã. No entanto, mesmo depois de Talmadge Hayer afirmar que os outros dois condenados não tinham nada a ver com o assassinato, a justiça americana nunca reabriu o caso. Inúmeras tentativas de reabertura do processo foram feitas, todas elas sem êxito. A esperança é de que agora, depois do documentário mostrar claramente o quanto a polícia foi conivente com o crime, o caso seja reinvestigado e a verdade venha à tona. E que a justiça, enormemente almejada por Malcom X em seus discursos, seja feita. 

 

 

Luanda Julião é Doutoranda em Filosofia Francesa Contemporânea pela Universidade Federal de São Carlos. Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Professora de História e Filosofia na Escola Estadual Visconde de Itaúna.


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